por Oscar D'Ambrosio


 

 


J. Mendez

 

            A arte como valor

 

            O universo da arte comporta diversos caminhos de representação da realidade. Como apontava a poeta Hilda Hilst, a criação surge justamente da diferença que existe entre o mundo que o artista vê e aquele que ele deseja. Dessa tensão se alimenta o artista visual ou da palavra, colocando, em imagens ou palavras, a sua percepção de mundo.

            Críticos como Gulio Carlo Argan, por exemplo, em seus numerosos escritos, vêem a obra de arte como possuidora de um valor, ou seja, ela permite, a partir de sua contemplação e interação visual, a manifestação de diferentes interpretações, que incluem aspectos plásticos propriamente ditos, além de facetas econômicas, sociais e culturais.

            Clement Greenberg, por seu turno, ao se debruçar sobre a realidade norte-americana, também consegue, a partir de uma obra, estabelecer relações com toda a sociedade que está ao seu redor. Afinal, uma obra é produto, de uma forma ou de outra, do universo em que ela se insere.

            A produção plástica do artista argentino radicado no Brasil J. Mendez, dentro desse contexto, mostra um ser que apresenta criações marcadas pelo desenho como principal expressão plástica. Nessa produção, em que se destaca o trabalho com nanquim, merecem especial referência as produções em que são retratadas cenas de cidades como Buenos Aires e São Paulo.

            Suas obras atingem os melhores momentos quando ocorre uma maior liberdade da composição, com a exploração dos espaços em branco. Com menos informação e detalhes, os trabalhos respiram mais, sendo possível observar com mais clareza os caminhos adotados pelo artista.

            O fato de ele numerosas vezes marcar as áreas a serem ocupadas com molduras visuais na forma geralmente de árvores pode, em certos casos, fechar demais as composições, impedindo que elas tenham um espaço maior para o olho do observador navegar sem rédeas.

            O uso do vazio, desafio técnico dos mais antigos, obriga a uma certa disciplina baseada no célebre conhecimento do “menos pode ser mais”, ou seja, saber quando parar um trabalho, retirando elementos e deixando o essencial dentro do objetivo proposto é, sem dúvida, um ponto a ser pesquisado e desenvolvido em cada nova criação.

            Tendo em vista que se vive hoje numa sociedade marcada pelo excesso de imagens e de informação, o ato de sobrecarregar uma obra de dados plásticos não pode ser visto como falha ou defeito, mas sim como o resultado de uma época em que é cada vez mais difícil encontrar o ponto médio entre algum tipo de hiper-realismo e formasd de minimalismo estéril.

            J. Mendez, principalmente quando estabelece seu mundo em preto e branco, marcado pelo uso preciso de sombras e composições mais livres e limpas, ressaltando a beleza da exploração do espaço, apresenta um trabalho apto a retratar, por exemplo, a beleza plástica de uma cidade tão rica em imagens poéticas como São Paulo.

Isso sem esquecer a Buenos Aires de bairros como La Boca, onde a poesia está na simples existência de cada esquina, com muita história para contar e numerosas imagens à espera de desenhistas que trabalhem com seriedade e competência, sem concessões, com rigor.

Outra pesquisa visual importante é a já iniciada com portas, janelas e pátios que revelam o talento de um artista sempre em diálogo com o espaço e pronto a atingir seus melhores resultados quando se liberta da imagem fotográfica e se permite a opção de escolher os caminhos plásticos mais significativos, com linhas, sombras e contornos precisos bem selecionados.

            Como alertam Argan e Greenberg, um artista não vive, portanto, isolado da sociedade a que pertence. Ele, como ocorre com J. Mendez, a capta à sua maneira – e isso significa estar sempre alerta para o que existe no mundo, estabelecendo, de maneira consciente ou não, valores pessoais e sociais. Filtra, assim, a chamada realidade, com seus olhos e mãos hábeis, para oferecer ao fruidor uma estética renovada e indagadora, individual na expressão, mas instigante em questionamentos coletivos.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 

Convite da IV Exposição de Artitas Plásticos Argentinos Residentes no Brasil
São Paulo, SP, 2006 
desenho

J. Mendez

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio