Jean Duran
A arte do olhar
Já foi dito que os olhos são o
espelho da alma. A frase ganha novas conotações perante a
pintura figurativa de Jean Duran. Seu estilo, com traços
expressionistas e simbolistas, sustenta-se, em boa parte, pela
força dos personagens que retrata em suas telas, que oscilam
entre uma plácida passividade e uma ação impulsiva.
Nascido em 1937, em Charente, França,
Duran, desde a infância, demonstrou inclinação pela pintura a
óleo em tecido, principalmente o retrato. Em 1955, o mestre
Robert Humblot, aconselhou-o a prosseguir nesse caminho, dando o
impulso que faltava ao jovem artista.
Já no ano seguinte, o pintor se
estabeleceu em Bordeaux e começou a sobreviver da feitura de
retratos sob encomenda. 1957, porém, marcou uma interrupção de
três anos na carreira de Duran chamado para combater na Guerra da
Argélia. Na volta, passou a ajudar os negócios da família,
atividade que exerceu até 1987.
A volta à pintura se anunciou em
1986, quando o artista encontrou o mestre holandês Van Vulpen
Wierts, que estimulou novamente Duran a se dedicar aos pincéis,
prosseguindo com seus quadros bastante expressivos em que
predominam retratos de mulheres e cenas com intenso movimento,
como danças.
Um dos temas preferidos do artista é
o tango, mostrado em toda a sua intensidade emocional, com os
bailarinos entrelaçando as pernas e corpos grudados. Perante
fundos enevoados, as figuras ganham destaque, sendo quase
possível ouvir os sons que embalam os corpos em seus passos
marcados pelos acordes do bandoneón.
Flamenco é outra tela que segue nesse
mesmo caminho de relacionar música e imagem. A dança flamenca
ganha o centro da cena, com uma bailadora – que se destaca pelas
cores quentes, como o vermelho, e pelo seu olhar penetrante –
secundada por músicos com guitarra e pessoas batendo palmas.
O quadro Prostituta velha ou Ano 2000
também são muito expressivos. O primeiro, de forte contorno
expressionista revela a expressão forte de uma senhora já idosa
com um ar decadente, mas, mesmo assim, pleno de sensualidade,
tanto em seu olhar como em suas vestes.
No segundo, um homem é colocado
saindo de uma lata de lixo, numa visão crítica àqueles que
saudavam a chegada do ano terminado em número redondo como uma
grande oportunidade de prosperar. As duas telas alertam para a
quebra de ilusões e obrigam quem as observa a lembrar dos
problemas sociais que afetam o mundo.
Um outro trabalho em que a dor da
personagem central é imensa é A dor de Maria, na qual a
personagem que intitula a obra surge em primeiro plano, enquanto,
do lado direito, é possível visualizar as três cruzes e pessoas
próximas ao local da morte de Jesus. A expressão de Maria, misto
de conformismo, dor e sofrimento, é um dos melhores trabalhos do
pintor francês.
Em telas mais delicadas, mais
próximas ao simbolismo pelo uso das cores e de contornos mais
suaves, Jean Duran também atinge um belo resultado. Ao mostrar
mulheres de chapéu, banhistas na praia, o retrato de seu filho
quando criança ou uma mulher libanesa consegue dimensões
líricas e poéticas.
As visões que o artista tem da cidade
de Paris ou de um quarteto de cordas são também realizações de
um artista que domina a sua técnica e que busca dar a qualquer
que seja o tema uma visão bem própria, diferenciada pelo estilo
das pinceladas e pela forma como realiza o diálogo entre a figura
central e o fundo.
Nos quadros de Duran, a tendência é
que as figuras na parte central do quadro sejam mais relevantes,
seja pelo tamanho ou pelo grau de detalhe em sua feitura.
Evidencia-se assim a predominância de imagens fortes, que chamam
a atenção do espectador e rapidamente o conquistam.
É nos olhos dos homens e,
principalmente, das mulheres que retrata que Jean Duran revela
toda a sua força de artista. Cada imagem mostra seres
compenetrados nas atividades que realizam, seja em momentos de
calmaria ou de extremo sofrimento. O principal está em observar
cada olhar e sentir aquilo que eles expressam em jornada vivencial.
E nessa arte que o pintor francês é mestre.
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é
autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp).