Jesica Helman
Decifradora de Almas
"O pincel me
parece imutável ao longo do tempo". A declaração, ao contrário
do que possa parecer, não é a de um pintor experimentado,
adiantado em anos e em vivências. Quem a disse foi a jovem
pintora argentina Jesica Helman, uma investigadora de almas sempre
pronta, em qualquer tempo e espaço, a exercer, com seus olhos e
traços apurados, a habilidade de desvendar os matizes psicológicos
das mais variadas situações.
Nascida em 10 de março
de 1964, em Buenos Aires, a artista apresenta um estilo marcante.
Talvez a série de telas que deixe isso mais evidente seja a série
En el diván. No segundo quadro, mostra uma mulher sensualmente
deitada em um divã embaixo de uma parede onde há quadros que
emolduram figuras vinculadas à psicologia, como Sigmund Freud.
Em frente à moça, há
uma enorme cômoda com um espelho, em que ela se vê de mão dada
com o psicanalista, que, por sua vez, aparece na cena olhando para
a moça com um ar malicioso de desejo. O mais curioso é que,
exatamente acima da cabeça do profissional, um livro, levemente
deslocado da estante, funciona como autêntica coroa de
conhecimento. Acrescente-se que o psicanalista surge no espelho
sem o paletó, enquanto, na cena real, está muito alinhando,
contrastando com o vestido decotado e a mão da moça dentro das
próprias meias compridas e brancas, insinuando um movimento de
sedução.
Muito é sugerido e
quase nada dito, gerando momentos de intenso prazer estético,
como somente as grandes pinturas podem provocar. O fato,
felizmente, não é isolado na carreira de Jesica, que já expôs
suas telas no Museu Austral Naïf de Esquel, além de Mendoza,
Bahia Blanca, Mar del Plata, Pinamar, Rosario e Buenos Aires. No
entanto, ela não se esquece da mostra que fez em Nova York, no boêmio
bairro do SoHo. "É bem diferente jogar como local do que
como visitante. Aquilo foi um verdadeiro desafio", diz.
Quanto ao seu estilo, a
artista se considera uma naïf não só na pintura, mas também no
seu próprio comportamento perante a vida e exemplifica com o
momento atual, em que se dedica exclusivamente à pintura e a
cuidar uma menina que adotou com o marido. Essa preocupação com
a humanidade é notória em suas telas, pois nelas as pessoas
ganham destaque, não tanto pelo espaço que ocupam nas composições,
mas pelas situações limite em que são colocadas. Assim, cada
imagem suscita reflexão e estimula o discernimento.
Uma pintura com tamanha
energia não surge da noite para o dia. A vocação de Jesica para
a pintura foi despertada inicialmente pela mãe e depois pela
pintora Aniko Szabo. Ela estudou ainda pintura, de 1983 a 1986,
com Gabriel Kellity e desenho, de 1984 a 1987, com Norberto
Onofrio "Vou me transformando e, com isso, muda a minha
arte", afirma.
De fato, a arte de
Jesica parece um universo em mutação. Os seres humanos que
mostra podem estar fisicamente estáticos, mas suas mentes são
mostradas num turbilhão de pensamentos. No livro Arte NaÏf:
livro de notas, lançado em 2000, disse: "Apenas gostaria de
refletir um pedaço da vida de cada pessoa. Pode parecer
pretensioso, mas é realmente o que quero". É exatamente
isso o que acontece perante as suas telas. Todos, de uma forma ou
de outra, sentem-se tocados pelas suas imagens.
Ela mostra, por
exemplo, um artista perdido pela ausência da musa, em Sin vos no
puedo ou ainda sob o mesmo título, noutra tela, o jogo de olhares
entre jogadores de cartas e o atendente de um bar, alem de algumas
meretrizes num ar em que é possível ouvir o som de um tango a
alimentar os relacionamentos humanos insinuados pela pintora.
O olhar é um tema
muito importante para Jesica. Em Miradas cruzadas, por exemplo, um
bar é novamente o cenário de um jogo sedutor entre a moça
bonita que entra, o ancião que está tomando uma cerveja na calçada
e a senhora sentada na soleira da porta. Dentro, o violonista
seduz com o olhar uma moça sentada num banquinho, alheios às
atividades dos outros clientes.
