Januário
Um
artista requintado
Imagens
impregnadas de religiosidade cristã, muitas vezes semelhantes a
vitrais, são uma constante na pintura do artista mineiro
primitivista Januário, que mescla imagens sacras, como a do
adorado São Francisco de Assis, com araras tipicamente
brasileiras ou figuras humanas com fundos repletos de folhas ou
flores.
Elegante, magro e alto,
Januário já usou cabelo black power, roupas extravagantes e
dedos carregados de anéis grossos. Sua vida parece um romance,
pois inclui, entre inequívocas demonstrações de talento com
seus pincéis, passagens pela aeronáutica, o trabalho como
copeiro e a tentativa de ser religioso franciscano, entre outras
aventuras.
Pintor,
poeta, compositor, ilustrador e cenógrafo, Sebastião Januário
nasceu em Dores de Guanhães, localizada 200 km ao norte de Belo
Horizonte, na zona agropecuária do Estado de Minas Gerais, em 19
de setembro de 1939. Essa cidade é uma presença constante não
tanto no trabalho, mas principalmente no discurso oral envolvente
do artista.
Classificado pelo
escritor Éle Semog como um "artista requintado", Januário
nasceu na Fazenda do Meloso. Rejeitado pelo pai aos quatro anos,
provavelmente por dúvidas quanto à sua paternidade, foi adotado
pelo avô paterno João Leocádio. "Minha mãe me disse que
meu pai, durante a gravidez, teria apontado uma faca para a
barriga dela", conta o artista.
Talvez nessa primeira
rejeição esteja a origem da inadequação de Januário ao
ambiente em que passou a infância. "Como não me habituei ao
trabalho bruto nas lavouras de café ou nas pastagens com o gado,
comecei a realizar atividades menos violentas, como levar água
aos lavradores", lembra.
Descendente dos altos e
elegantes índios africanos Watusis, chamados de vitus, em Minas
Gerais, Januário foi então criado pelo avô, um negro
descendente da corte africana, e pela católica avó Jovelina. A
tia Maria Rosa foi quem lhe o ensinou as primeiras letras. Por
isso, quando ele foi ao colégio rural, já sabia escrever.
"Como gostava de ler os jornais, meu avô dizia que eu tinha
mania de doutor", diz.
No chão de terra de
sua casa, coberto por uma fina camada de esterco de boi, para
afastar escorpiões e refrescar o ambiente, Januário realizou
seus primeiros trabalhos. "Fui uma criança solitária, que
desenhava no chão, com pedaços de carvão e gravetos, tatus e
saracuras", conta. Porém, como a casa era varrida
diariamente com vassoura de alecrim, esses traços iniciais do
pequeno Tião se perderam para sempre.
Januário
fazia muitos serviços para o avô, que o chamava de
"molenga". "Ele achava que eu tinha voz de mulher e
era muito sensível. Eu era o único que podia fazer o rapé dele
e lavar os seus pés. Eu também lhe coçava as costas com sabugo
de milho e recolhia o seu penico toda manhã", conta. Embora
amasse o cotidiano da fazenda, o futuro artista tinha o desejo de
ampliar suas fronteiras. "Sempre fiquei fascinado pela cartas
de meu tio escritor Orlando Djogh Horid, que morava no Rio de
Janeiro", afirma.
Em 1949,
com dez anos, Januário, então chamado de Tião, Tão ou Bastião,
além de levar a comida aos trabalhadores da roça, ajudava a tia
a preparar as merendas. Aconteceu então uma transformação na
vida da família do menino. Numa manhã, a propriedade do avô foi
invadida. "Perdemos tudo e senti falta das flores, do cheiro
do cafezal e do curral. Não houve explicação. Acho que por
sermos descendentes de escravos não tínhamos direito legal à
propriedade da terra", avalia.
Januário,
para piorar, estava com sarampo. "Saí da fazenda com um pano
todo enrolado no rosto, pintado de urucum. Fomos então para a
região urbana de Dores de Cunhães, onde cuidei de animais no
pasto, ia buscar lenha, vigiava as roças e fui coroinha de
igreja", conta. "Embora só tenha estudado até a
segunda série, trabalhei de tudo um pouco, até vendendo banana
nas ruas".
Foi
quando trabalhava numa farmácia, que surgiu a oportunidade de
Januário trabalhar na usina de Salto Grande, em MG. "Eu
levava pão para os engenheiros e operários. Foi ali que conheci
o carnaval e li minhas primeiras revistas. Conheci gente do mundo
todo, principalmente italianos, além de festas com frevo e lança-perfume",
relata.
O
primeiro desenho de Januário foi publicado em Salto Grande.
"Foi numa publicação da escola, chamada A voz infantil.
Era um retrato de Rui Barbosa", lembra. Pouco depois, aos 15
anos, mudou para Governador Valadares, onde servia os coquetéis e
gerenciava a boate Mambo Night Club, cujo dono era um belga.
Quando a
boate faliu, Januário voltou para Salto Grande e trabalhou numa
padaria, onde amassava e vendia pão e aprendeu a profissão de
garçom. Em 1957, o Dr. Alfredo Veiga de Carvalho, da Companha
Nacional, responsável pelo alojamento dos empregados da usina,
convidou o jovem para ir trabalhar no Rio de Janeiro. "Lá,
conhecia meu tio, descendente de escravos, que trabalhava num
circo como faquir", recorda. "Meu sonho era conhecer o
mar e a areia".
Após uma breve experiência
profissional como copeiro, Januário, no ano seguinte, tirou
documento e decidiu entrar para aeronáutica. "Precisava
provar que era capaz de realizar alguma coisa, mas me disseram que
o prazo de inscrição havia vencido. Tentei entrar então como
voluntário. Recusado novamente, caí num choro convulsivo. Só
assim consegui ser aceito na Base Aérea dos Afonsos, em Marechal
Hermes.
O problema é que Januário
era um soldado triste. "Em vez de manejar fuzis e
metralhadoras, brincava com pincéis e tintas", conta. Em
pequenos intervalos do seu trabalho burocrático na Seção e
Instrução, ele ia ate a Seção de Desenho e fazia suas
primeiras obras, pequenas marinhas e paisagens com aquarela e
guache.
Januário não esquece
do dia que houve uma explosão de munições no quartel.
"Tomei um grande susto. Depois daquilo, passei a trabalhar no
sistema administrativo, fazendo gráficos e tarjetas de identificação
com nanquim. "Fiz flâmulas e escudos com bastante sucesso,
mas gostava de pintar figuras de palhaço, que pareciam pierrots
num estilo meio picassiano", afirma.
O artista mineiro teve
assim seus primeiros compradores de obras, os tenentes aviadores
Ascendino e Mario Lima Passos. "Aquilo foi uma realização
para mim, pois antes de começar a pintar, até cheguei a tentar
suicídio, ingerindo uma forte dose de barbitúricos", conta.
Foi um quadro exposto
na casa de Ascendino que mudou a vida de Januário para sempre. Em
1961, o soldado pintor foi chamado ao comando. "Morri de
medo. Achei que fossem rir de mim", conta. A reunião, no
entanto, era para ajudá-lo. O então comandante e futuro ministro
da Aeronáutica Délio Jardim de Mattos, que tinha visto obras de
Januário na casa de Ascendino, convenceu Januário a largar as
Forças Armadas e se dedicar às artes.
Saindo da Aeronáutica,
o ex-soldado de primeira classe foi contratado para servir como
copeiro na casa da Stella, filha do Comandante. "Fui muito
bem recebido por ela e seu marido, o arquiteto e decorador Mauro
Salgado Brandão. Trabalhava muito alinhado e, nos tempos livres,
me fechava no quarto e pintava", diz. "Após os
jantares, era comum que a família me chamasse para mostrar meus
quadros e vendê-los a visitas ilustres como o cirurgião Ivo
Pitanguy e o artista plástico Carlos Scliar."
Trabalhando como
copeiro e recebendo da família do Comandante salário e material
para pintura, Januário realizou o curso de Pintura Livre no Museu
de Arte Moderna, com Ivan Serpa, descobrindo-se como naïf.
"O Ivan me deixava pintar livremente e me orientava com os
pincéis e tintas sem tirar o meu estilo. Ele ainda me despertou
para a anatomia e para a necessidade de reparar mais e melhor nas
pessoas, seja na rua, no trem ou no ônibus", agradece.
Na Escola de Belas
Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Januário foi
aluno do respeitado Oswaldo Teixeira. "Pintava com pincéis e
cartolinas e não me adaptei com a pintura acadêmica",
conta. Foi, porém nessas instituições que percebeu a importância
do estudo. Na residência de Brandão, como tinha ainda acesso
livre à biblioteca, conheceu também as obras de pintores como
Picasso, Chagall, Matisse, Gauguin e Leger.
Em 1963, o artista
participou da primeira exposição coletiva, no Copacabana Palace
Hotel, no Rio de Janeiro. Era uma mostra chamada "Pintores de
Domingo", dentro da campanha "Ajude uma criança a
estudar". "Meu seis trabalhos a guache foram todos
vendidos na noite de inauguração e o poeta Augusto Frederico
Schmidt adquiriu um deles, chamado Domingo de missa em Codó",
conta. "Como o material era caro, pintava a cartolina dos
dois lados do papel. Não era questão de estilo, mas de falta de
dinheiro mesmo."
Durante
o Governo Castelo Branco, instaurado em 1964, Délio Jardim de
Mattos foi nomeado adido aeronáutico na França e convidou Januário
para trabalhar como copeiro de sua casa na capital francesa e para
que se aprimorasse artisticamente conhecendo os mestres da pintura
diretamente nos museus e galerias da Europa.
De 1964
a 1966, Januário ficou na França. Teve então contato direto com
as obras de Picasso, Gauguin e os mestres impressionistas. Os
quadros, mostrados após os jantares a pessoas como o adido
cultural e dramaturgo Guilherme Figueiredo, irmão do futuro
presidente João Baptista, e o pintor Di Cavalcanti, tinham cores
sóbrias e tons escuros.
Faltavam neles, porém,
as cores e formas do Brasil. Indagado sobre isso, Januário começou
a colocar mais cores quentes em sua pintura e a enfocar temas
nacionais, sempre dentro de seu estilo primitivista. Inicialmente,
soprava a tinta displicentemente jogada sobre o papel. Depois, com
guache, chegou ao estilo figurativo e, mais tarde, temas sacros,
numa fase em que pintou santos e a vida cotidiana de frades e
freiras no interior de conventos.
Januário voltou ao
Brasil a pedido da mãe para ajudar a cuidar da irmã, grávida.
"Do avião, quando parti e vi a Torre Eiffel, senti uma dor
no coração. Deixei para trás os dias passados em Montmartre e
trouxe na bagagem cartas de recomendação do Guilherme
Figueiredo, que certa vez me convidou para passar o Natal com a
sua família, em Passy, onde tive a oportunidade de conhecer o
grande violonista Turíbio Santos", conta.
O artista voltou então
para a sua cidade natal, onde ficou apenas algum tempo. Em Dores
de Guanhães, chegou até a dar aula para as crianças da cidade
de desenho e de história da arte, mas, como não havia
perspectivas para o seu trabalho, ele foi então para Belo
Horizonte, onde fez um pouco de tudo, inclusive rótulos de
garrafas de cachaça. "A experiência de professor me valeu
uma bela homenagem, pois o único ginásio da cidade teve um espaço
batizado como Sala de Ciências e Artes Pintor Januário",
orgulha-se.
Esse é apenas um dos
episódios biográficos novelescos de Januário. Outra faceta
muito rica é o seu envolvimento com a religião, tema muito
presente em suas telas e em momentos de crise existencial. Num
deles, já morando no Rio de Janeiro, após ouvir a oração de São
Francisco de Assis pelo rádio, decidiu largar todos os bens
materiais para dedicar sua vida aos pobres. Saiu da casa em que
trabalhava como copeiro e distribuiu o que tinha entre os pobres e
os familiares de Dores de Guanhães. "Quando criança, fui
coroinha e acompanhava procissões e enterros. Após ouvir aquelas
lindas palavras, quis ser um frei franciscano. Morei então algum
tempo com eles, em Minas Gerais", recorda.
Mas a
arte sempre falou mais alto. De volta ao Rio de Janeiro, expôs os
quadros na Cinelândia e se lembra que uma pessoa pisou em seus
trabalho. "Nunca pude esquecer como ele fez isso com um passo
calmo e pesado. Muito triste, busquei me aproximar de pessoas que
valorizassem o trabalho, como os professores e alunos da Escola
das Belas Artes, em cujas redondezas expus meus trabalhos",
lembra.
O fato
é que graças ao apoio inicial da família do Comandante, em
1967, Januário já era relativamente conhecido no meio artístico
do Rio de Janeiro. Começou então a freqüentar festas não mais
como copeiro, mas como convidado, conhecendo artistas de destaque
do cenário nacional, como o ator Jofre Soares e o maestro Guerra
Peixe. "Nessa época, utilizava muita caixa de papelão e
material reciclado nas minhas obras", conta.
O final
dos anos 1960 foi decisivo na vida de Januário. Por volta de
1968, decide viver somente de sua arte, abandonando o trabalho na
loja do arquiteto Mauro Brandão. "Uma manhã, percebi que
estava me tornando uma pessoa chata ao trabalhar lá e fazer
transações para que o dono ganhasse dinheiro. Fingi que ia à
loja e fiquei andando. Encontrei, na Praia Vermelha, um amigo que
trabalhava como pesquisador do Ibope. Quem me abrigou, porém, foi
o político Abdias Nascimento. Eu pintava à noite, ouvindo muita
música cubana, salsas, cumbias e a Missa Criolla, do
argentino Ariel Ramírez", recorda. "Até hoje, adoro
pintar ouvindo música e, sempre que possível, minhas exposições
tem um fundo musical."
A partir
do encontro com Abdias, o trabalho de Januário começa a ser
fortemente marcado pela influência africana. "Foi um período
muito agitado, de festas e vernissages. Eu lhe dava aulas
de pintura e ele me ensinou muitas coisas afro-brasileiras. Até
então, eu era um negro que não conhecia a minha negritude. Pintávamos
juntos e discutíamos a influência negra na cultura
nacional", afirma.
Em 1968, antes do
senador Abdias ser obrigado a partir para o exílio nos EUA,
devido aos rumos da política brasileira, ele organizou a primeira
individual de Januário, na Galeria Giro, em Copacabana. Na noite
da vernissage, ao voltar para casa, o artista foi abordado
pela polícia e, provavelmente pela cor, foi preso. Só conseguiu
ser liberado no dia seguinte, com a intervenção de seu mecenas.
"Quando ele deixou o Brasil, me deixou ficar no seu
apartamento, um ateliê completo, com tintas, pincéis e
telas", agradece.
Naquele
mesmo ano, Januário ganhou o Prêmio da Fundação de Arte
Religiosa do Paraná (Fundepar), em Londrina, PR, com um tríptico
em que, entre outras imagens, mostrava uma freira, com elementos
de simbologia do candomblé, além de Santa Ifigênia, protetora
dos escravos. "Foi nessa época que o crítico Roberto
Pontual verificou que existia na minha obra um forte sincretismo
religioso", conta o artista.
Graças
aos contatos de Abdias junto ao Itamarati, Januário realizou
exposições individuais em vários países da América Latina,
como Equador, Honduras e Espanha. Ao ver a mostra do artista em
Quito, em 1969, o crítico local Hernán Rodríguez Castelo
elogiou sua "palheta simples, mas luminosa, de grande sentido
de equilíbrio cromático". Para melhorar ainda mais sua
situação, dona Yolanda Costa e Silva, esposa do então
presidente Costa e Silva, promoveu uma individual do artista no
Hotel Nacional de Brasília.
Nos anos
1970, Januário pintava praticamente em transe quadros com imagens
de Exu, Iansã, Iemanjá e outras figuras do candomblé.
"Como não sei ficar sozinho, sempre recebi muitos
convidados. Certo dia, recebi dos EUA uma carta em que o proprietário
me comunicou que não estava gostando daquela agitação toda em
sua casa e que eu precisava sair", conta.
Januário ficou então
sem residência fixa até que um boliviano chamado Alex se
ofereceu para trabalhar como seu secretário. "Ele me alugou
um apartamento e cuidou da minha carreira. Eu trouxe minha família
e morávamos em cerca de 12 pessoas", diz. "Foi um período
exaustivo de muita solicitação de trabalhos. Peguei até uma úlcera
nervosa, pois trabalhava imerso na solidão, só com a música me
fazendo companhia. Não tinha noção de dia ou de noite. Sentia a
obrigação de produzir e vender para sustentar todos os que
dependiam de mim."
Posteriormente, o
artista teve ainda a experiência de morar numa espécie de república
de artistas, chamada Solar da Fossa. Foi lá que o médium Nelson
Luna lhe disse que ele tinha capacidade de psicografar. Seu
trabalho inclinou-se então ainda mais para o retrato de imagens
ligadas à umbanda. "Numa noite, no centro, fiz mais de 30
desenhos nessa linha", afirma.
Embora
enfrentasse períodos de estresse, doença e depressão, Januário
foi construindo uma obra reconhecida pela crítica, citada, por
exemplo, no Dicionário brasileiro de artes plásticas, de
Carlos Cavalcante; no Dicionário das artes plásticas no
Brasil, de Roberto Pontual; e, em O Brasil por seus
artistas, de Walmir Ayala. Teve ainda a obra analisada por críticos
do porte Giani Gelleni e José Roberto Teixeira Leite.
Segundo Ayala, na obra
de Januário, "a mitologia, a religiosidade e o decorativo se
fundem harmoniosamente". Roberto Pontual acrescenta que
"a diversificada saga bíblica e a tradição religiosa
afro-brasileira permitiram-no infundir às cenas desgastadas por séculos
de infatigável repetição, um sopro de fantasia e de
nacionalidade exata". José Roberto Teixeira Leite, por sua
vez, acredita que Januário diferencia-se como "colorista
original e desenhista sensível".
Religiosidade e
sincretismo são características marcantes da obra de Januário.
Ao pintar sem cavalete, misturando as tintas e pintando no chão,
como fazia ao desenhar esboços com gravetos na infância, ou no
colo, ele cria imagens humanas com olhares tristes que convidam o
observador a um olhar mais atento.
Januário
já teve uma leve tuberculose no pulmão esquerdo e passou por
consultas com um médico e analista para combater suas grandes
depressões. Os prazeres do sexo, o homossexualismo, o ócio não-criativo
e os tranqüilizantes oferecidos pelos companheiros de boêmia,
sem dúvida, interferiram em seu criativo. Para piorar, com a
decadência de sua produção, nos anos 1980, os amigos se
afastam.
Boêmio,
doente, Januário vem então para São Paulo, onde recebe todo o
apoio do pintor primitivista baiano Waldomiro de Deus, residente
em Osasco, e de diversos artistas de São Bernardo do Campo.
"Januário é um pintor extraordinário. É uma pena que
diversos problemas em sua vida pessoal tenham atrapalhado uma
carreira luminosa, erguida nos anos 70 e, infelizmente, esquecida
por muitos", diz Waldomiro.
Até
mesmo um crítico rigoroso como Jacob Klintowitz, que acredita que
muitos artistas primitivistas são apenas primários, demonstrou
entusiasmo com Januário: "Esta vez... estamos diante de um
artista em toda a sua expressão", afirmou. O currículo do
pintor, que inclui obras em acerbos de Gana e Equador, e no Museu
de Arte Negra, no Rio de Janeiro, e em Londrina confirma isso.
Seja em quadros em que enfoca a maternidade, o contato
entre as raças branca e negra, o amor heterossexual, a devoção
aos animais e a São Francisco de Assis, o mito de Adão e Eva,
retratos de belos homens ou mulheres nuas, Januário encanta pelo
intenso colorido, pelos fundos repletos de flores e vegetação e
por um traço espontâneo, autêntico e facilmente reconhecível.
Januário é um mestre
no trabalho com a tonalidade das cores e principalmente na criação
de imagens humanas com uma psicologia especial e ambígua.
Hermafroditas, parecem carentes e, ao mesmo tempo, poderosas, com
uma determinação e uma singeleza que se combinam com
simplicidade, mas extrema habilidade estética.
Nada no artista mineiro
é arbitrário. Cor e forma, linha e fundo, e forma e conteúdo se
articulam em composições de extremo impacto visual. As pessoas,
santos, flores ou folhas presentes nas telas não se esgotam numa
primeira olhada apressada. Convidam a novas visitas e a análises
mais atentas, pois apresentam um toque muito especial, repleto de
bom gosto, sensibilidade e do requinte somente presente nos seres
humanos que, como Januário, possuem o divino e intransferível
dom de criar.