J.
Mendez
A arte como valor
O universo da arte comporta diversos
caminhos de representação da realidade. Como apontava a poeta Hilda
Hilst, a criação surge justamente da diferença que existe entre o
mundo que o artista vê e aquele que ele deseja. Dessa tensão se
alimenta o artista visual ou da palavra, colocando, em imagens ou
palavras, a sua percepção de mundo.
Críticos
como Gulio Carlo Argan, por exemplo, em seus numerosos escritos, vêem a
obra de arte como possuidora de um valor, ou seja, ela permite, a partir
de sua contemplação e interação visual, a manifestação de
diferentes interpretações, que incluem aspectos plásticos
propriamente ditos, além de facetas econômicas, sociais e culturais.
Clement
Greenberg, por seu turno, ao se debruçar sobre a realidade
norte-americana, também consegue, a partir de uma obra, estabelecer
relações com toda a sociedade que está ao seu redor. Afinal, uma obra
é produto, de uma forma ou de outra, do universo em que ela se insere.
A produção
plástica do artista argentino radicado no Brasil J. Mendez, dentro
desse contexto, mostra um ser que apresenta criações marcadas pelo
desenho como principal expressão plástica. Nessa produção, em que se
destaca o trabalho com nanquim, merecem especial referência as produções
em que são retratadas cenas de cidades como Buenos Aires e São Paulo.
Suas obras
atingem os melhores momentos quando ocorre uma maior liberdade da
composição, com a exploração dos espaços em branco. Com menos
informação e detalhes, os trabalhos respiram mais, sendo possível
observar com mais clareza os caminhos adotados pelo artista.
O fato de
ele numerosas vezes marcar as áreas a serem ocupadas com molduras
visuais na forma geralmente de árvores pode, em certos casos, fechar
demais as composições, impedindo que elas tenham um espaço maior para
o olho do observador navegar sem rédeas.
O uso do
vazio, desafio técnico dos mais antigos, obriga a uma certa disciplina
baseada no célebre conhecimento do “menos pode ser mais”, ou seja,
saber quando parar um trabalho, retirando elementos e deixando o
essencial dentro do objetivo proposto é, sem dúvida, um ponto a ser
pesquisado e desenvolvido em cada nova criação.
Tendo em
vista que se vive hoje numa sociedade marcada pelo excesso de imagens e
de informação, o ato de sobrecarregar uma obra de dados plásticos não
pode ser visto como falha ou defeito, mas sim como o resultado de uma época
em que é cada vez mais difícil encontrar o ponto médio entre algum
tipo de hiper-realismo e formasd de minimalismo estéril.
J. Mendez,
principalmente quando estabelece seu mundo em preto e branco, marcado
pelo uso preciso de sombras e composições mais livres e limpas,
ressaltando a beleza da exploração do espaço, apresenta um trabalho
apto a retratar, por exemplo, a beleza plástica de uma cidade tão rica
em imagens poéticas como São Paulo.
Isso
sem esquecer a Buenos Aires de bairros como La Boca, onde a poesia está
na simples existência de cada esquina, com muita história para contar
e numerosas imagens à espera de desenhistas que trabalhem com seriedade
e competência, sem concessões, com rigor.
Outra
pesquisa visual importante é a já iniciada com portas, janelas e pátios
que revelam o talento de um artista sempre em diálogo com o espaço e
pronto a atingir seus melhores resultados quando se liberta da imagem
fotográfica e se permite a opção de escolher os caminhos plásticos
mais significativos, com linhas, sombras e contornos precisos bem
selecionados.
Como alertam
Argan e Greenberg, um artista não vive, portanto, isolado da sociedade
a que pertence. Ele, como ocorre com J. Mendez, a capta à sua maneira
– e isso significa estar sempre alerta para o que existe no mundo,
estabelecendo, de maneira consciente ou não, valores pessoais e
sociais. Filtra, assim, a chamada realidade, com seus olhos e mãos hábeis,
para oferecer ao fruidor uma estética renovada e indagadora, individual
na expressão, mas instigante em questionamentos coletivos.
Oscar D’Ambrosio, jornalista, é
mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus
de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil).