por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Jorge Branco

 

            O espírito das cidades

 

            O escritor francês André Suarès (1868-1948), em Valores, afirmou que “as cidades são as paisagens mais belas”. De fato, no exercício humano de construção do mundo urbano, encontra-se uma poesia que muitas vezes passa despercebida. O lirismo de uma cidade está na capacidade de apreender a sua sutil geometria.

            A pintura de Jorge Branco trabalha justamente com a descoberta da plasticidade das linhas que constituem as cidades. Seus trabalhos colocam lado a lado, simetricamente articuladas, centenas de pequenas casas. Esse conjunto, com algumas janelas pontuando jogos cromáticos variados, oferece uma agradável visão.

            As cidades são realizadas tanto em cores quentes, onde a variedade cromática entre vermelhos, amarelos e laranjas é menor, como em azuis, que permitem uma riqueza maior de gamas e, principalmente, propiciam a oportunidade do artista explorar as possibilidades dessa cor com suas complementares.

            Nascido em 1941, o paulistano Jorge Branco, realizou, antes de se dedicar exclusivamente à arte, trabalhos e pesquisas em desenho industrial e  arquitetura de interiores, além de desenhos de móveis, pintura e cerâmica. Dessa experiência, veio o seu amor pela linha reta, que domina as suas composições.

            As cidades repletas de casas criadas pelo artista paulistano, que poderiam se desumanizar pela predominância do elemento geométrico, mantém pelo trabalho de cor uma característica poética. Elas não são antinaturais, mas surgem como universos lúdicos a encantar pela poesia visual que carregam.

            A repetição simétrica de fachadas não cria inquietação ou monotonia, mas sobrevive pela composição harmônica. A crueza da cidade se esfarela perante um olhar que preserva nela o seu mistério, ou seja, a sua capacidade de receber pessoas dos mais variados locais pelas suas portas abertas.

            Quanto mais as cidades perdem a sua identidade arquitetônica, com a criação de fundos abstratos, mas elas se afastam do figurativo e ganham expressividade. Nos trabalhos em que o universo urbano é quase uma remota referência, a linha estabelece massas de cor regidas pelo cromatismo.

            Descobrir um espírito na cidade que Branco retrata é um desafio. Mais intrigante ainda é buscar a beleza da cidade no conjunto das retas, quadrados e retângulos que o artista propõe. Trata-se de uma estética da cordialidade, em que a cidade é amistosa, marcada pela diversidade plástica de alguns elementos, como a presença de janelas ou as possibilidades de exploração da cor enquanto componente estético de cada composição.

            Jorge Branco oferece, em suas cidades ou trabalhos abstratos, um domínio técnico que merece atenta observação. Cada quadro não é para ser rapidamente visto e esquecido. Pelo contrário, estimula uma parada demorada ou repetidos olhares espaçados. Somente assim é possível captar a sua peculiar visão artística, dominada pela força da linha reta na construção de um poético lirismo.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

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Sem título
óleo sobre tela
30x 40 cm
sem data

Jorge Branco

 

 

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