por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Ivone Beltran

 

            A pesquisa constante

 

            O escritor francês André Gide (1859 – 1951) dizia que “quando se pensa no ensinamento de Cristo e se vê o que dele fez o mundo moderno, fica-se aflito”. Guardadas as devidas proporções, as aquarelas e gravuras em metal da artista plástica Ivone Beltran comportam esse pensamento, principalmente no que diz respeito ao sentimento de perda de uma Terra Prometida na forma como o nosso planeta caminha hoje.

            Para entender esse processo, é essencial mergulhar na monografia por ela apresentada para a conclusão do curso de pós-graduação latu sensu em Artes Plásticas – Pintura em Aquarela, com orientação de Iole Di Natale. Intitulado A mulher da matéria ao espírito: paisagem interior corporal – Cristo vivenciado, o trabalho foi apresentado na Faculdade Santa Marcelina (FASM), em 2002, e reúne dados biográficos e artísticos de grande relevância.

            Somos informados, por exemplo, que Ivone, por ter perdido a mãe ainda criança, foi criada pelo pai, uma tia e a avó. Com poucos recursos financeiros, as brincadeiras com objetos da natureza, como pedrinhas e pauzinhos. Mais tarde, na escola, lembra que amava doces e as revistas que o pai, jornaleiro, trazia para ler – o que tinha que ser feito com muito cuidado, pois depois elas eram comercializadas na banca.

              Na adolescência, fez curso de datilografia e, graças a um anúncio em jornal, conseguiu trabalho como operária na metalúrgica Eletrônica Brasileira. Ajudava assim em casa. Com a morte do pai, Ivone e a irmã, ambas com menos de 16 anos, mudaram para a casa de um tio recém-casado.

            Trabalhou como balconista numa loja da Ladeira do Porto Geral, fazia pacotes para presentes no Mappin e atuou ainda na Cia. de Seguros Porto Seguro e na Texaco, de onde saiu quando casou com seu atual marido, retomando então os estudos e se inserindo numa carreira de artista plástica.

            A volta ao mundo dos bancos escolares incluiu fazer o supletivo do Segundo Grau, curso pré-vestibular no Anglo e a graduação em Educação Artística com licenciatura plena em Artes Plásticas pela FASM. Estudou especialmente aquarela e gravura em metal com Iole de Natale, com quem aprendeu calcografia. Além disso, foi desenvolvendo a careira de artista plástica com exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior.

            Os dados biográficos, porém, são menos importantes do que os dados que surgem sobre o processo criativo de Ivone, que inclui extrair fragmentos de trabalhos anteriores, releituras deles, obras com paisagem humana e objetos, além de travar conhecimento com os grandes mestres.

            Conhecemos, em seguida, parte das criações da artista. Inicialmente, saltam aos olhos os amarelos e azuis de numerosas aquarelas em que as paisagens têm um papel fundamental. Olhando fora de si, Ivone começa a se descobrir enquanto possuidora de uma técnica a necessitar de constante aperfeiçoamento.

            A admiração pelo aquarelista Emil Nolde, para quem a arte foi sempre uma experiência visceral, certamente é um passo fundamental para o desenvolvimento de uma pesquisa com o próprio corpo, que resultou em desenhos e aquarelas que mergulham nas cores terrosas e nos ocres.

            Sai da paisagem e penetra no plano visual de mulheres quase sempre agachadas, que retiram a sua força vital do contato das mãos com a terra. É a arte da própria Ivone que parece começar a crescer rumo a novos passos artísticos, que serão dados com as numerosas pesquisas em que Cristo passa a ser a figura central.

Desenho e gravuras metal, com a técnica da ponta seca, permitem entrever o rosto de Jesus em diversas posições e situações, em visões próximas, em close, acentuando a sua humanidade e estabelecendo uma visão de um homem a sofrer por um ideal, por algo que o torna igual a todos os outros, mas sem lhe retirar a divindade.

Nesse aspecto, talvez a obra melhor realizada e consistente seja Horas sombrias da guerra, tanto em aquarela como em gravura em metal. Está ali o dilema do tempo moderno: a tolerância da diversidade que tanto aflige o mundo, no qual pessoas de diferentes religiões e convicções parecem estar cada vez mais longe de uma convivência ao menos civilizada.

Pintando paisagens, mulheres, sejam auto-retratos ou anônimas, e rostos de Cristo, Ivone Beltran mantém a coerência, ou seja, descobre no que está fora de si o que está dentro dela mesma. Se cada um de nós tem um pedaço da divindade de Cristo, a artista traz isso à tona pela forma de compor as suas imagens, seja em termos de composição, quando se trata de gravura, ou de cores, quando mergulha na aquarela.

Se a monografia pode às vezes pecar talvez por não aprofundar alguns dos caminhos biográficos apontados ou por uma reflexão apenas brevemente indicada do processo de criação, o resultado plástico aponta para a construção de uma poética baseada na humanidade, ou seja, na exaltação daquilo que de melhor existe em cada um de nós, aquela parcela mágica visível na forma de pintar um pôr-do-sol, uma paisagem, um nu ou uma das passagens da vida de Jesus.

 Aflita perante um mundo que segue os ensinamentos de Cristo em poucos ou talvez nenhum de seus aspectos, Ivone Beltran vai criando a sua obra com pesquisa constante, atingindo uma progressiva busca de alternativas plásticas em que mantém o mesmo contato divino de seus primeiros anos de vida, quando aprendeu a não desanimar nunca em busca de seus ideais, estejam eles, num primeiro momento, perante a folha de papel em branco da aquarela ou de uma placa virgem de gravura.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 

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Horas sombrias da guerra 2
gravura em metal
ponta seca elétrica e monotipia
40 x 40 cm 2001

Ivone Beltran

 

 

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