por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

 

J. Araujo

Um baiano carioca de cores felizes – Oscar D’Ambrosio

 

"Como o valor de um homem se mede por aquilo que ele deixa, meu legado são os trabalhos feitos com as cores da minha alma para os olhos e corações, retratando o que eu esperava encontrar quando vim ao mundo: paz, harmonia e felicidade, um mundo pleno de simplicidade puro, ingênuo, onde tudo é belo", diz o pintor Jonathas Araujo, que assina seus trabalhos como J. Araujo.

Esse pensamento mostra bem o que se pode esperar dos quadros desse artista nascido, em 1940, na Bahia e radicado, desde, 1965, na bucólica região de Vargem Pequena, Rio de Janeiro, um local ideal para desenvolver um trabalho repleto de cores e imagens de uma vida plena de esperança.

Autodidata, influenciado por artistas como Guignard e a primitivista Djanira, com quem chegou a trabalhar na confecção dos azulejos que decoram o túnel Santa Bárbara, no Rio de Janeiro, J. Araujo fez sua primeira exposição individual, já no Rio, em 1959, estimulado pelo marchand Jorge Beltrão, que o estimulou a seguir a sua tendência naïf.

Esse tipo de incentivo ao seu trabalho o levou a continuar pintando cenas de roça e paisagens em que são retratados hábitos simples da população, pássaros e matas floridas. Os quadros mostram, em perspectivas abertas, barcos de pescadores, alguns deles estendendo redes, vistas da Baía da Guanabara e inúmeras paisagens de Vargem Grande, com marinheiros no porto.

Há ainda casarios, vistas áreas e festas populares. Destaca-se, por exemplo, um circo extremamente colorido com numerosos personagens. As cores quentes transmitem justamente a alegria de viver cada instante, numa festa contínua de imagens que se sobrepõem e contagiam. "A abundância de cores no meu trabalho provém do Carnaval, do Nordeste e da pujança da natureza", conta.

Duas imagens suas, Domingo em Vargem Grande, em que mar, praia, campos de futebol, uma linha férrea, o casario à beira-mar, colinas, colheitas, uma igreja no topo de uma elevação e um céu límpido preenchem, de baixo para cima, em faixas horizontais, o espaço; e Futebol em Vargem Grande, com riqueza de personagens, como jogadores de futebol, policiais e ciclistas, e elementos urbanos, como caminhões, carrinhos de pipoca, jipes e ônibus, foram escolhidos pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para ilustrar, respectivamente, em 1999 e 2000, seus célebres cartões de Natal, vendidos em todo o mundo, com renda em benefício das crianças assistidas pela entidade.

Mesmo assim, o artista baiano de alma carioca não é muito conhecido no País. "Como a arte naïf não é ainda muito divulgada no Brasil, ela é freqüentemente confundida com a pintura infantil. Na verdade, prima pelos detalhes e retrata o cotidiano tal como o percebe a alma do artista", explica. "A arte de uma forma geral se afastou do entendimento do povo, enquanto a arte naïf é facilmente identificável porque todo mundo tem algo de ingênuo".

Os quadros de J. Araujo, que se encaixam perfeitamente nessa conceituação, estão nos acervos de Arte Naïf de Nice, na França, e no Museu Internacional de Arte Naïf do Rio de Janeiro. Por isso, ele tem autoridade para explicar o que é a arte naïf presente em seus quadros. "Nasce do coração a vontade espontânea de retratar as coisas boas da cultura brasileira. E o pincel obedece e acompanha esse olhar e sentir sem conhecimento prévio, esboço ou intenção pré-concebida. A pintura nasce por si e se desenvolve num processo de gestação em série, de detalhe nascido de outro detalhe; e assim sucessivamente, até que o próprio quadro se dá por pronto, satisfeito, completo, saciado na sua ânsia criativa", define.

Justamente por reunir trabalhos que se regem por esses parâmetros criativos, o ateliê de J. Araújo em Vargem Pequena é uma atração turística. Recebe constantes visitas de admiradores de arte naïf, principalmente turistas estrangeiros, já que europeus, americanos e japoneses valorizam esse tipo de artista, bastante romântico em sua proposta e possuidor de uma técnica precisa, fruto de quarenta anos de prática com pincéis, cores e tintas.

No ateliê, há desde pequenas telas a painéis de 12 m2, além de objetos utilitários estampados com pinturas do artista, como canecas com motivos de cangaceiros, copos, xícaras com borboletas e frutas, garrafas térmicas, cinzeiros, pratos de faiança, bandejas, azulejos personalizados, regadores com flores, grandes relógios de parede, alguns móveis, como mesas, e mesmo tecidos. Destaca-se, nesse conjunto, a Amazon Collection, vendida nos EUA, com exclusividade, pela empresa Gift Mugs.

Garrafas térmicas, com motivos de flores, peixes, palmeiras e embarcações de pescadores; e copos de cerveja, com desenhos bem coloridos, contribuem ainda mais para acentuar o sucesso desse artista por aqueles que procuram as belas cores da Bahia mescladas às belas paisagens cariocas.

O psicanalista suíço Carl Jung já alertou que "Os pintores naïfs representam os últimos ecos da alma coletiva em via de desaparecimento". Se concordamos com isso, a arte de J. Araújo é um ser em extinção, pois há nele o prazer da vida calma e o gosto pelo cultivo das amizades. Suas telas evocam uma existência ponderada, longe do selvagem ditame do lucro e da busca desenfreada por riqueza.

É nas coisas simples, no diálogo com sua arte e suas lembranças que o artista vibra, mostrando e transmitindo, em cada imagem que pinta, com suas cores felizes, a alegria de um coração que bate firme, enquanto mantém vivo o poder de criar na busca incessante por aquilo que há de puro, belo e ingênuo na face da Terra.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).

 

 

 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio