por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Jocelino Soares

 

            A paixão pelo universo caipira

 

            O amor pela cultura do interior percorre as veias de Jocelino Soares. Seja em suas telas, seja em sua fala, ele sempre ressalta a importância da cultura caipira para a sua formação como ser humano e como artista plástico. Radicado em São José do Rio Preto, esse pintor hábil, criador de sacis – isso mesmo! – e admirador da boa música e da boa comida paulista, tem a consciência de que um artista necessita mesclar talento, esforço e paixão por aquilo que faz.

            Para entender o amor de Jocelino às suas raízes é preciso recuar no tempo e conhecer as aventuras de  sua família. Tudo começa com o seu bisavô, o carioca Vitorino Soares, que trabalhou como enfermeiro na Guerra do Paraguai ainda no século XIX. Valente e trabalhador, escapou ileso do conflito e, aos 82 anos, engravidou a companheira Maria.

Assim nasceu Olegário, pai de Jocelino. Ele veio ao mundo prematuro e, muito frágil, poucos acreditavam que sobrevivesse. Como era costume na época, foi acomodado para passar as últimas horas numa caixa de sapatos cheia de chumaços de algodão. Maria, porém, não se conformou. Lutou tanto, que o bebê sobreviveu.

O caboclo Olegário cresceu, começou a trabalhar na roça e se apaixonou pela neta de italianos Lourdes de Jesus. Eles tiveram três meninos e quatro meninas. Jocelino, o mais velho, nasceu na Fazenda São Miguel, em Neves Paulista, em 27 de dezembro de 1955. Essa data, porém, não é a da certidão de nascimento do artista. Quando ele foi registrado, aos sete anos, Olegário se confundiu na hora de preencher os documentos e informou ao escrivão que o ano de nascimento do menino era 1956.

Mas essa confusão foi apenas um passo numa vida repleta de aventuras e casos curiosos de Jocelino. Ele morou com os pais na Fazenda São Miguel até os quatro anos. Depois, eles se mudaram para uma outra propriedade, chamada Fazenda São José, da família Haddad, perto da antiga localidade de Borboleta, hoje chamada Bady Bassitt. Para ajudar a sustentar os irmãos, ele trabalhou, desde criança na roça, de enxada em punho, além de contemplar muitas cenas de profunda religiosidade, como veio a retratar mais tarde em suas telas.

Essa Fazenda, que ainda existe, traz muitas lembranças para Jocelino. Em 1973, inspirado na música caipira Pé de Cedro, ele encontrou no mato um pequeno arbusto. Com muito cuidado, o replantou ao lado da casa onde morava com os pais, próximo a de outros trabalhadores da propriedade. Vinte e seis anos depois, ele retornou ao local e encontrou uma árvore com aproximadamente 10 m de altura.

Como trabalhador rural, Olegário, o pai de Jocelino, ganhava pouco. Sustentar a esposa e os sete filhos era um desafio. Conseguiam se alimentar, em parte, graças a pequenos cultivos de subsistência, como arroz e milho, plantados entre as laranjeiras da fazenda, uma horta no quintal e pés de feijão entre as fileiras do cafezal.

Esse passado pode ser encontrado até hoje nas telas de Jocelino, que pinta o mundo rural que conheceu na infância. No entanto, não são telas tristes. Seu contato com a natureza fez com que a amasse cada vez mais e, ainda criança, quando podia, se divertia fazendo pequenos desenhos nas paredes das casas onde morava.

No início dos anos 1970, Jocelino fazia algumas cópias de imagens de revistas para melhorar o estilo. Também realizava desenhos na dispensa da moradia dele na colônia da Fazenda São José. Esses trabalhos, porem, tiveram um triste fim. Uma tarde, ao retornar da roça, a mãe Lourdes, com toda a alegria e ingenuidade do mundo, deu uma notícia que entristeceu o menino: as paredes da dispensa haviam sido cobertas de cal.

A novidade seria ótima se não tivessem sido cobertos os primeiros desenhos de Jocelino. Feitos com lápis preto sobre pequenos pedaços de papel que o pai Olegário trazia da cidade, eles estavam grudados, com extremo cuidado, nas quatro extremidades, nas paredes da dispensa.

