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João Rossi
O universo dos materiais
Conheci, em 2007, o espaço que abrigava a casa e o ateliê, do artista plástico João Rossi, falecido em julho de 2000. Localizado na Vila Sônia, em São Paulo, e projetado, em 1958, pelo amigo e arquiteto Bernardo José Castelo Branco, o espaço mantém a presença dele.
Pintor, gravador – ousado em termos de tecnologias e matérias-primas –, ceramista e escultor, João Rossi, quase uma década após o seu falecimento, está ali nos detalhes, no respeito à sua memória e no projeto de tornar o ateliê um Museu Escola. Nada mais justo para alguém que foi diretor, professor e mentor de várias escolas de comunicação e artes e faculdades, como FAAP, Mogi das Cruzes, Unaerp, MAC, Mube e Mackenzie, instituição na qual se aposentou em 1986. De seu vasto leque de expressões artísticas, as gravuras são um capítulo à parte pelo poder de pesquisa, mas, sua diversidade se faz presente em objetos e nos trabalhos em técnica mista sobre tela ou sobre compensado. Em ambos os casos, parecia não haver limite para seu poder de enxergar o potencial plástico de tudo o que estava ao redor. O fato de Rossi ter criado as expressões Polimatéria e Polimatérica não surpreendem. Por um lado, está ali o professor que levou muito de seu saber para o Paraguai, ajudando a formar o modernismo local, país onde também conheceu a sua esposa. Por outro, a constatação de que aquilo que fazia não era apenas um processo, mas sim o desejo constante de aprimoramento pela busca da melhor forma de pesquisar os mais diversos materiais.
Nascido
No campo plástico, as suas principais vertentes são igualmente expressivas e viscerais. A que enfoca São Paulo não se atém ao óbvio da paisagem urbana, mas desvenda a alma da metrópole, justamente pela apurada pesquisa com materiais e, acima de tudo, por um olhar diferenciado sobre o potencial visual que a cidade oferece. Os prédios foram transformados em volumes; os casarões, em pretexto para lidar com a passagem do tempo; as favelas, em estruturas visuais de exploração do espaço; os morros, na discussão de áreas espaciais para a pintura; e as praças, nos locais em que a urbanidade encontra a sua expressão social. A outra vertente, voltada para a cultura e a mulher ameríndia, provém do forte elo de João Rossi com o Paraguai e a latinidade. Inclui uma profunda reflexão sobre o sentido da cerâmica e suas mais diversas manifestações, mantendo a idéia de que a obrigação do artista é a de experimentar para conhecer seus próprios limites ao utilizar as mais variadas técnicas. Neto e filho de italianos, Rossi, por insistência da família, formou-se em contabilidade e exerceu a função numa fábrica de móveis na rua Augusta, a mesma em que nasceu. Logo, porém, acabou atuando, na mesma empresa em atividades como desenhista e projetista de móveis, onde podia dar um pouco de vazão à sua criatividade e inquietação.
Há nele
Existe ainda o Rossi que cultivava o físico. Entre 19 e 22 anos, tornou-se faixa preta em jiu-jitsu, em 1942, realizou, sob o nome de Corisco, diversas apresentações de luta-livre, no circo Piolim, com o amigo de infância Renato, o Tourinho. Era mais um aspecto de um homem multifacetado, de profunda atuação política contra ditaduras, tanto no Brasil como no Paraguai, que transformou a prática e o ensino da arte numa razão de viver. João Rossi, de fato, está vivo. Sua obra polimatérica se espalha pelo ateliê e se cristaliza em realizações que o colocam num lugar único na arte brasileira a ser ainda melhor avaliado. Basta respirar o ambiente em que ele esteve para sentir a presença de alguém muito especial, que deixa uma mensagem plena de entrega às possibilidades filosóficas e concretas da arte como forma e expressão de uma maneira de sentir, compreender e vivenciar o mundo.
Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).
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Represa
técnica mista sobre tela 1997
João Rossi