por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

 

Jeronimo

 

            O sol que faz a diferença

 

            A xilogravura, arte que consiste na habilidade de talhar a madeira para criar placas que funcionam como matrizes que permitem a impressão de numerosas cópias, tem no Brasil expoentes altamente significativos, principalmente oriundos do Nordeste, já que essa manifestação está tradicionalmente associada à criação de capas para folhetos de cordel.

            O grande dilema do artista que entra nesse meio está em oferecer algum elemento diferenciador no seu trabalho. Somente assim pode se destacar. Dar esse salto qualitativo é um desafio. Exige determinação e coragem de proporcionar algo novo dentro de uma estética popular tradicional em muitos assuntos e formas de representação.

            Nascido em Esperança, Paraíba, em 24 de maio de 1935, o xilogravurista Jeronimo viveu boa parte das encruzilhadas do gênero, a começar pela sua própria gênese, já que o pai, José Soares, cordelista conhecido como o “poeta repórter”, alcançou sucesso nos anos de 1930.

            Aos 12 anos, o menino começou a ilustrar os cordéis do pai. O talento demonstrado, porém, não era suficiente para dar vôos mais altos.  O caminho escolhido foi o de milhares de imigrantes: a viagem para São Paulo. Há quatro décadas, buscou a Folha de S. Paulo, mas é por intermédio da jornalista Sônia Abrão, do Notícias Populares, que consegue ter o seu trabalho divulgado.

            Passa a ser conhecido em São Paulo, pelas gravuras e por tocar sanfona em bares e na Praça da República. Sente, todavia, que precisa criar algo que o diferencie dos outros gravadores em madeira: uma marca registrada, algo que permitisse reconhecer as suas obras a distância.

Surge dessa maneira o sol com uma espécie de cauda de cometa presente em suas gravuras, decorrência, em última análise, de um trabalho marcado pelos numerosos entalhes, que tornam os seus fundos bastante peculiares, com muitas incisões, num desenvolvimento espacial com nuances nem sempre presentes nos artistas do gênero.

 Além do mencionado sol e da composição mais rebuscada que o habitual na técnica, as árvores de Jeronimo são um capítulo à parte em seu processo criativo. A maneira como dispõe os troncos e os formatos de eventuais folhas e frutos são também características que foram se desenvolvendo na sua trajetória.

A tudo isso, soma-se um senso de humor próprio da literatura de cordel. Cenas familiares cotidianas ou imagens de favelas com críticas sociais urbanas são tratadas com o mesmo tom, ou seja, há senso de observação do dia-a-dia aliado a uma visão irônica, presente numa desproporção, num detalhe jocoso ou numa articulação de elementos dispostos na matriz sem medo.

A proximidade a até mesmo a fusão de pessoas e plantas contribui decisivamente para criar esse efeito, assim como a presença constante de pássaros, observando as cenas ou se integrando à imagem retratada. Nesse universo, o maior mérito de Jeronimo está em manter os diversos elementos que compõem as suas narrativas visuais em situações de harmonia.

Tudo está lá exercendo uma função e não se tem a impressão de que seria melhor retirar alguma coisa. A vida difícil do nordestino no campo e a não menos sacrificada rotina do mundo urbano dos menos favorecidos são expostos lado a lado sem qualquer tipo de receio, porque o pensamento plástico de Jeronimo consegue unir distintos temas com suas marcas de domínio técnico das ferramentas e da madeira.

            Criador dos próprios instrumentos como goivas e agulhas, que também vende para outros artistas, é no Jardim Canhema, em Diadema, SP, onde mantém seu ateliê, que conserva a tradição artística herdada do pai. E já tem seguidores: o filho Nino e o neto Wesley também desenvolvem a xilogravura, dando prosseguimento, como costuma ocorrer no Nordeste, a um diálogo intenso entre o cordel, a música e a literatura.

Nem todos precisam praticar todas essas atividades, mas elas caminham próximas, num diálogo estimulante que gera entrelaçamentos infinitos. Como árvores que encontram seus galhos e se perdem em conversas eternas. Jeronimo, que já recebeu elogios do escritor baiano Jorge Amado (“Suas madeiras para capas de folhetos de cordel são de real beleza, poderosas e poéticas”), prossegue, assim, numa caminhada pessoal, pelos diferenciais apresentados, mas coletiva, pela manutenção da xilogravura como uma das mais significativas expressões no universo artístico brasileiro. 

Jeronimo dá às xilogravuras que cria muito mais que um sol diferenciado, árvores com curvaturas, troncos, folhas e frutos bem característicos, riqueza de detalhes e composições ousadas. Acima de tudo, dá aos seus trabalhos uma personalidade própria – e isso é responsável pela excelente repercussão que a sua obra tem entre os artistas brasileiros do gênero.

 

             Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 

 Briga de peru e papagaio
xilogravura 45 x 33 cm 2004

Jeronimo

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio