por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Iran do Espírito Santo

 

            Uma obra de passagem

 

            A exposição En passsant, em 2008, na Galeria Fortes Vilaça, joga luzes e sombras importantes sobre a obra do artista plástico Iran do Espírito Santo, cujo pensamento está, desde o início da carreira, voltado para indagações sobre a quantas andava o mercado de arte e, mais do que isso, por onde caminham as fronteiras entre o design, a decoração, a arte e o artesanato.

            Ao pintar a Fortes Vilaça numa escola cromática que vai do branco ao preto em 53 tons de cinza, em faixas verticais na sala maior, e, na horizontal, na menor, essas questões se aprofundam e dialogam com outras obras de sua autoria, principalmente duas presentes no Panorama dos Panoramas, exposição também de 2008, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, SP, sob curadoria de Ricardo Resende,  que reúne as premiações desde a primeira edição, em 1969.

            Restante, de 1997, que recebeu o Prêmio Embratel daquele ano, apresenta um suporte em madeira com a cavidade onde poderia ser colocado um trabalho tradicional, no sentido e sua dimensionalidade. Protegido por vidro, o espaço parece esperar a chegada do objeto que ia preenchê-lo, seja uma tela ou trabalho em papel.

            No entanto, nada virá. O que torna a obra importante é justamente a forma como instaura o questionamento do próprio sentido da arte e as dúvidas sobre a pertinências de galerias, museus e todo um aparato que permite à arte tal qual a conhecemos se manter funcionando. 

            En passant mantém essa idéia de vazio. Não há nada na galeria a não ser as paredes pintadas – e elas não podem ser compradas. Pelo contrário, elas são pintadas por cima após o fim da exposição. O que está se colocando ali é uma idéia, um conceito e –  por que não? – um marketing pessoal no sentido do artista mostrar que a sua principal capacidade está na forma de pensar o mundo, a sociedade, a arte de modo abragente e o fazer do artista de modo particular.

Ato único I, II e II, da série Ato Único, premio Aquisição, em 2001, consiste em placas de acrílico e papelão montados em moldura de madeira. As três peças têm parte destruída, deixando aberturas que permitem ver melhor o suporte. É nos quebrados da proteção, talvez, que surge a autêntica obra de arte, revelada em seu esplendor. Nas fragmentações, está aquilo que a arte tem a acrescentar em ternos de visão do mundo.

A ordenada pintura da Galeria em En passant retoma essa discussão. Há a admiração pelo uso do branco e preto. Acima de tudo,  o que se coloca  em jogo é a ordem, a necessidade de seguir um padrão e a existência de possibilidades de romper o equilíbrio para instaurar a reflexão. As tonalidades de cinza colocadas na Galeria de modo a gerar um inegável efeito óptico funcionam, numa perspectiva mais abragente, como um reposicionamento das perguntas viscerais que acompanham o artista paulista.

Iran do Espírito Santo coloca-se como indagador da arte: a moldura sem obra, o suporte propositalmente quebrado e fragmentado e a galeria vazia, mas ordenadamente apresentada-desenhada-decorada são facetas de uma mesma inquietação: só a arte quando o observador é obrigado a se questionar sobre o que está fazendo num determinado espaço, cuja função, de um modo ou de outro, é apenas passageira.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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 En passant
Instalação Galeria Fortes Vilaça 2008

Iran do Espírito Santo

 

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