por Oscar D'Ambrosio


 

 
 
 João Luiz Musa

 

            Encontro plástico

 

            Os elos entre a pintura e a fotografia são dos mais complexos e instigantes. Inúmeros são os teóricos que atribuem à invenção da fotografia uma nova etapa na arte de pintar, já que os retratos perdiam o sentido perante a proximidade do real propiciada pela câmara.

            Mais modernamente, o avanço da fotografia no sentido de permitir cada vez mais novas edições do material registrado apontou, segundo outra leva de professores, artistas e críticos, para o que alguns chamaram de “morte da pintura”, expressão utilizada em variados sentidos, mas indicando que as artes ligadas ao cavalete estariam sem espaço num mundo dominado pelas novas tecnologias.

            As fotografias de João Luiz Musa, exibidas de 21 de junho a 29 de julho de 2006, na Galeria Brito Cimino, em São Paulo, SP, reavivam esse tipo de discussão, mas não se esgotam nisso. Pelo contrário, apontam para uma retomada de alguns valores que muitos profissionais da área  às vezes têm relutância em discutir.

            Professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, Musa é também um estudioso da fotografia. Talvez isso o ajude a revisitar modelos com maior liberdade em busca constante de uma linguagem própria, atingida com lirismo em algumas das melhores imagens da mostra.

            Uma delas, a de uma pessoa escondida atrás de um poste com a sombra contra a parede, no East Village, Nova York, EUA, alcança o tom de interrogação e mistério das obras que encantam desde uma rápida visão a uma absorção mais detalhada em posteriores diálogos visuais.

            Algo semelhante se dá na imagem do Louvre, uma das mais densas, onde a célebre pirâmide é captada com a interferência lateral, onde imagem real e reflexo de um pedaço de um edifício antigo denunciam o diálogo entre arquiteturas que caracteriza o Museu hoje, num complexo relacionamento entre o novo e o antigo, entre a ruptura e a tradição.

            As duas fotos, coincidentemente de 2005, tornam-se ainda mais interessantes quando observadas junto a trabalhos mais antigos. Respectivamente, uma imagem de São Pedro da Aldeia, de 1996, e de Santo André, de 1992, são paralelas às anteriormente citadas. O elemento humano, em meio ao ambiente, e uma piscina vazia, fotografada entre uma névoa, já indicavam trilhas que Musa seguiria.

            As obras mostradas pelo fotógrafo paulista, nascido em 1951, poderiam talvez ser reunidas na imagem do Museu de História Natural, Nova York, EUA, 2005. Como em um quadro de Caravaggio, o contraste entre luz e sombra valoriza os elos entre o escondido (as paredes do museu, na penumbra) e o revelado (as vitrines da instituição).

            Uma foto da Broadway, Nova York, 2005, por exemplo, não só traz à mente a obra pictórica de Edward Hopper, mas revela como os dois artistas, embora distantes no tempo, guardam uma mesma característica, que se torna uma marca de encontro plástico: o talento de captar a solidão humana perante a grandiosidade das paisagens naturais. Nisso, seja na fotografia ou na pintura, eles se aproximam e renovam a nossa capacidade de olhar o mundo.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

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East Village, Nova York
fotografia - 2005

João Luiz Musa

 

 

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