por Oscar D'Ambrosio


 

 



João Cândido da Silva

Mãos que amam a vida

 

O dramaturgo William Shakespeare parece ter dito tudo sobre as mãos quando, no ato III de Júlio César, o personagem Casca, no momento de apunhalar o protagonista, afirma: "Falai, mãos por mim". Naquele instante, as mãos violentas do agressor realizam aquilo que sua mente assassina deseja concretizar.

As finas, longas e fortes mãos do artista plástico João Cândido da Silva ilustram o talento do escritor inglês ao falar das mãos. As do pintor e escultor, ao lidar com pincéis ou com madeira, assim como as de Casca, revelam o conteúdo de suas mentes. Enquanto o personagem shakespeariano mata com as mãos, corroído pelo desejo de poder, o artista brasileiro expressa um raro talento para trabalhar com diversas técnicas, atingindo resultados de elevado esmero artístico.

Filho de um trabalhador braçal de estrada de ferro, que instalava dormentes das linhas dos trens, João Cândido Silva, nascido em 11 de março de 1933, em Campo Belo, MG, mudou-se para São Paulo, SP, com Dona Maria, a mãe, e oito irmãos, no início da década de 1940. Eles vieram em busca do sonho de melhorar de vida, atraídos por histórias fantásticas, como a de que, na Capital do Estado, as pessoas eram presas pelo simples ato de cuspir nas calçadas.

A realidade, porém foi bem diferente. Ao chegar na Estação da Luz, São Paulo recebeu os migrantes com garoa e frio, panorama pouco animador para um menino que sofria de bronquite e que, por promessa da mãe, participava da dança folclórica popular moçambique, cujas evocações traria mais tarde para as suas telas.

Criado no Interior, João lembra que ficou assustado com os bondes e os edifícios enormes. Para piorar, os parentes que já moravam na Capital não puderam ir buscar a família na Estação da Luz. Com o passar das horas, prostitutas e motoristas de taxi abordavam o grupo de recém-chegados. A solução foi passar a noite numa gafieira. Cândido lembra que dormiu embaixo de uma escada, escondido, sem olhar muito para o que acontecia no salão. No dia seguinte, os parentes chegaram e a família se estabeleceu na cidade.

Enquanto o pai não se mudava definitivamente para São Paulo, Dona Maria exercia o trabalho de bordadora e lavadeira, auxiliada pelas crianças. Cândido lembra até hoje o dia em que o pai chegou, de charrete, vestindo um terno branco de linho. A família voltava então a se reunir, iniciando, posteriormente, uma trajetória até então inesperada no reino das artes.

O menino Cândido, em suas brincadeiras, já desenhava com carvão nas paredes da casa, enquanto a mãe, além de costurar para fora, fazia bonecos de madeira e pintava. Autodidata, ela inaugurava a tradição primitivista que se instalaria na família, com filhos pintores e escultores, como Sebastião e Benedito, já falecidos.

O talento dos Silva tem ainda uma matriz mais antiga: o avô materno de Cândido, que realizava entalhes de carroças em Sorocaba, SP, cidade em que Dona Maria nasceu. Talvez venha justamente desse antepassado materno a facilidade com que Cândido lida com a madeira. Seus grandes pilões, grupos escultóricos sobre a vida de São Francisco de Assis ou igrejas apresentam um detalhado e cuidadoso trabalho, fruto de muita paciência e domínio técnico.

Um ano mais velho do que Maria Aparecida, a mais célebre integrante da família, Cândido mexe com a mesma habilidade com as tintas e pincéis e com as ferramentas de escultor. Embora tenha assistido a algumas aulas de desenho na Escola Paulista de Belas Artes, preferiu investir na liberdade de criar e de determinar o próprio estilo.

Foi por intermédio do irmão Vicente, que namorava Raquel, filha do músico, dramaturgo e poeta Solano Trindade, que a família Silva, em meados da década de 1960, entrou no mundo das artes. Convivendo com esse grande incentivador da arte e da cultura negra, Cândido percebeu que a atividade que exercia até então como forma de lazer podia ser uma maneira de sobrevivência.

Toda a família Silva, liderada pela mãe, começou então a participar de eventos no Embu das Artes, onde Solano estava radicado. Posteriormente, Cândido, que trabalhou muitos anos em atividades ligadas à serraria em fábricas de tacos para assoalhos, passou a expor os seus trabalhos na Praça da República, onde permanece até hoje, mostrando e vendendo sua produção, ao lado da esposa Ilsa Jacob Silva, e dos irmãos, como Conceição, principalmente para turistas estrangeiros.

Cândido trabalhou ainda como motorista da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e, ao se aposentar, passou a se dedicar integralmente à arte. Fundador da Escola de Samba Unidos do Peruche, ele mantém seu trabalho ligado a essa tradição popular, como mostram diversos quadros com instrumentistas de bateria em diversas tonalidades. Festas vinculadas ao folclore e imagens religiosas também integram o universo do pintor, que trabalha com desenvoltura tanto assuntos sacros como cenas do cotidiano.

Um exemplo é a tela Espantalho de varal, que integra elementos rurais (pás, picaretas e o espantalho) e urbanos (edifícios), com harmonia, numa atmosfera regida por tons pastel. O espantalho é deslocado de seu habitat natural – a plantação – e colocado num varal, numa cena que encanta justamente pelo estranhamento que provoca.

Embora autodidata, o traço de João Cândido não se vincula totalmente ao primitivismo, principalmente pelo uso da perspectiva na composição de paisagens e no respeito pelas proporções das personagens entre si e destas em relação ao ambiente em que se inserem.

Ciente do seu ofício, Cândido devota a cada obra uma atenção especial. Pelo seu virtuosismo técnico, ele pode ser colocado numa vertente que oscila entre a delicadeza de cores próximas ao impressionismo e o vigor expressionista dos traços e imagens. Seu trabalho, seja em madeira ou tela, é o resultado de mãos calejadas, experientes e sensíveis no trato com diversos materiais.

Para João Cândido Silva, a arte é uma forma de sobrevivência, uma maneira de extravasar sentimentos e de manter a cultura viva. Talvez por essa consciência, suas composições, ora plenas de imagens ora com menos elementos, ora mais complexas, ora mais simples, têm em comum um alto padrão de qualidade, atingido pela dedicação extrema.

A mente criativa de João Cândido está constantemente em busca de novos desafios, seja com pincéis ou com ferramentas para trabalhar a madeira. Se mãos direcionadas pelo ódio podem matar, aquelas orientadas pelo amor à vida, como as do artista mineiro, mostram, por meio da arte, como telas e escultoras podem ser as expressões mais divinas do ser humano.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

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"Espantalho de Varal"

O.S.T 50X40 - 1994

João Cândido da Silva

 

 

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