Jesica diz que seus
planos são pintar e mostrar aquilo que realiza. "Necesito do
retorno das pessoas. Crio para mostrar e mostro para poder
criar", conta. Nesse jogo sem fim, apresenta, por exemplo, em
Amando la mujer perfecta, um pintor cercado de numerosos esboços
fragmentados em busca da composição da mulher ideal, tema platônico
por excelência que a pintora trabalha de maneira moderna e
criativa.
Perguntada sobre suas
temáticas, a artista plástica informa que pinta histórias
urbanas de pessoas comuns. "Minha temática se alimenta
daquilo que conheço e as apresento de uma ótica, creio, muito
feminina. São histórias de homens e mulheres sozinhos, com suas
angústias, grandezas e misérias, grandes amores e grandes decepções",
argumenta, como evoca a tela El último beso, em que o encontro
entre o casal retratado é apontado, pelo título, como
provavelmente sendo o derradeiro.
Uma maneira de
verificar isso é o quadro Historias de amor y desencuentros, em
que um conjunto das coloridas casas que caracterizam o bairro de
La Boca, em Buenos Aires, é apresentando ao espectador. Pelas
janelas abertas, vemos diversas pessoas isoladas, cada qual em seu
mundo: uns assistem a um jogo de futebol pela televisão; outros
comem; outros namoram; as crianças brincam ; e há até os que
ouvem vitrola aparentemente brigados ou, no mínimo, com
melancolia. Trata-se de um retrato marcante e simbólico do mundo
moderno, em que as pessoas vivem muito próximas, mas pouco se
comunicam entre si.
Ainda nessa linha da
solidão que caracteriza as personagens de seus quadros, Jessica
pintou Um amor limpio, 11 años después, em que uma bela mulher
aparece numa banheira coberta de rosas, de maneira semelhante ao
que o mundo inteiro viu no premiado filme Beleza americana, de Sam
Mendes, enquanto o sedutor, completamente vestido, segura uma rosa
com a mão direita e uma figura misteriosa espia pela porta
entre-aberta. Instaura-se o clima de indagação sobre o que
acontecerá no próximo instante, como se estivéssemos defronte a
um filme.
Jesica admite que sua
arte sempre está em mudança. Como ela mesma diz, começou com
paisagens de lugares que nunca tinha visitado e animais que não
tinha visto pessoalmente. "Somente depois, comecei a retratar
o meu mundo. Há amores furtivos, bares com mesas escritas,
psicanalistas, prostitutas em busca de amor ou algo
semelhante", declara.
A busca de Jesica
Helman pelos meandros da alma humana salta em seus quadros, que são
análises psicológicas de almas. "Muitos acreditam até que
sou psicóloga ou arquiteta. A verdade é que não estudei
psicologia, mas fiz análise por muitos anos. O marido de minha mãe
sim é psiquiatra. O fato é que gosto muito da série que fiz com
os analistas", revela.
Essa série é certamente o ponto alto da carreira de esta pintora
que, até aqui, já ganhou dezoito prêmios, entre os quais se
destaca o Grande Prêmio de Honra Guzmán Loza, na Galeria Hoy en
el Arte, em Buenos Aires, e o Grande Prêmio de Honra Honda, pelo
já mencionado Un amor limpio..., na IV Bienal Naïf Internacional
de 2000, realizada pela Fundación Rómulo Raggio, na mesma
cidade, indicando um reconhecimento crítico que deve aumentar nos
próximos anos.
Quadros como a série dos psicanalistas conduzem a uma
intermitente pergunta: damos vazão às nossas emoções? O
psicanalista e a paciente retratados em En el diván II, não
seriam mais felizes se estivessem juntos, como aparecem no
espelho, do que reprimindo seus desejos como terapeuta e paciente
no lúdico jogo de uma sessão de psicanálise, em que o não-dito
é, muitas vezes, se não sempre, mais importante que o revelado?
Na pintura de Jesica Helman esses não mencionados e verbalizados
vêm à tona; e, por isso, ela se torna uma jovem decifradora de
almas, com um pincel sempre pronto a desvendar as barreiras da
psique e do tempo.
Oscar
D'Ambrosio