por Oscar D'Ambrosio


 

 


João Correia Filho

 

            No ringue da vida

 

            O universo da Academia de Boxe Rafael Trejo, no bairro de Habana Vieja, em Cuba, é o ponto de partida das fotografias de João Correia Filho reunidas em “Cubanos: povo de luta”. A aproximação mais simples nos leva a pensar nessas imagens como uma analogia da busca cotidiana da sociedade local por melhores condições de sobrevivência, mas há muito mais ali.

            O fotógrafo soube como construir visualmente um mundo de sensações e percepções não só sobre o boxe, o esporte ou as contradições da ilha caribenha. Está ali um retrato da jornada diária pela sobrevivência de veteranos professores, grandes destaques em competições internacionais, e jovens promessas, numa caminhada em busca de reconhecimento.

            A imagem do menino solitário junto às cordas do ringue , com paredes desbotadas ao fundo é um ícone de tudo isso . Ela está dentro do espaço da luta , mas seus olhos estão para fora . Contemplam um futuro incerto que certamente sequer consegue imaginar . O seu entorno pobre e miserável , mas marcado pelo orgulho de estar entre os melhores , pode ser a base de futuras conquistas .

            Nessa mesma linha de raciocínio, a fotografia em que, sob o olhar atento do professor, dois meninos se enfrentam, sedimenta a saga de um país. Os rostos dos jovens não são mostrados pela angulação escolhida por João Correia Filho. Um menino descalço enfrenta o outro de tênis. Ambos saltitam buscando o melhor posicionamento.

É quase uma metáfora de um país em busca de si mesmo, mas valente.

            Luvas velhas corroídas pelo tempo e uma atmosfera decadente parecem não conseguir deter os sonhos dos antigos pugilistas e dos aprendizes. Há nos olhares e na luz das fotografias um romantismo constante, muito latino e caribenho, uma crença no futuro baseada sabe-se lá em qual fundamento.

            A crença em si e nas próprias possibilidades parece ser um alimento permanente. Algo está além do ringue a ser descoberto e cada menino dessa Academia parece ter a consciência interiorizada de que somente se chegará a um objetivo, mesmo que ele não esteja ainda muito claro, apenas com muito esforço, sacrifício e força de vontade.

As paredes podem estar caindo e os equipamentos podem não ser adequados. No entanto , como o fotógrafo João Correia Filho soube captar muito bem , há uma energia motriz vinda das entranhas da América Latina , que leva todo menino da Academia a fazer ginástica , colocar as luvas , socar pneus velhos e construir o próprio futuro . Onde muitos veriam apenas desolação , professores e alunos vêem a possibilidade de concretizar um sonho .

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 
 

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  Exposição Cubanos: povo de luta 
fotografia Sesc - SP - Vila Mariana 2009

João Correia Filho

 

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