por Oscar D'Ambrosio


 

 


José Antônio da Silva

 

            Elixir de criatividade

 

            Há pintores que, com o passar dos anos, transformam-se em mitos. É o caso de José Antônio da Silva. Considerado o maior artista plástico primitivista brasileiro com uma obra marcada pela mescla do uso de tons quentes e diversas gamas de verde, além de numerosas soluções visuais surpreendentes para os mais variados temas, ele justifica, ao longo do tempo, o título que lhe é atribuído.

            Nascido em 1909, em Sales de Oliveira (SP), e falecido em São Paulo (1996), para onde se mudou após se aposentar do seu trabalho como funcionário público em São José do Rio Preto, foi pintor, desenhista e escritor, sempre com um estilo muito próprio, oriundo de um poder inato de comunicar as suas agonias e felicidades.

Mestre em retratar trabalhadores agrícolas, carros de boi, festas, jogos e procissões, filho de trabalhadores rurais, Silva freqüentou a escola por poucos meses e ganhou a vida como lavrador durante muitos anos em diversas fazendas paulistas, exercendo ainda outras atividades, como benzedor, folião de reis e fiscal de eleições.

Nos anos 1930, já pintava em tábuas de caixão com tinta de madeira, principalmente cenas sacras. Na década seguinte, abandonou o campo e se mudou para a região urbana de São José do Rio Preto, SP. Em 1946, expôs seus primeiros quadros sobre o mundo caipira num salão de arte da Casa da Cultura local.

            O crítico Paulo Mendes de Almeida, que integrava o júri da exposição, foi enfático em reconhecer o talento do novo artista, e Silva foi anunciado vencedor. Quando o artista se apresentou, porém, com o seu jeito matuto, foi recolocado em quarto lugar, com uma pintura chamada de “caipira” por levar para as telas a sua vivência no campo.

            Parte desse preconceito o acompanhou a vida toda. Autodidata, sua pintura, ao registrar cenas e histórias da vida rural brasileira, como plantações, colheitas, boiadas e particularíssimas visões de religião e política, em meados de 1940, a obra de Silva começou a ser valorizada por diversos críticos, que a levaram para importantes exposições, como as bienais de São Paulo, Havana e Veneza. O atributo mais citado nesse momento foi a espontaneidade do pintor para tratar daquele universo rural que conhecia tão bem.

Silva participou da primeira Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, tendo recebido o Prêmio de Aquisição, em 1961, sob os auspícios do Museu de Arte Moderna de Nova York. Em 1966, recebeu inclusive uma sala especial na XXVII Bienal de Veneza, sendo aclamado pela sua espontaneidade e pelo seu talento em retratar a vida do interior paulista.

Ao longo de seu percurso, seja nas imagens pintadas sobre flanela, em suas produções sobre tela, naquelas marcadas por um pontilhismo peculiar e pelos últimos trabalhos, definidos por uma distinção maior entre figura e fundo, Silva gravou um LP de músicas de sua autoria e escreveu três romances – em que mistura fatos biográficos com episódios imaginários; um deles, Maria Clara, prefaciado pelo crítico literário Antonio Candido – todos ilustrados por ele, além de fundar, em São José do Rio Preto, o Museu de Arte Contemporânea.

Tanto como pintor e como cantor do rico repertório folclórico do interior paulista, Silva, ex-lavrador e semi-analfabeto tornou-se, com seus registros sobre a vida rural brasileira, o paradigma dos artistas primitivistas nacionais. Além do seu talento nato, algumas atitudes colaboraram para isso.

Em 1970, por exemplo, ao julgar baixa uma proposta de aquisição de alguns de seus quadros por uma galeria do Rio de Janeiro, destruiu mais de 250 telas com uma faca. Três anos depois, comprou os quadros de sua mulher, a estreante Dona Rosinha, e os rasgou, apoiado em sua declaração (“Nesta casa basta um artista”, desse, na ocasião).  

Magoado por ter sido excluído da IV Bienal de São Paulo, em 1957, sob alegação de que usava pontilhismo, requinte técnico considerado proibido aos primitivistas, Silva pintou Enforcamento. A tela, recriada dez anos depois, mostra a comissão de cinco críticos que o rejeitou pendurada em um patíbulo e, na parte inferior, as almas deles, com cabeças de burro, ardendo no inferno. A imagem é violenta e precisa em sua contestação do status quo do mundo das artes.

            Parte de suas obras, principalmente as que contam a história de São José do Rio Preto, como a chegada dos fundadores, o primeiro trem, a construção da primeira casa de pau-a-pique e a existência do primeiro matadouro, estão no Museu de Arte primitivista da cidade, que leva o nome do artista.

Com significativa repercussão internacional após ter participado da Trienal de Arte Primitiva de Bratislava, Eslováquia, e da II Bienal Hispano-Americana de Havana, Cuba, Silva, que ilustrava os próprios romances, tinha ainda uma personalidade encantadoramente megalomaníaca.

            Em 1981 e 1984, por exemplo, pintou versões de Três gênios da pintura, onde dá esse atributo a Picasso, Volpi e a si mesmo. Trabalhos como esses, mais expressionistas, contrastam com uma linguagem  mais lírica de outras telas, como a maioria das que focaliza o mundo rural, além da obra intitulada Minha mãe (1965), com um resultado surpreendentemente próximo ao pontilhismo.

            Execução de Tiradentes, de 1981, retoma o tema do enforcamento, agora de um dos heróis nacionais, numa perspectiva em que se mesclam, inclusive alusões à morte de Jesus, tema de alguns trabalhos, sempre por um prisma inovador. Eles se misturam, gerando um universo imagético diferenciado, de múltiplas influências, mas que se diluem perante a energia criativa de Silva.

Pintado em 1971, Cristo da Maceno comprova o talento de Silva nas mais variadas situações. O quadro surgiu a partir de um fato real. A água acumulada pelas chuvas passou a pingar dos braços de uma imagem de Cristo de 8 m de altura na Vila Maceno, em São José do Rio Preto, ganhando a fama de milagrosa e atraindo centenas de fiéis.

Silva não revela compaixão pela crendice popular ao compor seu quadro. Utiliza arbitrariamente as cores (o Cristo é pintado de vermelho, por exemplo) e retrata os cidadãos que se abrigam sob os braços da imagem com tarjas negras nos rostos, símbolo de uma fé cega. O vendedor de pipocas é a exceção, pois vê naquele momento de fé desmedida uma ocasião para ganhar muito dinheiro rapidamente.

O trabalho na lavoura, o lazer no interior (violeiros, futebol no arraial), a religião (figuras de santos e procissões) e costumes do interior (festas populares e familiares) são os temas que Silva retratou em quatro fases: telas de colorido escuro (1946/48), de matizes mais claros (1948/55), de ampla luminosidade (1955/68) e, finalmente, um período híbrido (a partir de 1968).

O primitivismo clássico, o impressionismo e o surrealismo se confundem nesses quadros. Estilisticamente, o pontilhismo também comparece e frases escritas nas telas ou mesmo a própria assinatura do pintor auxiliam a atingir o equilíbrio em diversas composições.

Elogiado por críticos como Anatole Jacovski, Pietro Maria Bardi, Theon Spanudis e Flávio de Aquino e o cronista Rubem Braga, o artista apresenta algumas características recorrentes, que o incluem entre os mais importantes primitivistas brasileiros, principalmente o modo de tratar as imagens, fugindo aos cânones da pintura acadêmica.

Telas como Casebre na mata mostram a construção rústica em branco e o teto amarelo. Surge então um caminho estreito em meio às árvores de tronco negro e à vegetação densa, repleta de verdes e brancos. Os repentistas é ainda mais significativo pela desproporção entre rostos e braços. As unhas são mostradas com pinceladas brancas e os personagens do Interior com barba e chapéu característico.  

Imagens do Corcovado apresentam semelhanças com o abstracionismo de Cézanne, com pinceladas breves e justapostas ou árvores retorcidas. Noites plenas de vermelhos e amarelos acentuam o diálogo também com mestres do expressionismo, como Van Gogh.

            Entre as temáticas preferidas do artista, está o carro de boi, adotado como uma espécie de símbolo da vida caipira, além de imagens com chuva em meio ao mato. Surgem assim cenas de puro encantamento, como o uso de torrenciais tempestades em branco e a presença de inúmeros guarda-chuvas negros. Bois vermelhos com chifres descomunais e rostos expressivos traçados com extrema simplicidade são imagens constantes.

            A diversidade de temas e a riqueza de cores impressionam. Seja pela forma única de tratar o universo rural, com intensidade plástica, ou pelas telas de caráter mais biográfico, com um impressionante poder corrosivo e de crítica em termos de conteúdo, embora aparentemente ingênuo na expressão, José Antônio da Silva é referência obrigatória quando se escreve, fala ou simplesmente se pensa na arte primitivista brasileira.

            Mestre único, Silva tem como discípulos os admiradores da arte primitivista, esse universo que mescla o ingênuo com o engajado e a falta de técnica formal com respostas pictóricas de insuspeitada e inesperada qualidade. O artista paulista conjuga esses elementos como poucos no País e encanta, principalmente em suas obras mais antigas, pelos contornos mais espessos e pela espontaneidade livre de quaisquer influências, a não ser as da própria vivência e sensibilidade, retratando o mundo rural de maneira como até então não havia sido vista na arte brasileira, introduzindo nela um elixir de criatividade e renovação até hoje não devidamente assimilado e, muito menos, esgotado.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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  Chegada de João Bernardino de Seixas Ribeiro 
óleo sobre tela 100 x 60 cm 1966

José Antônio da Silva 

 

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