por Oscar D'Ambrosio


 

 


 
Ivan Camargue
 

Estados de alma

Pintar paisagens é um dos temas mais tradicionais e um dos maiores desafios da História da Arte. O domínio técnico de cores e da perspectiva é essencial para atingir um resultado que não soe falso e que tenha vida. Afinal se o que mais caracteriza a natureza é o seu dinamismo, paralisá-la em uma tela exige extrema atenção.

O escritor suíço Henri Fréderic Amiel (1821-1881) já alertava que “uma paisagem qualquer é um estado da alma”. É isso o que ocorre nos trabalhos do paisagista paulistano Ivan Carlos Camargue. Nascido em 23 de abril de 1965, aos nove anos de idade, foi incentivado pelo mestre Américo Constantine a se dedicar à pintura.

Posteriormente, Camargue teve aulas com mestres do gênero, como Agostinho Dell Agnolo e Luiz Pinto. Brota daí uma arte em que rios, árvores frondosas, bosques e alamedas são reunidos em diversas composições que transmitem estados da alma plenos de harmonia e sossego.

Seja em cenas de lavadeiras à beira de um curso de água, em árvores de troncos grossos junto a caminhos ou imagens tropicais de pequenos bosques, Camargue junta capacidade técnica com sensibilidade para criar imagens belas, com cores geralmente sóbrias.

Os irmãos franceses Edmond e Jules de Goncourt acreditavam que “diante da tela de um bom paisagista eu me sinto mais no campo do que se estivesse em pleno campo e em plena floresta”. Essa é a sensação que Camargue consegue passar. Ele flagra instantes e os repassa, mostrando como a natureza pode ser intensa pelo que tem de divina.

As paisagens das telas de Camargue são como cartões postais de memórias pessoais. O observador quer conhecer os lugares retratados pelo talento do pintor, que toma o mundo como ponto de partida para a representação pictórica.

Nesse exercício, os quadros do artista paulista atingem a sinestesia, ou seja, a fusão de diferentes sentidos. É possível, ao ver os seus trabalhos, ouvir o farfalhar das folhas, a conversa e o canto das lavadeiras e o piar dos pássaros em meio às sombras das árvores. O ruído doce da água passando surge inúmeras vezes e as fronteiras entre o que vemos e o que ouvimos se dilui.

Pode-se dizer que as paisagens de Camargue têm algo de terapêutico. São imagens que conduzem à reflexão. Ao vê-las, pergunta-se como é possível existir tamanha beleza na natureza e, logo em seguida, como algumas pessoas desenvolvem o talento de levá-la para as telas.

Esse tipo de indagação é extremamente saudável para o ser humano. Numa sociedade marcada pela violência e pelo estresse, cada imagem de Carmargue é um convite ao mergulho interior. A sutil definição de cores, as formas precisas e a criação de atmosferas paradisíacas caracterizam a sua pintura como universos que propiciam o descortinar de emoções prontas a aflorar.

Muito do que sentimos e muitas vezes não verbalizamos pode vir à tona graças às telas de Ivan Camargue. Isso ocorre, porque, em suas obras, há as marcas dos grandes artistas: rigor formal e fidelidade a si mesmo. Assim, ao contemplar suas criações, estamos certos de que aquilo que vemos não é mais uma paisagem, mas sim uma obra de arte rara e notável.

 
Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Academia Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

  

 

 

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