Apenas uma imagem se salvou da destruição.Colorida, feita a guache, datada de 1974, sobreviveu à cal por ter sido feita em cartolina grossa e, devido ao peso, não foi fixada à parede com a rudimentar cola caseira feita de farinha de trigo e água utilizada para grudar as outras imagens.

Jocelino sabia que, para atingir seus objetivos, precisava ter o seu pedaço de terra. Aos 12 anos, deu um passo importante. Começou a trabalhar numa roça própria, com 1.200 pés de café e mais um alqueire de terra para cultivo de subsistência. Para ir e voltar, tinha que passar por várias porteiras.

Muitas eram velhas e se abriam e fechavam com a ação do vento. As pessoas mais idosas diziam que elas eram mal-assombradas e que fantasmas ficavam perto delas. Essas porteiras foram tão marcantes para Jocelino, que aparecem com freqüência na sua obra, com o dizer “Casas Pernambucanas – onde todos compram”, marketing da célebre rede de lojas, pintado nas tábuas.

Enquanto vivia na roça, o grande companheiro de Jocelino era um rádio de pilha comprado de segunda mão pelo pai em 1965. Nele, ouvia programas de música sertaneja, com atrações como as duplas Vieira e Vieirinha e Tião Carreiro e Pardinho, e começou a ter uma ligação com um mundo que ia bem além do trabalho nas plantações. Foi justamente na voz do locutor Edgard de Souza, da então Rádio Nacional – hoje Globo – que ele ouviu falar do Instituto Universal Brasileiro, que oferecia diversos cursos por correspondência, entre eles o de Desenho Artístico e Publicitário.

Tentou fazer o curso, em 1971, mas não chegou a completá-lo. O importante é que já estava em sua mente e em seu coração a semente da busca de um futuro melhor. Além do rádio, Jocelino começou a freqüentar a Biblioteca Municipal de São José do Rio Preto. Somando-se a ida à volta, percorria 32 km de bicicleta da Fazenda São José, próxima de Bady Bassit até o local, do qual voltava com livros como Menino do engenho, de José Lins do Rego, e Meu pé de laranja-lima, de José Mauro de Vasconcelos, que lia à luz de lamparina.

Dois anos depois, passou a freqüentar a Escola de Arte Juvenil, na Casa de Cultura de São José do Rio Preto, da qual, anos mais tarde, se tornou diretor. Foi estudando ali que teve aulas com o cenógrafo e figurinista José Carlos (JC) Serrone, nascido em São José do Rio Preto, e recebeu os primeiros elogios da então diretora, a jornalista e escritora Dinorath do Valle, que o estimulou a ir em frente. E Jocelino foi, tendo já pintado mais de mil obras!

Os almanaques, muito comuns no campo no período fascinavam Jocelino. Nessas publicações voltadas ao homem do campo, com informações sobre meteorologia e melhores épocas de colheita, encontrava histórias, imagens e poesias que guarda até hoje de cor. Uma delas é do poeta gaúcho Alceu Wamosy (1895-1923). Ele até hoje se emociona quando o declama, enfatizando a beleza dos versos que contam uma história de amor infeliz, mas que se alimenta da saudade.

Em 1974, Jocelino participou do seu primeiro concurso, o Salão de Arte Juvenil. Pintou, num pedaço de duratex, um Cristo a óleo, mas não recebeu premiação. No ano seguinte, começou a usar fotos de modelos de fotonovelas para pintar rostos femininos. Conseguiu ainda expor desenhos no atual Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da UNESP, em São José do Rio Preto.

Foi nessa oportunidade que ouviu falar pela primeira vez em currículo. Os organizadores pediram o seu e ele nem sabia o que era isso. Para sua surpresa, no catálogo do evento, foi classificado como “surrealista ingênuo”. Não sabia que “ingênuo” é a denominação geralmente dada aos artistas que, como ele, não estudam arte em escolas ou com professores particulares.

Jocelino trabalhou na roça até os 21 anos, mas tinha consciência que aquela rotina cansativa e repetitiva não o levaria a realizar seus sonhos de viver melhor e de desenvolver o amor que já tinha por desenhar. Em busca de novas oportunidades, ele se inscreveu num concurso da Telesp em São José do Rio Preto.

Ficou muito feliz ao passar na primeira fase e ser chamado para uma entrevista com a psicóloga da empresa. Vestiu a melhor roupa que tinha e foi. Perguntado sobre o que fazia, disse que labutava no campo. Em seguida, a moça quis saber, além do trabalho, o que ele mais gostava de fazer. Jocelino não hesitou: “Pintar”. Foi reprovado. Ela achou impossível que um artista pudesse obter sucesso na atividade de subir em postes e arrumar conexões.

Mesmo decepcionado, Jocelino não desistiu de melhorar de vida. Decidiu entrar para a Polícia Militar. Fez o exame pela primeira vez em 1976, mas não obteve sucesso. Quando pediram que assinasse o nome, ficou apavorado. Ele sabia escrever, mas não conseguia escrever o próprio nome quando alguém o estava olhando.

No mesmo ano, tentou de novo – e passou. Tinha 22 anos e, no início da nova  carreira como soldado, continuou morando no sítio. A vida mudara, mas nem tanto. O choque veio com a transferência para a cidade de São Paulo. Trabalhou em rondas ostensivas, numa realidade bem mais violenta que a de Rio Preto.

O ano de 1976 foi, de fato, muito importante para Jocelino. Ele conseguiu o terceiro lugar no 17o Salão de Arte Juvenil da Casa da Cultura de Rio Preto, começou a fazer os primeiros desenhos em bico-de-pena e viu pela primeira vez, ao vivo, um quadro surrealista, numa exposição organizada pela proprietária da Fazenda Haddad, que recebia, em sua propriedade, entre outros artistas, Odetto Guersoni.

O jovem empregado Jocelino não foi convidado para a inauguração. No dia seguinte, com grande curiosidade, visitou a nova galeria e conheceu telas de Roni Brandão e Mário Campelo, entre outros brasileiros identificados com o surrealismo, estilo em que a criação de realidades imaginárias provindas do inconsciente é fundamental.

Os bicos-de-pena  de Jocelino são algumas das obras mais interessantes do autor. Plenas de originalidade, são figuras e paisagens em preto e branco que parecem vir de outros mundos. Todo artista busca um estilo que lhe permita se diferenciar dos outros. Sob o sol quente de uma tarde em São José do Rio Preto, trabalhando no cafezal, veio a Jocelino uma idéia: retratar as mulheres sofridas do campo com olhos intensos e esbugalhados. Elas se tornaram até hoje marcas registradas do seu trabalho. Para ele, os olhos são os espelhos da alma e as mulheres são tão importantes no campo, que ele não pinta homens, mas somente figuras femininas.

Após a breve passagem por São Paulo, Jocelino conseguiu retornar em 1978 para São José do Rio Preto  – e passou a fazer o policiamento de trânsito, atividade em que permaneceu até 2000, quando se aposentou, sem nunca ter disparado um tiro em serviço. Em todo esse tempo, atuou como orientador de trânsito e se envolveu em diversos projetos comunitários da Polícia Militar de São José do Rio Preto, principalmente nas áreas de cidadania e de combate às drogas.

O serviço na polícia nunca afastou Jocelino da arte. Na verdade, ele se tornou um PM diferente. Certa vez, numa tarde calma de Rio Preto, chegou a fazer um desenho no verso de um talão de multas. Em outra ocasião, pegou um autógrafo do rio-pretense José Antônio da Silva, um dos maiores mestres da arte popular brasileira, na segunda via de um formulário oficial.

Ao se mudar para a cidade, Jocelino sentiu falta da zona rural. Por isso, mantém seu ateliê como uma autêntica casa de campo. Logo na entrada, há plantas frutíferas, como bananeiras e cajuzeiros. O mais fascinante, porém, está mais recuado. É o espaço onde estão suas tintas, pincéis e dezenas de obras, que mostra aos visitantes com todo carinho, como filhos dos quais se orgulha.

Aliás, filhos de verdade, além dos quadros e os sacis que cria, Jocelino, tem três: Alessandre de Jesus Soares, Aleandra Angélica, e Cora. Esta última assim chamada em homenagem à poeta Cora Coralina, uma artista que, como o pintor de Neves Paulista, sempre esteve ligada às suas origens.

Ser um policial-pintor ou pintor-policial rendeu a Jocelino muitas brincadeiras entre os policiais e os moradores da cidade, mas também foi o ponto de partida para muitas reportagens em jornais, revistas, rádio e televisão. Ele até ganhou um lugar nas paredes da Câmara Municipal de Rio Preto.

Laerte Teixeira da Costa, então presidente da Câmara dos Vereadores, em 1984, pediu à jornalista Dinorath do Valle que o ajudasse a selecionar artistas plásticos que teriam as suas obras colocadas no local. Jocelino foi escolhido e as suas mulheres de olhos grandes estão lá, desde janeiro do ano seguinte, lembrando aos políticos o sofrimento do povo.

Ainda em 1984, Jocelino inicia a série “Preparação para a morte”, com temas como morte, velório, cemitério, enterro e noite. Muitos se assustaram, mas o artista lembra que ela, embora seja a única certeza da vida, é geralmente o que mais assusta as pessoas. Nesse sentido, ele recorda, com emoção, versos do poeta pernambucano Manoel Bandeira (1886-1968) sobre o assunto.

Naquele mesmo ano, o norte-americano radicado em São José do Rio Preto Thomas Goslee indicou Jocelino a Renê Shapshak, diretor cultural do International Maltese Museum of Fine Arts, de Nova Iorque, que enviou para a cidade paulista a jornalista Ruth Gershon. Ela, após analisar as obras do artista, selecionou um quadro dele para ser incluído no acervo do Museu.

Outro episódio importante da carreira de Jocelino ocorreu em dezembro de 1985, quando montou um painel de Natal de protesto no centro de São José do Rio Preto. Ele  quis se manifestar contra os excessos comerciais da festa, alertando as pessoas que a essência da data – a celebração do nascimento de Jesus – estava se perdendo. O painel tinha as bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos, cordas e panelas. Estas últimas foram logo roubadas; depois, as cordas desapareceram. Em 30 de dezembro, Jocelino, como forma de protesto, pintou toda a obra de branco. O importante é que o alerta estava dado.

Em 1986, Jocelino fez uma série de cem gravuras, chamada Deusa grega, retratando a mulher Suely. O lançamento foi no aniversário, dela, dia 1º de abril. Aproveitando a tradição da data, avisou, por meio de cartazes colocados em locais públicos da cidade e pela imprensa, que bastava “pegar e levar” os trabalhos. Nem todos acreditaram e cerca de 40 gravuras permaneceram naquele dia com o pintor.

Até 1987, embora Jocelino já tivesse seu talento reconhecido, faltava-lhe, um atributo importante como artista: o domínio da cor. Para superar esse desafio, chegou a usar a técnica da pintura de assopro, que consiste em despejar tinta sobre o papel e assoprar com um canudo para formar diferentes figuras, mas logo percebeu que ali não estava encontrando o seu estilo.

Buscou ajuda de diversos professores e pintores e encontrou o caminho em 1988. Foi quando conheceu o artista rio-pretense Alcides Rozani. Ele permitiu que Jocelino o visse preparar as tintas e pintar. Nesse momento, a carreira do artista dá uma guinada. Ele adota a técnica do pontilhismo, que permanece em suas telas até 1990.

O trabalho de Jocelino com a cor não parou mais e, de 1993 a 1995, houve a “fase vermelha”. Foram mais de 30 quadros, de paisagens e rostos, em que essa cor predomina, gerando imagens de grande expressividade, que retratam cenas cotidianas da vida rural do interior paulista.

A tonalidade do vermelho dará lugar aos atuais girassóis. Ele conta que viu os primeiros na colônia em que morava na Fazenda São José e costumava trocar essas flores com as meninas e mulheres que moravam próximas. Em 1993, a partir dessas imagens mentais pintou o primeiro quadro de uma série que se mantém até hoje.

Mais tarde, em 1993, quando teve a oportunidade, graças ao chef  de cozinha Guido Sposito, de expor na Itália, na cidade de Fondi, viu imensos campos de girassóis ao vivo, experiência que aliou ao progressivo conhecimento dos girassóis pintados por Van Gogh. Assim, os girassóis de intenso amarelo em diversas posições se tornaram uma das marcas registradas do artista.

A viagem à Itália também levou Jocelino a introduzir uma inovação em seus quadros: o uso de janelas internas. Iluminadas em tons diferentes, algumas dessas telas trazem imagens de recantos que conheceu na Itália, como pequenas vilas em colinas. As molduras de diferentes tonalidades encantam o observador.

Além dos girassóis, Jocelino pinta cenas do campo, como plantações de arroz, café e laranja. Homem ligado ao universo rural, fez também uma série sobre o movimento dos sem-terra, alertando para a prometida e nunca concretizada reforma agrária do País. Preocupado com a ecologia, também pintou imagens em que critica a devastação das florestas do Estado de Roraima pelo uso sem critério da queimada e da moto-serra.

Hoje Jocelino é um pintor preocupado com o uso da luminosidade em seus quadros. É ela que lhes dá vida. Assim, em seus trabalhos, o uso da intensidade da cor é fundamental. Nesse sentido, principalmente em cenas rurais, há focos de luz dispersos pela tela que fazem o quadro “vibrar” e transmitir vida.

Além dos girassóis, Jocelino tem outra marca registrada. Como foi dito, não pinta homens. É a forma que encontrou de homenagear a mulher do campo, que trabalha na casa, na lavora, chega a ter um filho por ano e quando chega aos 30 anos, parece ter o dobro da idade. É em homenagem a elas que a sua arte ganha densidade e dramaticidade.

Críticos de arte de reconhecida competência, como Carlos von Schmidt, Guillermo De La Cruz Coronado e Romildo Sant'Anna, já se debruçaram sobre a obra de Jocelino Soares. E, em 1999, o jornalista Mário Soler publicou, pela Editora Rio-Pretense, o livro Jocelino Soares: vida,  obra e crítica, em que traça um panorama sobre a biografia, a arte e a repercussão de seu trabalho com tintas, pincéis e telas.

Amante da música e da família, Jocelino, como mencionamos, também é um criador de sacis. Ele explica com toda calma e convicção como esses seres entraram em sua vida: “Quando tinha uns seis ou sete anos, ainda na roça, visitei, com alguns amiguinhos, uma casa próxima. Havia, num cantinho, abóbora e cenoura picada e outros alimentos. Pensamos que fosse para algum animal, mas era para alimentar os sacis.”

Com o êxodo rural dos anos 1970, os moradores dessa moradia partiram e a fazenda se desfez em várias partes. “Em 1980, os antigos donos pediram que eu cuidasse dos sacis, o que faço até hoje numa mata repleta de bambus, perto de uma venda, nos arredores de São José do Rio Preto”, conta.

Ele também descreve como são esses sacis. “São diferentes da visão tradicional que nós temos pela televisão ou por diversas ilustrações. Parecem pequenos macaquinhos. Tem a cabecinha marrom e se escondem rapidamente na mata. Não correspondem aquela visão tradicional de negrinhos que fumam cachimbo com um gorro vermelho na cabeça”.

Explica ainda por que eles não podem ser fotografados: “Achamos que eles morrem quando sujeitos a uma forte fonte de luz”. Fã de música sertaneja e de tudo que vem do interior paulista, Jocelino Soares também admira a música chamada erudita, dos grandes compositores europeus. Conta que adora ouvir Cds e rádios que tocam esse tipo de melodia – e faz isso enquanto pinta. Uma de suas composições preferidas é a Quinta Sinfonia de Beethoven, que o impressiona pela força, vigor e criatividade do compositor alemão.

Jocelino Soares não tem medo de ser ridicularizado por dizer que cria sacis ou de ser chamado de caipira por defender as coisas do interior paulista. Lembra que, se aqueles que moram no litoral são chamados de caiçaras, existe uma denominação apropriada para quem é do Interior do Estado de São Paulo. E ela é caipira. Assume, portanto, o seu caipirismo e lhe dá belas formas em suas telas. 

Com suas mulheres de olhos grandes, girassóis encantadores, amor à luminosidade e a cultura do interior, Jocelino Soares orgulha-se de suas raízes caboclas. Amante da literatura e da arte brasileira, oferece aos olhos, com sua pintura, um trabalho de grande lirismo e extrema delicadeza. Lindo, como somente a alma de um autêntico caipira pronto a conquistar o mundo pode ser.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes Visuais da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

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 Interior II 
óleo sobre tela 70 cm x 50 cm 2002

Jocelino Soares

 

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