por Oscar D'Ambrosio


 

 


Inês Benou

 

            A arte como jogo

 

            Max Jacob (1876-1944), em Conselhos a um jovem poeta, declara: “A arte é um jogo. Tanto pior para quem dele faz um dever”. Essa é justamente a impressão que temos ao contemplar as gravuras e aquarelas da artista plástica na exposição “Interferências – Série Cósmica, de 30 de novembro de 2005 a 15 de janeiro de 2006, no Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo, SP.

            Os trabalhos de Inês têm uma dimensão lúdica justamente por terem como um de seus principais aspectos nas diversas maneiras de mesclar técnicas. Assim, tanto as gravuras como as aquarelas ganham a interferência de colagens para gerar novos efeitos visuais, que mesclam o ludismo com o domínio técnico.

            Nesse contexto, a série cósmica ganha a dimensão da criação de efeitos plásticos delicados com colagens interferindo nas gravuras em metal. Não há compromisso com a representação da realidade, mas com a prática aprimorada em nome do diálogo aprazível com o observador.

            Os efeitos obtidos com a mencionada mescla de técnicas permite dois sucessos: o espectador mais afeito ao fazer artístico propriamente dito busca verificar como os efeitos foram alcançados, imaginando os recursos utilizados na gravação da placa em metal e nas criativas integrações e interferências da colagem em cada obra.

            Já quando se trata da aquarela, a colagem ganha um significado ainda maior de liberdade plástica. A leveza é uma marca registrada com recortes surgindo no fundo aquarelado sem excessos, mas de modo a demonstrar que se está perante uma artista que acredita que a técnica aprendida existe para atingir a limpeza visual.

            Nascida em 9 de outubro de 1937, Inês, com exposições no Brasil e no exterior, atinge a maturidade artística num processo de busca constante para eliminar o supérfluo. Isso significa tentar atingir a essência plástica de cada trabalho, que parece carregar em si a mensagem de que a simplicidade é o bem maior que todo artista procura alcançar.

            Para atingi-lo, a leveza é essencial – e ela está presente na maioria dos trabalhos de Inês. A progressiva economia de recursos prova como a arte se faz a partir do domínio de dois elementos essenciais: a forma e a cor. A partir deles, não importa se o desenvolvimento do assunto estará mais próximo ao abstrato ou ao concreto.

            O que importa é a cumprir a difícil missão de ser verdadeiro a todo instante em cada nova expressão plástica. Entra nesse momento o jogo, na concepção de que ele permite lidar com o diálogo entre os mais diversos planos e texturas em nome de um resultado plástico que, fiel aos princípios da artista, dialoga com o observador.

            Inês Benou toma diversas técnicas e as coloca em uma nova dimensão. Gravura e aquarela são lançadas para um espaço sem horizontes. Com despretensiosa coragem, cada trabalho se torna a oportunidade de vislumbrar novas possibilidades de composição, marcadas pela sutil e harmoniosa associação entre liberdade criativa e domínio técnico.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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Série Cósmica IV
gravura em metal com colagem sem data  

Inês Benou

  

 

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