Johann Gutlich
A arte como ofício
O
artista
plástico Johann Gutlich nasceu
em Rotterdam, Holanda,
em 29 de
agosto de 1920, e tem
pouco
sentido
saber o
seu
signo no
zodíaco
ou a
sua
biografia,
que inclui
não poucas
aventuras, seja
como
andarilho na Europa
ou
como
imigrante e
professor de
artes
plásticas no Brasil.
Acima de
tudo, foi
um
pintor e
isso significa,
em
seu
caso,
um
devoto de
sua
atividade e de
seus
materiais.
Sua
disciplina criadora é a
que conduziu a
sua
história
por
dois
continentes e
por duas
principais
expressões: uma figurativa,
com densas
imagens de
retratos e
outra
abstrata,
em
que o
lirismo se faz
presente
pelo
sábio
uso das
cores,
inclusive no
desafio de
lidar
com o
branco e
suas variações no
espaço.
Gutlich,
que se formou na
Academia de
Artes
Plásticas e
Ciências
Técnicas da
sua
cidade
natal, chegou ao Brasil
em 1952,
com 100
quadros na
bagagem,
convidado dos
Museus de
Arte
Moderna de
São Paulo e do
Rio de
Janeiro
para
dar
palestras de
grande repercussão.
Acabou ficando em São
Paulo e mudando-se para São José dos Campos, onde de 1962 a 1970 atuou
como diretor artístico da Escola de Belas Artes do Vale do Paraíba, em
São José dos Campos, instituição onde formou centenas de alunos e que se
desintegrou com o regime militar e com a sua saída do comando.
Os
seus
retratos, de
cunho
expressionista, diferenciam-se do
gênero praticado na Alemanha
por terem
como uma
referência
onipresente a
fineza dos
mestres holandeses.
Isso
que
dizer,
em
termos
visuais, uma
sensibilidade a
toda
prova na
forma de
captar e de
representar pictoricamente
estados d’alma.
A arquiteta Lina Bo Bardi
escreveu, em 1957, na revista Anhembi, que o traço de Gutlich era
“forte, incisivo, sem hesitações – uma pincelada que nunca volta atrás”.
Pode-se acrescentar que suas cores evocam ainda os amarelos dos campos
de trigo e os azuis do céu da Holanda.
Fenômeno
semelhante ocorre
com as
cores de Aldemir Martins, oriundas das
paisagens
cearenses, e de Portinari,
com
seus
ocres
que evocam
diretamente a
terra
roxa de
sua
cidade, Brodósqui.
Transformar essas
memórias e
evocações
visuais é
um
desafio do
qual
somente o
progressivo
domínio
técnico permite
sair
vitorioso.
Gutlich tem
uma de
suas obras-primas no
retrato
que fez do
ator Sérgio Cardoso no
papel de Esopo. O
que se destaca
ali é o
diálogo
entre as
cores e a
forma de
compor os
planos, criando,
muito
mais
que a
imagem de
um
personagem, uma
atmosfera,
um
estado
psicológico.
Isso se acentua na série
sobre figuras do sertão nordestino que fez tomando como ponto de partida
o filme O cangaceiro, de Lima Barreto, de 1953. Sua visão do tema
é plena de dramaticidade e os retratados aparecem não apenas em sua
dimensão humana, mas com um tom até certo ponto mítico e medieval, como
heróis de uma saga de luta e sofrimento, onde a morte é uma companheira
constante.
Os camponeses
pintados
por Gutlich seguem
esse
mesmo
raciocínio
pictórico e filosófico. Provêm da
vida
real, portam uma
carga de
intensa
humanidade
que os coloca
em
contato
direto
com o
observador. A
saga deles se
torna a
nossa, e
imagem carrega
perguntas existenciais
sobre o
próprio
sentido e
significado da
vida.
Algo
ainda
mais
forte ocorre no
quadro chamado
Palhaço, uma
obra-prima
que dá a
um
assunto
conhecido uma
nova
dimensão,
dramática, conquistada
pelo
uso das
pinceladas,
pela
colocação dos
braços da
figura,
quase
em
oração e
pela
maneira de
trabalhar o
rosto, a
testa e o
olhar.
Em 1969, com
a chegada do homem à lua, fato que marcou uma geração, Gutlich, segundo
seu filho, George, gravurista, repensou a própria vida e a pintura. As
figuras deram lugar então a abstrações, que continuam a ser sentimentos
de estar no mundo, só que agora sem a âncora e apoio de seres
reconhecíveis.
O
artista holandês, falecido no Brasil,
em 2000, mergulha no
espaço e o
conquista
principalmente
pelo
sábio
uso da
cor
branca e
pelo
estabelecimento de uma
linguagem
em
que
tons de
verde e de
amarelo se fazem
presentes nas
composições,
bastante movimentadas plasticamente no
sentido de serem
um
resultado
visual
apenas
possível
para
quem
já
tinha
um
intenso
conhecimento de
pintura a
óleo.
Johann Gutlich
tem uma
história
humana
ímpar de
imigrante holandês mergulhado
nos
trópicos
que se dedicou à
sua
arte
com
total
intensidade e
profissionalismo.
Acima de
tudo,
porém, deixou
obras,
tanto
em
seu
expressionismo figurativo
como
abstrato,
que o colocam num
local diferenciado na
cultura
brasileira
que
precisa
ser resgatado e reavaliado,
como
artista
sabedor de
que o
ofício de
pintar
não é
diletantismo,
mas
um
universo
onde a
prática
constante
leva ao aperfeiçoamento.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP,
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção
Brasil).