Irene de Paula
Uma
dama da arte naïf
A arte chamada
primitivista ou naïf encontra uma de
suas maiores expressões mundiais no Brasil. Mesmo assim, ainda não
é devidamente valorizada. Muitos fatores contribuem para isso,
principalmente a dificuldade de críticos de arte, museus e
galerias de lidar com uma expressão plástica que se explica a si
mesma em cada pincelada.
Enquanto a arte chamada
conceitual necessita de um referencial crítico que a justifique
enquanto tal, a arte naïf, em sua
aparente simplicidade, não precisa, num primeiro momento, de um
aparato teórico para a sua intelecção pelo público. A obra
pictórica de Irene de Paula prova justamente isso.
A forma como a artista
trabalha com a cor branca e a maneira como constrói, por exemplo,
suas cenas de colheitas, com os rostos das figuras humanas
cobertas com chapéus, indicam um discurso elaborado que contém
uma visão de mundo própria, não aprendida nas academias, mas no
próprio ato de fazer sempre o melhor possível.
A arte naïf,
ingênua por definição, mas profunda em sua realização visual
e conceitual, encontra em Irene uma de suas representantes mais
sinceras. Ela não só pinta o naïf,
mas o vivencia, enquanto divulgadora do termo e de artistas do gênero,
notadamente na região de Osasco, SP.
O naïf,
nessa concepção abrangente, ultrapassa os temas. Geralmente são
populares e rurais, incluindo cenas de festas, por exemplo. No
entanto, mais do que naquilo que se vê explicitamente, a arte de
Irene é flagrada em sua totalidade na concepção de mundo que
emana de seu trabalho.
Há ali sinceridade na construção
de cenas em que uma aparente simplicidade de composição ou de
assunto é puramente enganadora. Trata-se de uma armadilha pictórica,
pois os melhores naïfs são
justamente aqueles que dão a falsa impressão de que pintar é
muito simples.
Para chegar a esse estágio,
como é possível verificar em Waldomiro de Deus ou Antonio Poteiro,
há um processo interno de rejeição a regras convencionais de
cor, forma e composição, em nome da defesa de valores interiores
de realização estética, diferentes para cada artista.
Cores vivas, imaginação,
estilização e poder de síntese são a essência
da arte naïf. Em seus melhores
momentos, como em Irene de Paula, ela brota do inconsciente
coletivo, mantém-se em constante renovação e se deixa penetrar
por influências eruditas, embora conserve a sua natureza própria.
Sabedoria e sonho se irmanam
em obras difíceis de definir sob uma única catalogação,
principalmente por não terem a pretensão explícita de serem
grandes. Nesta sábia ingenuidade, artistas de todo o Brasil, como
Irene de Paula, uma dama da arte naïf, colocam-se, em suas telas
mais preciosas, entre os principais nomes da arte universal,
independente de categorias, estilos e nomenclaturas.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes
da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor,
entre outros, de Contando a arte de Ranchinho (Noovha
América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado
de São Paulo).