por Oscar D'Ambrosio


 

 



Jac Conde

A redescoberta do Brasil

 

Em Brejo das Almas, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade alerta que “precisamos descobrir o Brasil”. Isso significa, em boa parte, reconhecer como as culturas européias, negra e indígena, cada qual à sua maneira, constituem no País um caldeirão de relações e influências, que é muito bem retratado na pintura primitivista de Jac Conde.

Isso fica evidente numa tela da artista em que, com o fundo de uma bandeira nacional, uma moça branca de traços europeus, um índio com cocar e uma mulher com turbante afro são colocados dentro do retângulo amarelo da bandeira nacional, indiciando que o ouro do Brasil está justamente nas tradições étnicas oriundas dessas três fontes.

Esse mergulho nas raízes nacionais provém da sólida formação artística da pintora. Nascida em 25 de dezembro de 1962, Jacqueline Conde, que assina suas telas como Jac Conde, reconhece a influência da família em sua carreira artística. Seu avô paterno, espanhol, ao chegar da Europa, construiu seus próprios equipamentos fotográficos e foi um dos primeiros profissionais da área em Belo Horizonte, registrando paisagens, obras e monumentos artísticos, enquanto o pai era fotografo profissional e a mãe foi aluna do pintor Guignard e de Yara Tupinambá.

Desde criança, Jac tinha contato com a arte. Realizou seus primeiros traços aos dois anos. Gostava de visitar exposições e venceu um concurso de desenhos aos 12 anos. Posteriormente, ela somou várias experiências, como modelo fotográfico e professora de catecismo, além de ter cursado, sem completar, cursos de Relações Públicas e Ciências Contábeis.

Jac estudou ainda Desenho Arquitetônico e Paisagismo, formando-se, como administradora de empresas, pela Universidade Newton Paiva (MG). Em 1999, ela participou do Iniciarte, um programa de Artes da Prefeitura de Belo Horizonte, realizando oficinas de acrílica e aquarela, com professores como Selma Weismann e Raísa Lage. Em seguida, participou da primeira mostra coletiva.

No ano seguinte, Jac fez curso livre de iniciação ao desenho com a artista plástica Vera Freitas e um mês de pintura acrílica com Lúcia Fuchs. Surgiram assim oportunidades de exposições individuais e coletivas. Paralelamente, ela começou a vender seus trabalhos para colecionadores nacionais e também do Exterior, como a Espanha.

A riqueza das raízes étnicas, crenças, costumes e tradições nacionais alimenta a pintura da artista mineira. Suas cores, geralmente em tons terrosos, mostram aspectos do povo indígena e africano, como o geometrismo presente em mandalas, figuras sagradas que, ao que se crê, propiciam um contato entre o interior de cada indivíduo e o divino.

Um aspecto que logo salta aos olhos na pintura de Conde é a diversidade. Tanto se encontram elementos barrocos, próprios do rico universo artístico de Minas Gerais, como grafismos relacionados a culturas afro, além de numerosas imagens que trazem para a tela a temática indígena.

Uma das telas mais significativas é São Francisco. O estilo naïf surge de maneira marcante pela desproporção entre o santo, com uma pomba em cada ombro, e uma árvore que mal chega à cintura da figura sagrada. O mais interessante é que a árvore está repleta de flores, em tonalidades que se articulam com a vestimenta do santo, compondo um todo harmônico. O fundo verde e marrom da tela acentua a ligação dele, respectivamente, com a terra e a natureza.

Oriundas do universo indígena, surgem diversas mandalas, que incluem diversas simbologias indígenas, muitas ligadas à natureza, como seres fantásticos e animais domésticos, como galinhas e cães. Os seres ligados à terra predominam, mostrando a força telúrica da pintura de Jac Conde.

O geometrismo abstrato, muito presente no imaginário de diversas nações indígenas, é trabalhado pela artista com cores próximas ao marrom e ao pastel. Quando surgem figuras humanas, elas são alongadas e apresentam os corpos geralmente pintados de vermelho, amarelo e negro.

Um exemplo que ilustra bem a técnica de Jac Conde é a que mostra uma mãe indígena com uma criança em uma rede amarela, ambos rodeados de vermelho. Os corpos pintados com grafismos ilustram como a questão indígena é tratada pela artista com extrema delicadeza. O uso de cores como marrom e ocre os identifica como filhos da terra.

O escritor capixaba Graça Aranha já disse que “É na essência da arte que está a arte”. Jac Conde busca atingir o ponto mais alto da sua arte ao trabalhar desde cenas de capoeira e de lavagem da Igreja do Bonfim, em Salvador, a anjos e santos que evocam o barroco mineiro, todos transformados por uma ótica primitivista.

As imagens de Jac Conde têm o poder de se fixar na mente do observador justamente pela maneira como cristalizam símbolos indígenas, cristãos ou da cultura negra. Com seu trabalho pictórico, baseado em ampla pesquisa e sensibilidade no lidar com diferentes temáticas, ela redescobre a essência do Brasil, valorizando as raízes culturais do País e apontando que a arte, quando realizada com seriedade, compromisso e talento, encanta pelo poder que oferece de revisitar realidades conhecidas e imaginar novas fronteiras estéticas.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

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