J. Borges
O oráculo do
cordel
Na Grécia
Clássica, o divã do psicanalista eram os oráculos. Após rituais de
purificação, quem desejava se consultar fazia a sua pergunta à
sacerdotisa. Ela, após entrar em transe, gerado pelo uso de algumas
ervas aromáticas, dizia uma frase curta, geralmente de sentido
ambíguo, interpretado das mais diversas maneiras.
Em Bezerros,
cidade localizada a 100 km do Recife, capital do Estado de Pernambuco,
é possível encontrar um oráculo bem diferente, mas com função
semelhante. Seu nome é José Francisco Borges, conhecido como J.
Borges, e sua fala nada tem de enigmática.
Pelo contrário, seu
discurso cristalino, repleto de histórias sobre a literatura de
cordel, desde a escrita da história, a produção da xilogravura que vai
na capa, a impressão e a venda nas feiras, que exige uma técnica que
livro nenhum ensina, traz todas as respostas possíveis para quem
deseja entender melhor aquilo que os eruditos convencionaram chamar de
cultura popular, como se o conhecimento artístico tivesse rótulos
possíveis.
Conhecer
esse oráculo – memória viva da cultura do cordel – significa vivenciar
a história de um homem que, nascido no sitio de Piroca, na citada
Bezerros, em 20 de dezembro de 1935, ganhou o mundo por meio de sua
arte, tanto pelos versos como pelas xilogravuras diferenciadas,
principalmente as que mesclam partes de diversos animais em
combinações inusitadas, monstros maravilhosos com a força do sertão e
uma imaginária que remete aos melhores momentos da heráldica medieval.
J. Borges
tinha tudo para ser mais um nordestino anônimo numa capital
brasileira, mas trilhou seus próprios caminhos. A partir dos oito
anos, ajudava o pai, lavrador – e só freqüentou a escola durante dez
meses, quando tinha 12 anos. Com noções básicas de escrita, leitura e
matemática, decidiu sair para enfrentar o mundo e se aperfeiçoou nas
letras pelo desejo de ler os cordéis que ouvia o pai declamar.
Na adolescência, fez um
pouco de tudo. Foi fabricante e vendedor de cestas e balaios, passador
de jogo de bicho, cortador de cana em usinas, amassador de barro em
olarias, pedreiro, carpinteiro e pintor de parede. Em 1955, aos 20
anos, com dinheiro ganho com a venda de brinquedos de madeira que
fazia, decidiu comprar folhetos de cordel como os que ouvia na voz do
pai e dos cantadores para revender na feira de sua cidade.
Logo percebeu que vender
era uma arte própria – e especial. Exigia a aprendizagem do
conhecimento de saber a maneira correta de ler um folheto. Isso
significava dominar o público, fazendo pausas comentadas no meio da
interpretação do texto, criando expectativas e brincando com as
pessoas, chegando até mesmo a parar a atuação pública para estimular
as pessoas a ler o final apenas quando comprassem o cordel.
De ler
folhetos alheios, J. Borges passou a produzir os próprios. O primeiro,
em 1964, foi O encontro dos vaqueiros no Sertão de Petrolina,
com capa do Mestre Dila de Caruaru. Conseguiu vender cinco mil
exemplares em dois meses, o que o levou a concluir que poderia
concentrar energia na atividade de escrever os cordéis.
Seu próximo
texto foi O verdadeiro aviso de Frei Damião. Marcou também, em
1965, o início de sua produção como gravurista em madeira. Como não
tinha dinheiro para contratar um criador de xilogravura, assumiu a
tarefa como autodidata. Foi o início de uma produção de mais de 200
cordéis escritos, sendo o de maior sucesso, com 100 mil exemplares
vendidos, A chegada da prostituta no céu, que surgiu, nos anos
de 1980, porque as pessoas queriam que ele contasse a história da
gravura que havia feito em 1976.
O curioso é
que a primeira imagem que J. Borges fez para ilustrar seu próprio
cordel funciona perfeitamente como metáfora de como ele entende o
cordel e a própria vida. Ele acredita – e transmite isso com certeza
digna de um oráculo – que essa arte tem como base de funcionamento uma
mentira. Para funcionar, porém, ela precisa ser plausível, seja no
passado, no presente ou no futuro. Somente assim consegue conquistar
leitores.
O
verdadeiro aviso de Frei Damião segue essa filosofia a risca. Em
primeiro lugar, ao contrário o do que o cordel diz, J. Borges não
conheceu o Frei Damião – e muito menos foi para Juazeiro do Norte, no
Ceará, santuário desse personagem do mundo religioso nordestino.
Daí decorre
uma segunda mentira. Na xilogravura que está na capa do cordel, J.
Borges colocou a igreja com duas torres, quando, de fato, ela só tem
uma. Ninguém havia reparado nisso até o próprio autor do texto e da
imagem ter ido lá, acontecimento que confirma a máxima do artista de
Bezerros de que maior será o sucesso quanto maior e melhor contada a
mentira.
Seguindo
essa filosofia, J. Borges vendeu cordéis próprios e alheios durante 20
anos (1955-75) em feiras pelo interior. Nos anos de 1970, continuou
talhando figuras de diabos, Lampião, prostitutas, vaqueiros e festas
populares, tanto para seus folhetos como para atender encomendas de
outros poetas.
A virada em
sua carreira ocorreu em 1972, quando os pintores cariocas Ivan
Marquetti e José Maria de Souza, em visita a Bezerros, encomendaram
gravuras em tamanhos maiores do que os usados normalmente na capa do
cordel. Encantados com o resultado, levaram esse material ao escritor
Ariano Suassuna, que, envolvido com a busca dos elos entre o Nordeste
e o mundo medieval, não hesitou em considerar J. Borges “o melhor
gravador do Nordeste”.
Era o aval que o artista
pernambucano precisava para ampliar as dimensões de seu trabalho. Foi
então convidado a dar aulas na Universidade do Novo México e a expor
no Texas, sendo inclusive tema de uma reportagem no jornal The New
York Times, que o apontou como um gênio da arte popular.
Choveram então convites
para exposições em mais de 20 países europeus, além de nações latinas,
como Venezuela e Cuba. Começou assim um roda-viva de palestras e
oficinas, com suas imagens tornando-se capas de livros, brindes e
calendários. Foi ultrapassada dessa forma a fronteira do cordel e das
feiras – e o trabalho de J. Borges foi muito bem acolhido nas
universidades, merecendo numerosos estudos como manifestação popular
de um Brasil em desaparecimento.
O fascinante
é que esse oráculo do sertão, que recebeu, em 1999, o prêmio de Honra
ao Mérito Cultural do Ministério da Cultura e, em 2000, o Prêmio
UNESCO ainda escreveu e imprimiu, numa máquina tipográfica do século
XIX, a mesma que utiliza para produzir seus cordéis, o livro
Memórias e Contos de J. Borges.
Estão ali
alguns dos melhores episódios de um homem com três casamentos na
bagagem, dez filhos vivos, dos 18 que teve, sendo alguns artistas
plásticos, como Massanés e Ivan, além do filho adotivo J. Miguel,
também xilogravador. Nessas páginas, J. Borges narra momentos em sua
jornada de histórias e imagens pelo cotidiano, cultura e folclore do
homem do Nordeste, como o cangaço e a luta do povo para sobreviver às
agruras físicas, econômicas e psicológicas do sertão.
Sem a figura dos
vendedores de cordel nas feiras. J. Borges vê, nos anos de 1990,
intelectuais, artistas, colecionadores de arte e professoras de todos
os níveis se tornarem os maiores compradores de seu trabalho, curiosos
em conhecer as suas histórias sobre a pobreza, o amor, os castigos do
céu, os mistérios da terra, os milagres divinos, os crimes e a
corrupção, além de narrativas sobre folguedos populares, a
religiosidade e a picardia do imaginário nordestino.
Acima da análise dos
folhetos de cordel, principalmente dos que trabalham com as maiores e
melhores “mentiras” ou de xilogravuras, com especial destaque para as
que criam seres imaginários a partir de animais existentes, J. Borges
exercita seu poder de oráculo na forma como fala de cordel, do seu
passado glorioso, do seu quase desaparecimento na década de 1980 e do
seu renascimento com conquista de um novo público formado por um
público letrado, bem distante intelectualmente daqueles que compravam
folhetos de 1950 a 1970.
Seu ponto forte continua
sendo a capacidade de contar histórias. Fala da própria vida e da sua
experiência com a mesma vivacidade com a qual vendia folhetos na
feira. Ele nunca deixa de estar num grande palco. Seja em seu ateliê
na pequena Bezerros ou num auditório repleto de uma universidade, é o
mesmo J. Borges que vemos e ouvimos.
Autêntico em sua
simpatia, sábio em suas certezas, narrador de primeira, exímio exemplo
de oratória e de domínio de tudo que está ao seu redor, J. Borges é um
cordel vivo. A cada passo que dá, seu nome se torna uma lenda. A
história de J. Borges, o oráculo do cordel não poderia ser o
título desse folheto a ser escrito?
E a capa? Está aí um
desafio para os filhos. Talvez o próprio J. Borges já tenha até a
melhor imagem em mente. Um dia, pegará, com suas mãos experientes, as
ferramentas e um toco de madeira para talhar a matriz mais importante
de sua vida: a da própria história, uma saga inenarrável, a não ser na
forma de um cordel interpretado por um cantador de talento.
E por que ele mesmo não
conta a sua própria história? Assim, as mentiras poderão
definitivamente se tornar verdade, pois serão tão bem escritas,
desenhadas e contadas que ao público só restará uma alternativa: ouvir
com atenção e levar A história de J. Borges, o oráculo do cordel
para casa – e guardar para os filhos. Assim, o nome e a narrativa
viram lenda – e o homem se torna definitivamente um mito.