por Oscar D'Ambrosio


 

 


 
Jorge Prado

 

            A arte do interesse

 

            O filósofo alemão Martin Heidegger, em Que significa pensar?, estabelece a diferença entre “interesse” e “interessante”. O primeiro termo é interpretado como “ser sob, entre e no meio das coisas”, enquanto o segundo é aplicado para aqueles objetos, fatos ou situações que nos prendem  a atenção por pouco tempo, logo nos levando à dispersão.

            A arte de Jorge Prado é do universo do “interesse”. Contém um convite para que a olhemos por longo tempo, persistindo nessa ação. O trabalho plástico que realiza, seja em pintura ou em criações em que mistura técnicas como o bordado e a colagem, cativa justamente por uma palavra mágica no universo artístico: compromisso.

            Psicólogo de formação, com curso de pedagogia curativa e prática no atendimento a crianças excepcionais na Inglaterra, Prado concebe cada obra com o compromisso de dar o melhor de si. Não há a imposição de uma série, mas a credibilidade conquistada pela forma como cada objeto plástico é construído.

            Seja pelo uso de manchas de cor, principalmente marrons, ocres e certos tons de lilás e roxo, conquista o observador pela delicadeza e expressividade. Esses dois atributos podem parecer antagônicos, mas se complementam no caso de Prado, que se permite experimentar continuamente em busca do melhor resultado.

            Nascido em 23 de agosto de 1951, em Monte Aprazível, SP, mas radicado em São Paulo, SP, onde faleceu, em 2007, Jorge Prado apresenta a temática citadina como uma das mais expressivas. O seu mundo urbano, no entanto, não é visível num primeiro golpe de vista. Ele exige um certo processo de percepção, um tempo de contemplação e observação atenta de formas e cores.

            Aí está o interesse de que Heidegger falava. Com quadros utilizados como ilustrações de livros da Editora Antroposófica, Prado revela, em cada obra, uma interpretação de mundo em que o detalhe ganha o primeiro plano. O trabalho com manchas de cor, uma estética de apego à cor e às suas combinações e um talento muito pessoal para desvendar a linguagem dos materiais tornam o mimo visível de cada trabalho no máximo de sensibilidade.

            Prado já pintou papagaios, mergulhou nas infinitas possibilidades do azul, descreveu a própria trajetória existencial metaforicamente e criou cidades invisíveis. Acima de tudo, transforma seus momentos de vida em arte que desperta interesse. Para isso, vale-se de um inato talento no trabalho com as tonalidades e um grande amor a cada material, seja a prata, a folha de ouro ou os mais variados elementos, como um tapete ou um tecido qualquer.

            Acima de tudo, um esteta, no sentido de saber ver a estética presente na própria vida, Jorge Prado sabe formar um círculo de atenções em torno de seu trabalho. Cada peça que cria concentra suas principais qualidades: saber retirar de cada objeto ou pigmento o que ele pode oferecer de melhor em termos de resultado plástico e poético.

           

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

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 Abstrato II 
Técnica mista sem data

Jorge Prado
  

 

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