Iole Di Natale
O amor universal
Santo Agostinho dizia que "A
medida do amor é amar sem medidas". Essa é a atitude que
caracteriza a vida e a obra da artista plástica Iole Di Natale,
seja na pintura, na gravura ou como professora. Sua atitude
perante suas obras e seus alunos é justamente a de um ser humano
disposto a amar e a receber afeto.
Explica-se assim a preferência pelo
nu em suas diversas séries, principalmente naquelas em que mostra
casais abraçados ou em situações cotidianas. Além de um
inegável domínio técnico, seja da gravura, da aquarela ou da
calcografia, seu trabalho impressiona pela intensidade das
imagens, deixando marcas existenciais no observador.
Caçula de cinco irmãos, Iole nasceu
em 1941, em Varese, na Lombardia, na Itália e veio com a família
para o Brasil, em 1949, tendo sua introdução na arte com o pai.
Por um lado, ele era, caricaturista, desenhista e pintor, e, por
outro, folheava para a filha uma edição com as célebres imagens
criadas por Gustavo Doré para a Divina Comédia, de Dante
Alighieri.
Em 1961, Iole inicia seu curso de
Belas Artes na Faculdade Santa Marcelina (FASM) e, no ano
seguinte, já obtém uma Medalha de Bronze no Salão Paulista de
Belas Artes. Aliás, o ano de 1962 será um marco para a então
jovem artista, pois ela realiza uma viagem a Ouro Preto que será
determinante para a sua carreira.
Iole se naturaliza brasileira em 1965
e, quatro anos depois, começa a lecionar aquarela e gravura na
Faculdade Santa Marcelina, dando início a uma docência que
inclui a abertura do Ateliê Calcográfico Iole, em 1980, a
fundação do Núcleo de Aquarelistas da FASM, em 1987, e a
criação da pós-graduação em Artes Plásticas – Pintura em
Aquarela, na mesma instituição, em 1996.
Em paralelo a essas atividades em que
ensina, pesquisa e discute as mais variadas técnicas, Iole
desenvolve uma obra de grande vigor. Se nos anos 1960, assume a
identidade de artista plástica profissional, o começo dos 70 é
marcado pelo início da análise dentro da linha junguiana e pela
divisão da vida com Federico Panizza, com quem passa a morar
junto em 1971.
Esses dois fatores são plasticamente
explorados pela produção de séries em que Iole trabalha
basicamente a memória pessoal, geralmente com tons quentes e com
uma expressividade que permeia todos os seus meios artísticos de
se relacionar com o mundo, que lhe concederam dois prêmios da
Associação Paulista de Críticos de Arte, um em 1983, de
Aquisição de Gravura, e no ano seguinte, como melhor gravadora.
Ainda em 1971, Iole passou a atuar
como estagiária do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e o então
diretor Pietro Maria Bardi a ajudou a lançar o seu trabalho após
ver oito de suas aquarelas de grandes dimensões (100x70 cm).
Surgiu assim um convite para uma coletiva no Centro Campestre do
SESC, em São Paulo, em 1978, e posteriores convites para
individuais.
Os corpos criados nas imagens de Iole
têm muito de Michelangelo na exaltação das formas bem torneadas
que denunciam uma visão de mundo. Na Série Éden, por exemplo, o
azul apresenta uma tonalidade ímpar, sendo um autêntico convite
para um mergulho nas obras. Os corpos que se abraçam em
diferentes posições são o preâmbulo do movimento que o
espectador faz para se envolver com cada trabalho.
Quem dá amor, espera recebê-lo e as
obras dessa série geram justamente esse efeito. Feitas com
carinho e energia altamente vitalizadora são recebidas com igual
paixão. Nunca com indiferença. É impossível permanecer
estático perante o impacto de cada obra, principalmente os
intitulados Abraço vertical e Abraço horizontal.
As Séries Mitologia, Eros, Paixão
Vida, Leveza e Intimidade reúnem a obra de uma artista que
considera o corpo como a matéria-prima de seu trabalho.
Significativamente Iole admira especialmente os trabalhos de
Caravaggio e de Emil Nolde. Do artista italiano, certamente guarda
as imagens de corpos contorcidos e cores quentes; do segundo, uma
maneira toda especial de tratar a aquarela como forma de
expressão do íntimo da alma.
Nesse cruzamento de cores vivas com
técnica esmerada, surge a obra ímpar de Iole. Em todo esse
universo de entrega e de amor, a série Intimidade desponta como o
ponto alto da carreira da artista. O amarelo e o vermelho explodem
em aquarelas que mostram corpos nus de um casal em atividades
cotidianas. O dia-a-dia de uma parceria existencial ganha uma
dimensão épica.
Iole Di Natale consegue, nesse
trabalho, explicitar o que muitos não têm coragem de reconhecer.
O grande ato de coragem da vida é viver o cotidiano como se ele
fosse novo. Por isso seus corpos nus não são essencialmente
eróticos, mas sim universais na simplicidade e força com que
mostram que o heróico não está em galgar montanhas geladas ou
mergulhar em profundezas nunca antes conhecidas.
O heróico da vida está em
transformar cada instante do dia-a-dia em algo único. As
aquarelas de Iole têm esse poder mágico de transformar o
cotidiano no inesquecível, revelando que o melhor da arte é
justamente a capacidade de tornar o ser humano melhor em sua
relação com o mundo e com os seus semelhantes.
Artista generosa, que ensina o que
sabe e pesquisa o que desconhece, Iole Di Natale pinta o amor não
porque tenha lido sobre isso na sua inigualável biblioteca de
arte nem porque domine várias técnicas. Seu segredo está em
praticar tudo aquilo que suas imagens expressam. Conhecimento e
domínio artístico conjugam-se assim para criar aquarelas e
gravuras quentes de humanidade e plenas do amor universal que
nasce da valorização de cada instante do cotidiano.
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é
autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp).