por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

João Rossi

 

            O universo dos materiais

           

            Conheci, em 2007, o espaço que abrigava a casa e o ateliê, do artista plástico João Rossi, falecido em julho de 2000. Localizado na Vila Sônia, em São Paulo, e projetado, em 1958, pelo amigo e arquiteto Bernardo José Castelo Branco, o espaço mantém a presença dele.

Não se trata de misticismo. Mesmo quase uma década após a sua morte, sua onipresença é garantida pela qualidade e diversidade do legado, cuidadosamente guardado pelo seu filho e curador do acervo, José Enrique Rossi, e pelo olhar atento da viúva, a índia paraguaia Isabel Olmedo, cujo nome foi dado ao espaço do ateliê.

Pintor, gravador – ousado em termos de tecnologias e matérias-primas –, ceramista e escultor, João Rossi, quase uma década após o seu falecimento, está ali nos detalhes, no respeito à sua memória e no projeto de tornar o ateliê um Museu Escola. Nada mais justo para alguém que foi diretor, professor e mentor de várias escolas de comunicação e artes e faculdades, como FAAP, Mogi das Cruzes, Unaerp, MAC, Mube e Mackenzie, instituição na qual se aposentou em 1986.

            De seu vasto leque de expressões artísticas, as gravuras são um capítulo à parte pelo poder de pesquisa, mas, sua diversidade se faz presente em objetos e nos trabalhos em técnica mista sobre tela ou sobre compensado. Em ambos os casos, parecia não haver limite para seu poder de enxergar o potencial plástico de tudo o que estava ao redor.

            O fato de Rossi ter criado as expressões Polimatéria e Polimatérica não surpreendem. Por um lado, está ali o professor que levou muito de seu saber para o Paraguai, ajudando a formar o modernismo local, país onde também conheceu a sua esposa. Por outro, a constatação de que aquilo que fazia não era apenas um processo, mas sim o desejo constante de aprimoramento pela busca da melhor forma de pesquisar os mais diversos materiais.

             Nascido em São Paulo, em 1923, Rossi, de maneira autodidata, construiu seu espaço no mundo da arte, que inclui exposições no Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina, Colômbia, Venezuela, Holanda, Itália, Cuba, Japão, China, Canadá, México e EUA, além de obras em diversos museus nacionais e internacionais, com muito trabalho e algumas paixões.

No campo plástico, as suas principais vertentes são igualmente expressivas e viscerais. A que enfoca São Paulo não se atém ao óbvio da paisagem urbana, mas desvenda a alma da metrópole, justamente pela apurada pesquisa com materiais e, acima de tudo, por um olhar diferenciado sobre o potencial visual que a cidade oferece.

Os prédios foram transformados em volumes; os casarões, em pretexto para lidar com a passagem do tempo; as favelas, em estruturas visuais de exploração do espaço; os morros, na discussão de áreas espaciais para a pintura; e as praças, nos locais em que a urbanidade encontra a sua expressão social.

A outra vertente, voltada para a cultura e a mulher ameríndia, provém do forte elo de João Rossi com o Paraguai e a latinidade. Inclui uma profunda reflexão sobre o sentido da cerâmica e suas mais diversas manifestações, mantendo a idéia de que a obrigação do artista é a de experimentar para conhecer seus próprios limites ao utilizar as mais variadas técnicas.

            Neto e filho de italianos, Rossi, por insistência da família, formou-se em contabilidade e exerceu a função numa fábrica de móveis na rua Augusta, a mesma em que nasceu. Logo, porém, acabou atuando, na mesma empresa em atividades como desenhista e projetista de móveis, onde podia dar um pouco de vazão à sua criatividade e inquietação.

            Há nele algo de renascentista no sentido de buscar as mais variadas formas de expressão. Por um lado, adorava a botânica e a zoologia. Amava insetos, aves, mamíferos e peixes, sendo um profundo conhecedor da fauna e da flora paulista e da região de Mato Grosso, para onde foi em 1947. Outra paixão era a poesia e, desde os anos 1940, teve intensa produção, com mais de 120 textos, organizados pela família e à espera de publicação.

            Existe ainda o Rossi que cultivava o físico. Entre 19 e 22 anos, tornou-se faixa preta em jiu-jitsu, em 1942, realizou, sob o nome de Corisco, diversas apresentações de luta-livre, no circo Piolim, com o amigo de infância Renato, o Tourinho. Era mais um aspecto de um homem multifacetado, de profunda atuação política contra ditaduras, tanto no Brasil como no Paraguai, que transformou a prática e o ensino da arte numa razão de viver.

            João Rossi, de fato, está vivo. Sua obra polimatérica se espalha pelo ateliê e se cristaliza em realizações que o colocam num lugar único na arte brasileira a ser ainda melhor avaliado. Basta respirar o ambiente em que ele esteve para sentir a presença de alguém muito especial, que deixa uma mensagem plena de entrega às possibilidades filosóficas e concretas da arte como forma e expressão de uma maneira de sentir, compreender e vivenciar o mundo.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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 Represa
técnica mista sobre tela 1997

João Rossi

 

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