|
|
-
Ismael
Oliveira
Diálogos infinitos
A partir dos trabalhos com formas relacionadas à arquitetura, a seres
humanos e a animais, não necessariamente nessa ordem de relevância,
Ismael Oliveira constrói o repertório poético de sua pintura. O
recurso mostra como o assunto nunca é a essência do fazer pictórico,
mas sim um elemento orientador de um processo do fazer.
Suas pinturas encantam, em boa parte, pela forma como ele concebe a
produção. Ela é desnudada nos desenhos em nanquim, guache e ecoline
sobre papel na exposição Sobre-posições, com curadoria de Ivald
Granato, realizada de 23 de agosto a 10 de setembro de 2006, no
Museu Brasileiro da Escultura (MuBE), em São Paulo, SP,
Ali está o processo de criação dos trabalhos desta exposição,
essenciais para que possamos saber como ele concebe a sua arte. Diversos
pensamentos se articulam num procedimento criativo que realiza sobreposições
numa constante experimentação em busca de conjuntos expressivos.
Oliveira realiza, nas telas, justamente as sobreposições a que o título
da exposição alude. As combinações de cores, que oscilam entre
verde, azul e roxo; roxo, vermelho e verde; verde, azul e vermelho; e
vermelho, azul e roxo, instauram um repertório em que três cores e três
elementos surgem um sobre os outros a perturbar a visão e gerar
inquietações.
As formas arquitetônicas, por exemplo, assinalam a existência de
estruturas bem construídas, nas quais há um pensamento em que as
linhas apontam para diversas direções. Está presente aí justamente o
ato de montar e desmontar, de fazer e de refazer não só imagens, mas
também procedimentos.
Analogamente, os seres humanos se fazem presentes pela essência de sua
forma e do gesto. Não está aqui em jogo o reconhecimento de um
rosto ou de um corpo, mas a intensidade expressiva desses elementos,
inclusive com a sua importância na própria história da pintura.
Os animais não são mais nem menos importantes no todo. São outra
faceta que se integra na forma como as imagens são estabelecidas. Muito
mais que oferecerem uma visão pouco racional, como se poderia imaginar
de maneira apressada, indicam amplas possibilidades de ocupação do
espaço.
O animal, o homem e suas criações compõem um conjunto quase matemático
de probabilidades pictóricas e de comunicação. O dilema do artista é
o caminho a escolher perante tamanha diversidade. Nesse sentido, os esboços
e desenhos apresentados são muito elucidativos de todo o movimento
interno de um artista até a consecução de um trabalho final.
Esse caminhar pictórico aponta para uma técnica e forma de pensamento
que, se levada às últimas conseqüências, pode trazer resultados
ainda mais significativos. Uma prova disso é a expressividade de um
auto-retrato, trabalho que ainda está à espera de uma realização
mais próxima à atingida em outras obras expostas. Talvez as sobreposições
dêem a esse retrato uma insuspeitada nova dimensão, a de um artista
multifacetado na inquieta busca de possibilidades e caminhos pictóricos.
Oscar D´Ambrosio mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação
Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).
|
|