por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

   Jonas Lemes

 

            União do acadêmico com o contemporâneo

 

            Uma questão fundamental da arte que vem preocupando muitos artistas plásticos é como conseguir dar à arte acadêmica, entendendo esta como um resultado visual que se aproxima daquilo que se vê na chamada realidade, um ar contemporâneo, ou seja,  um novo respirar que a possa colocar em espaços que foram aparentemente perdidos.

            O mineiro Jonas Lemes encontrou uma alternativa das mais louváveis. Manteve a sua habilidade no trato com a figura humana, com as paisagens e com cenas da vida no campo somente que com um novo suporte e com a valorização das figuras centrais em detrimento dos fundos, que passaram a dar o mencionado toque de modernidade e originalidade.

            Nascido em Cambuquira, MG, e atualmente residente em São Lourenço, iniciou sua jornada pela arte em 1990. Autodidata, recebeu, com pinturas a óleo, diversas premiações em salões de arte, mas percebeu que era necessário dar um salto para ganhar destaque no cada vez mais competitivo mundo da arte. 

            A partir de 2001, desenvolve um estilo próprio, no qual atinge pleno domínio de realização. Passou a pintar sobre lonas usadas de caminhão e retoma seus temas preferidos sob uma nova perspectiva. Está ali o apuro técnico de uma arte mais clássica e comportada, a contemporaneidade do suporte e a reciclagem de materiais, politicamente correta e socialmente importante.

            Num país em que o transporte rodoviário é essencial, trabalhar sobre lonas ganha a dimensão de dar ao objeto usado um novo sentido. Significa ainda saber aquilo que o próprio suporte sugere em termos de imagem. Jonas lembra que, ainda na infância, ao ver  paredes manchadas pela umidade, brincava de encontrar ali formas, paisagens e figuras – e as fazia vir à tona com um lápis.

            Bem mais tarde, soube que o mestre italiano Michelangelo havia declarado que existia muito mais arte nos muros manchados pelo tempo do que se imaginava. Assim, o trabalho com as lonas é na verdade um exercício plástico de respeito ao suporte e busca dos locais mais adequados para desenvolver os temas preferidos pelo artista.

            Estão sobre a lona belas paisagens com ipês floridos, significativas cenas de trabalhadores rurais nas diversas fases envolvidas na produção do café – com ótimo resultado nos tons ocres do suporte – além de locomotivas e estações de trem do interior de Minas Gerais. Há ainda homenagens a diversas manifestações artísticas e cenas rurais, como condução de boiada e de preparação de terra para o plantio.  

            O cuidado técnico aliado à originalidade do suporte torna a obra plástica de Jonas Lemes diferenciada. Sua pesquisa visual é uma excelente resposta aos que julgam que a  pintura tradicional está morta e que não há mais o que inventar. Sempre existem novos caminhos para quem está atento para descobri-los e percorrê-los com seriedade e competência.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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 Locomotiva
técnica mista sobre lona de caminhão usada 37x47 cm sem data

Jonas Lemes

 

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