por Oscar D'Ambrosio


 

 


João Maciel

 

            Renovação de forma autêntica

 

Os cadernos de desenho são algo ainda a ser melhor estudados na história da arte. Muito se fala sobre eles, mas são poucos os que têm a paciência e dedicação necessária de observar com atenção como ali está a matriz do pensamento dos artistas, com numerosas pistas para a criação.

Mineiro de Belo Horizonte, João Maciel, nascido em 1980, expressa em seus cadernos e em suas obras de maiores proporções sobre tela e com outros materiais e suportes, uma visão de mundo marcada pela presença de personagens que povoam seu imaginário e se concretizam de maneira peculiar.

Se, por um lado, mantém características intrinsecamente humanas, como rostos e proporções entre as partes do corpo; por outro, desafiam a compreensão mais cartesiana por realizar composições em que a justaposição se faz presente na forma de articular essas figuras em entornos plenos de humor e derrisão.

Corações que aludem a figuras religiosas, seios que esguicham e uso de letras e flechas encaminham a visão do observador para uma poética da liberdade que ganha muito mais sentido no todo do que ao se olhar uma imagem isolada. A mecânica do caderno é necessária por ter nesse percurso uma individualidade visceral.

De especial interesse são os desenhos feitos sobre registros de interferências de escombros. Está ali um tipo de pensamento e de trabalho plástico em sintonia perfeita com este início de século XXI. As fronteiras entre ficção e realidade se esvaem perante a intromissão do universo onírico do artista no que resta de uma civilização.

A poética de João Maciel ganha uma importância essencial no panorama contemporâneo se vista como um impulso constante para renascer das ruínas. Sua intervenção busca o caminho de construir daquilo que a sociedade rejeita. Há a procura por uma beleza desafiadora de ser encontrada.

A palavra Orte, que cristaliza o seu trabalho, escrita em muros com um traço imenso na frente, convida a completar essa charada. As criações do artista podem ser vistas como Morte, Sorte ou uma expressão Forte de que a arte de hoje para sobreviver precisa se renovar sempre de forma autêntica.

Isso exige o respeito às idéias que vêm do desenho, matriz primordial, fonte da qual se desenvolve todo um sentido de conseguir, pela arte, estabelecer uma relação com o mundo que não seja programática, mas sincera, regida pela digital que os traços de desenhos significativos, como os de João Maciel, comportam.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 

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desenho sobre registro de interferência sobre escombros 45x30 cm 2008

 João Maciel

 

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