João Maciel
Renovação de
forma
autêntica
Os
cadernos de
desenho
são
algo
ainda a
ser
melhor estudados na
história da
arte.
Muito se
fala
sobre
eles,
mas
são
poucos os
que têm a
paciência e
dedicação
necessária de
observar
com
atenção
como
ali está a
matriz do
pensamento dos
artistas,
com numerosas
pistas
para a
criação.
Mineiro de
Belo
Horizonte, João Maciel, nascido
em 1980,
expressa
em
seus
cadernos e
em
suas
obras de
maiores
proporções
sobre
tela e
com
outros
materiais e
suportes, uma
visão de
mundo marcada
pela
presença de
personagens
que povoam
seu
imaginário e se concretizam de
maneira
peculiar.
Se,
por
um
lado, mantém
características intrinsecamente humanas,
como
rostos e
proporções
entre as
partes do
corpo;
por
outro, desafiam a
compreensão
mais cartesiana
por
realizar
composições
em
que a
justaposição se faz
presente na
forma de
articular essas
figuras
em entornos
plenos de
humor e derrisão.
Corações
que aludem a
figuras religiosas,
seios
que esguicham e
uso de
letras e
flechas encaminham a
visão do
observador
para uma
poética da
liberdade
que
ganha
muito
mais
sentido no
todo do
que ao se
olhar uma
imagem isolada. A
mecânica do
caderno é
necessária
por
ter nesse percurso uma
individualidade visceral.
De
especial
interesse
são os
desenhos
feitos
sobre
registros de
interferências de
escombros. Está
ali
um
tipo de
pensamento e de
trabalho
plástico
em sintonia
perfeita
com
este
início de
século XXI. As
fronteiras
entre
ficção e
realidade se esvaem
perante a
intromissão do
universo
onírico do
artista no
que
resta de uma
civilização.
A
poética de João Maciel
ganha uma
importância
essencial no
panorama
contemporâneo se
vista
como
um
impulso
constante
para
renascer das
ruínas.
Sua
intervenção
busca o
caminho de
construir daquilo
que a
sociedade rejeita. Há a
procura
por uma
beleza desafiadora de
ser encontrada.
A
palavra Orte,
que cristaliza o
seu
trabalho,
escrita
em
muros
com
um
traço
imenso na
frente, convida a
completar essa
charada. As
criações do
artista podem
ser
vistas
como
Morte,
Sorte
ou uma
expressão
Forte de
que a
arte de
hoje
para
sobreviver
precisa se
renovar
sempre de
forma
autêntica.
Isso exige o
respeito às
idéias
que vêm do
desenho,
matriz
primordial,
fonte da
qual se desenvolve
todo
um
sentido de
conseguir,
pela
arte,
estabelecer uma
relação
com o
mundo
que
não seja programática,
mas
sincera, regida
pela
digital
que os
traços de
desenhos
significativos,
como os de João Maciel, comportam.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da Unesp, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).