por Oscar D'Ambrosio


 

 


Irene de Paula

 

Uma dama da arte naïf

 

            A arte chamada primitivista ou naïf encontra uma de suas maiores expressões mundiais no Brasil. Mesmo assim, ainda não é devidamente valorizada. Muitos fatores contribuem para isso, principalmente a dificuldade de críticos de arte, museus e galerias de lidar com uma expressão plástica que se explica a si mesma em cada pincelada.

            Enquanto a arte chamada conceitual necessita de um referencial crítico que a justifique enquanto tal, a arte naïf, em sua aparente simplicidade, não precisa, num primeiro momento, de um aparato teórico para a sua intelecção pelo público. A obra pictórica de Irene de Paula prova justamente isso.

            A forma como a artista trabalha com a cor branca e a maneira como constrói, por exemplo, suas cenas de colheitas, com os rostos das figuras humanas cobertas com chapéus, indicam um discurso elaborado que contém uma visão de mundo própria, não aprendida nas academias, mas no próprio ato de fazer sempre o melhor possível.

            A arte naïf, ingênua por definição, mas profunda em sua realização visual e conceitual, encontra em Irene uma de suas representantes mais sinceras. Ela não só pinta o naïf, mas o vivencia, enquanto divulgadora do termo e de artistas do gênero, notadamente na região de Osasco, SP.

            O naïf, nessa concepção abrangente, ultrapassa os temas. Geralmente são populares e rurais, incluindo cenas de festas, por exemplo. No entanto, mais do que naquilo que se vê explicitamente, a arte de Irene é flagrada em sua totalidade na concepção de mundo que emana de seu trabalho.

            Há ali sinceridade na construção de cenas em que uma aparente simplicidade de composição ou de assunto é puramente enganadora. Trata-se de uma armadilha pictórica, pois os melhores naïfs são justamente aqueles que dão a falsa impressão de que pintar é muito simples.

            Para chegar a esse estágio, como é possível verificar em Waldomiro de Deus ou Antonio Poteiro, há um processo interno de rejeição a regras convencionais de cor, forma e composição, em nome da defesa de valores interiores de realização estética, diferentes para cada artista.

            Cores vivas, imaginação, estilização e poder de síntese são a essência da arte naïf. Em seus melhores momentos, como em Irene de Paula, ela brota do inconsciente coletivo, mantém-se em constante renovação e se deixa penetrar por influências eruditas, embora conserve a sua natureza própria.

            Sabedoria e sonho se irmanam em obras difíceis de definir sob uma única catalogação, principalmente por não terem a pretensão explícita de serem grandes. Nesta sábia ingenuidade, artistas de todo o Brasil, como Irene de Paula, uma dama da arte naïf, colocam-se, em suas telas mais preciosas, entre os principais nomes da arte universal, independente de categorias, estilos e nomenclaturas.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

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Tempo de colher nº 5

60x80 cm - óleo sobre tela - 1998

Irene de Paula

 

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