João
Márcio Prado
Brinquedos
com madeira
Trabalhar
a madeira é um dom. Exige não só habilidade e talento, mas
extrema sensibilidade. O exercício de devastar e de esculpir
vai sendo aprimorado com o tempo, com a prática, mas exige a
sensibilidade de ouvir o desejo da matéria, de saber o que ela
pode e o que ela deseja se tornar.
O artesão João Márcio Prado sabe tudo isso – e o põe
em prática. Nascido em 1964, Prado foi durante muitos anos
metalúrgico em Campinas. Foi, porém, na feitura de placas
entalhadas e decorativas que começou a encontrar uma
alternativa de sobrevivência e também de auto-conhecimento e
prazer. Passou a dedicar toda a sua energia a este trabalho,
realizado em seu ateliê em Monte Alegre do Sul, interior de São
Paulo.
Além
da feitura dessas placas, nas quais se ressalta o trabalho de João
como entalhador, Prado consegue criar formas das mais
interessantes a partir do nome de uma empresa ou de uma
propriedade rural. O que mais cativa é o progressivo aperfeiçoamento
do domínio da técnica.
Tal
habilidade encontrou uma legítima força de expressão na produção
de brinquedos. A partir das sobras da madeira utilizada na
confecção das placas, Prado começou a produzir brinquedos com
o material. O curioso é que mesmo essas obras começaram a
adquirir características peculiares e diferenciadoras.
Os
brinquedos, sejam figuras isoladas ou conjuntos reunidos em
eixos temáticos, como a arca de Noé ou a fazenda, são
formados por diversas peças que se encaixam na horizontal.
Desse modo, as figuras, quando montadas, podem ficar de pé,
servindo também como objeto de decoração para quartos de
criança.
Cada
peça é cortada na serra elétrica, não havendo produção em
série, mas trabalho artesanal. Desse modo, cada brinquedo é único,
sendo impossível que partes de um brinquedo encaixem em outro.
Esse tipo de atitude, valoriza o trabalho, pois dá, embora de
maneira sutil, a cada produto a sua própria identidade. Algumas
das figuras são pintadas, mas o artista tem todo o cuidado de
fazê-lo com tintas a base de produtos naturais, que não se
revelam tóxicas para as crianças.
Um
dos produtos mais interessantes criados por Prado é um jacaré
articulado. De um lado, as peças registram o alfabeto; do
outro, os números. Para poder encaixar as peças, a criança
precisa seguir a ordem correta. A brincadeira se torna educativa
nesse constante refazer do brinquedo, que também tem uma lontra
em madeira natural, sem pintura.
Prado
realiza trabalhos de entalhe em que as figuras surgem como
silhuetas. Embora as imagens não sejam de sua autoria, o
trabalho mostra habilidade técnica que, certamente, pode ser
utilizada com maior liberdade no momento em que ele decidir
criar as próprias imagens, sejam objetos, paisagens ou cenas
rurais.
Entalhador
competente, seja nas placas, nos brinquedos ou nos trabalhos em
que exercita a habilidade manual, João Márcio Prado revela um
amplo potencial artístico, que precisa explorar cada vez mais.
Da mesma forma que ousou para criar suas fazendas e arcas de Noé
e outras figuras de encaixe, deve, num futuro próximo ampliar
seus próprios horizontes, arriscando-se na esfera da criação,
com ousadia e, retirando de eventuais erros, a experiência para
um aprendizado numa das artes mais antigas e nobres: a do
trabalho com madeira.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto
de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos
de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando
a arte de Peticov (Noovha América) e Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).