por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

J. Mello

 

            A alegria de pintar

 

            “Quando estiveres alegre, não o sejas com risos demasiados, mas com uma alegria humilde, modesta, afável e edificante”. As imagens criadas pela pintora J. Mello cristalizam-se nessas palavras de Santa Teresa de Jesus (1515-1582). Premiada em 2002 pelo conjunto das obras na  6ª Bienal Naïfs do Brasil, realizada em Piracicaba, SP, ela transmite ao observador uma simplicidade de viver que contagia à primeira vista.

O amor à natureza e a própria vida, uma paz de espírito transmitida por pincéis e liberdade de imaginação constituem a tríade da criação de uma artista que apresenta um estilo alegre, próximo, em algumas telas do expressionismo, repleto de cores e com intenso lirismo.

            Nascida em 29 de outubro de 1940,  em Bela Vista, Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai, às margens do rio Apa, J. Mello, cujo nome completo é Juracy Auxiliadora Gomes de Mello estudou em Campo Grande, MS, e Bauru, SP, tendo depois se formado em contabilidade em sua cidade natal.

            A atividade artística se manifestou desde cedo. Quando criança, por volta dos sete anos, morando em uma fazenda, já fazia peças em argila para brincar com as oito irmãs. Mais velha, trabalhou como professora primária, foi proprietária de uma escola de jardim da infância e preparava bolos para festas, atividade na qual criava motivos, como animais, em recortes de papel e, depois, na forma de massa.

            O universo da imaginação sempre integrou a vida da hoje artista premiada. Além do início com argila, J. Mello realizou pintura em tecidos e outros trabalhos artesanais. Teve aulas de escultura e tentou a pintura acadêmica, mas percebeu que esta última não se adequava ao próprio estilo.

A artista voltou-se então para a pintura primitivista, formando o grupo “Coisas da Terra”, com o qual realizou a sua primeira exposição coletiva, em 2002. Em suas obras, destacam-se características ímpares como apresentar as casas abertas, sem as paredes laterais, maneira originas de visualizar o interior das mesmas.

Penetra-se assim na vida das personagens retratadas. Elas surgem em atividades cotidianas, sejam mulheres em afazeres domésticos ou crianças brincando em uma banheira. Com esse recurso, tornamo-nos próximos dos retratados. Passamos a compartilhar do mundo deles.

A pintura de J. Mello é justamente convidativa pela ênfase dada às atividades mais simples do ser humano, principalmente o trabalho e o lazer, e pela maneira como surge a natureza. Mesmo quando se trata de mostrar uma fazenda com numerosas casas, as árvores e a água desempenham um papel relevante, inseparáveis da vida de cada trabalhador rural ou criança brincando de pular corda ou de jogo-de-amarelinha.

Nesse painel humano, uma das figuras preferidas de J. Mello é o Jeca Tatu, retratado subindo ao céu, triste junto a um cão sarnento, sonhando junto a uma plantação decadente ou com uma enxada nas mãos e as pernas transformadas em raízes de uma sólida árvore.

            Cabe recordar que o Jeca-Tatu, personagem criado pelo escritor Monteiro Lobato em seu livro de contos Urupês (1918), era inicialmente um símbolo do fracasso do País, incorporando valores como a preguiça e a falta de iniciativa, imageticamente visualizados  na tradicional imagem do caipira sempre acocorado no chão de terra de uma choça de sapê.

            Combatido pelo esteriótipo preconceituoso que criara, Lobato reviu essa posição anos mais tarde, passando a tratar o Jeca não como a causa do subdesenvolvimento nacional, mas como uma vítima da verminose, da subnutrição, do analfabetismo e do desamparo por parte do governo.

            O Jeca das telas de J. Mello apresenta, em sua tristeza e ascensão aos céus, uma certa grandiosidade épica. Fortemente ligado à terra, parece não conseguir desenvolver o seu potencial vitorioso e, por isso, mergulha numa depressão que o leva ao imobilismo. Passa então a apenas contemplar o fluir da vida, deixando de ser um agente da própria existência.

            A artista plástica enfoca ainda temas como festas populares (capoeira, noites de seresta, ciranda), cenas urbanas (como o Morro do Bananal) e reminiscências da infância e da juventude. Em todas essas obras, permanece um traço marcante, bem definido, com uma alegria de viver visível em imagens de densa simplicidade, ricas em detalhes e cores terrosas que traçam um painel das origens de boa parte do povo brasileiro.

            Primitivista pela temática abordada, pelo autodidatismo e pelas pinceladas aparentemente simples, mas com uma força expressiva identificável na sinceridade com que trata temas caros à sua experiência pessoal e regional, J. Mello, após a premiação recebida em Piracicaba, SP, começa a conquistar, com todos os méritos, um espaço na pintura brasileira, principalmente naquele segmento destinado aos artistas  realmente dignos desse nome, ou seja, os que manifestam sua alegria de viver e de criar de forma “humilde, modesta, afável e edificante”, como apontava Santa Teresa.    

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

 

 

 

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"Fazenda Bonsucesso I"

acrílica sobre tela 50 x 60  - 2002

 J. Mello

 

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