por Oscar D'Ambrosio


 

 


João Paulo Leite

 

            Reflexão com impacto visual

 

            Se uma das principais funções da arte, seja em desenho, pintura, objeto ou instalação, é despertar o olhar renovado do público para o mundo circundante, o trabalho do artista plástico João Paulo Leite pode ser considerado um êxito. Trata-se de uma missão bem-realizada principalmente se levarmos em conta que se debruça sobre quatro aspectos do mundo contemporâneo.

            Nascido em São Paulo, em 1975, o artista apresenta, em Métodos analíticos do século XX, na Galeria Virgílio, de 8 a 29 de março de 2006, em São Paulo, SP, uma exposição que gera uma necessária reflexão sobre uma série de valores e ações que, por se tornaram tão cotidianas, infelizmente quase dispensam o pensamento crítico.

            As quatro obras se unem  no sentido de questionar “modelos analíticos”. Se concebermos um modelo como um conjunto de hipóteses sobre uma estrutura de comportamento física ou humana, nota-se que a exposição apresenta em pequena escala ações que a sociedade realiza em grandes dimensões.

            Esses modelos são “analíticos”, ou seja, funcionam pela separação das partes constituintes do todo. O que se busca, portanto, é o exame particularizado para conhecer natureza, proporções e funções que ajudam a ter uma visão mais global daquilo que chamamos de século XX.

            O primeiro conjunto da exposição, Ford T 1900, constitui uma referência direta ao primeiro automóvel produzido em série, que consagra o modo de produção capitalista: a manufatura em grande número de um produto onde cada peça é feita por um trabalhador alienado do resultado final.

            No presente caso, um cubo preto, com a inscrição Ford T nas laterais fica rodando, com um ruído constante, assinalando justamente a reprodução infinita de sua estrutura, uma das principais expressões do modelo de reprodutibilidade do século passado. Um outro cubo, só que em amarelo, em forma de construção arquitônica, sobre grama artificial e rodeado por uma corrente preta e duas paredes brancas, chamado Caixa-forte 1951, alerta justamente para o acúmulo de capital propiciado pelo modelo econômico instaurado no século XX.

            A Caixa-forte evoca, pela cor amarela, lingotes de ouro acumulados, lembrando o célebre Forte Knox, campo militar dos EUA, em Kentucky, onde existe um abrigo que guarda as reservas de ouro do país. A corrente e a grama acentuam o isolamento do local como fortaleza a desafiar qualquer tentativa de invasão.

            Acima de tudo, a caixa-forte representa acumulação de capital. A sua invulnerabilidade é essencial para que o sistema se mantenha como está, equilibrado e saudável. Qualquer expropriação deve ser combatida, pois ameaça  a base do sistema, que é a acumulação.

            Airport 1970 1975 1977 1979 apresenta uma esteira de aeroporto com malas elementos retangulares de diferentes cores em trios simétricos, mas levemente deslocados para compor grupos. O elemento do meio surge com uma alça, criando a relação visual com maletas de executivos ou bagagens que rondam o mundo globalizado.

            Se a crítica ao movimento do capital internacional e às viagens incessantes de executivos é quase evidente, a alusão aos anos 1970 não deixa de trazer à mente o célebre filme Aeroporto, com suas continuações, que pode ser analisado sob um ponto de vista de reações econômicas e psicológicas como um retrato das relações de poder que se instauram num período em que o mundo vai progressivamente vivendo uma imersão numa luta pelo enriquecimento que supera quaisquer limites do razoável.

Aviões e aeroportos são então alvos de atentados ou ações terroristas, surgindo como símbolos da movimentação entre as nações em nome do lucro  e de um capital que começava então a desconhecer fronteiras. Situação análoga ocorre em Magazine ao moderno 1924, que oferece diversas interpretações críticas do século XX.

Por um lado, temos a formação de uma vitrine composta novamente por cubos, só que agora de vidro. A idéia do consumo surge muito forte como característica do século que passou. Embalagens de papelão nessa “vitrine” trazem desenhos de diversos elementos de consumo, como guarda-chuvas, peão e torre do jogo de xadrez, despertador, cachimbo, um chapéu-de-coco, sapato e maçã.

Cada elemento desses sugere um universo de conotações, mas algumas se evidenciam. O guarda-chuva, o cachimbo e o chapéu-de-coco evocam as pinturas do  belga René Magritte, enquanto as peças de xadrez logo trazem à mente, além da predominância da razão sobre a emoção, a obra de Marcel Duchamp, artista plástico que tinha nesse jogo uma de suas maiores paixões.

Magritte e Duchamp, respectivamente, com seus questionamentos da arte como representação do real e do sentido e significado  da produção plástica e dos museus no século XX, são ícones que hoje também estão nas lojas de magazine, com suas reproduções e cartazes vendidos numa sociedade em que a reprodutibilidade fala muito alto.

A presença do despertador pode até funcionar como índice dos alertas dados nos anos 1920 para o significado da arte. O pensamento da modernidade, porém, como indica a vitrine de João Paulo Leite, parece hoje estar muitas vezes sucumbindo perante a lógica de mercado e do consumismo que domina todas as atividades humanas, inclusive a artística. O importante é que, sem conhecer aquela década e o início do século passado, torna-se quase impossível visualizar o que a arte se tornou no século XXI.

A presença do sapato junto ao chapéu, por sua vez, remete a uma referência literária, ao Esperando Godot, de Samuel Beckett, onde dois dos personagens passam minutos brincando, um com os sapatos e outro com o chapéu, numa clara alusão a duas formas de conceber o mundo: a da realidade concreta (o pé no chão) e a da inteligência (símbolo vinculado ao uso do chapéu sobre a cabeça, sede da mente).

Há ainda uma maça que, além de ser um elemento presente na arte de Magritte, aponta para New York, conhecida como “Big Apple”. No século XX,  a cidade americana foi progressivamente ganhando espaço como principal local da cultura mundial. Suas galerias e museus foram se destacando não tanto pela produção própria, mas pela capacidade de reunir e promover mostras de acervos significativos da arte universal.

João Paulo Leite revista quatro modelos analíticos do século XX. Ford T, caixa forte, a esteira do aeroporto e a magazine podem, respectivamente, aludir a quatro aspectos daquele século que se tornaram onipresentes: a produção em massa por seres alienados, a necessidade de acumulação de capital em níveis inimagináveis, a movimentação humana e financeira por via área como marca de uma época e a mercantilização da arte superando até as reflexões sobre o seu significado e a validade da sua existência.

Modelos analíticos do século XX  possibilita refletir sobre as questões apontadas em diversos níveis num conjunto de impacto visual e densidade de pensamento. São trabalhos que geram reflexão sem recorrer a discursos fáceis ou recursos gratuitos. Há neles, sim, um pensamento sobre os caminhos do mundo e da arte no século passado e no atual.

A exposição de João Paulo Leite provoca o pensamento a cada piscadela humana, alertando que devemos pensar para não sermos engolidos pelo cotidiano como algo tão natural e eterno que sequer gere reflexão. As imagens e situações que o artista plástico paulista gera alertam justamente para evitar a acomodação mental e permitem que as utopias de um mundo melhor, pelo menos no plano do pensamento, continuem vivas.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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  Exposição Modelos analíticos do século XX - Magazine ao moderno 1924 
cubos de vidro com 30 cm de aresta - 2006  

João Paulo Leite

 

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