por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Ilma Deolindo Nunes

           

            A arte da espontaneidade

 

            O universo misterioso e sedutor dos bordéis, a alegria dos casamentos e o colorido e a espontaneidade das festas populares são os principais temas desenvolvidos pela artista plástica Ilma Deolindo Nunes. Em composições ricas de informação, com muitos detalhes, oferece ao observador uma rica visão de mundo.

            Nascida em Luiziânia, SP, em 27 de junho de 1957, mas radicada em Ubatuba, litoral norte do Estado, Ilma, antes de passar para o universo das telas, pintava em tecidos, como panos de pratos, toalhas, levadas por padres para Malta, cabaças, compradas por freiras que lhes deram a Holanda como destino, pedras, vasos e azulejos.

            Ilma começou sua carreira de artista em 2002, quando começou a ter aulas de desenho e pintura com o professor Pauli Gil na Fundação de Arte e Cultura (Fundart) da cidade de Ubatuba. Inicialmente, eram realizadas cópias de paisagens de revistas e folhinhas.

            A artista iniciante, porém, pintou um quadro vindo de sua imaginação. Com vergonha, o escondeu do professor, mas ele logo o encontrou e perguntou quem o havia feito. Quando soube que foi Ilma, lhe disse que, naquele trabalho, ela encontrara o próprio estilo e lhe explicou ainda o que vem a ser o universo dos artistas naïfs, ou seja, aqueles autodidatas que encontram uma linguagem própria, sem mestres para estabelecer a sua relação pictórica com o mundo.

            A arte de Ilma é caracterizada pela espontaneidade. A partir de situações que ela mesma viveu ou pela qual conhecidos seus passaram, consegue compor telas que trazem imagens de festas populares, casamentos, batizados, enterros e bordéis. Este último universo ganha especial destaque, porque a artista lembra que a sua avô brigava com o avô, porque ele ia jogar cartas numa dessas casas noturnas.

            Surgiu assim um universo repleto de interrogações e sensualidade que Ilma transporta para as telas. Uma delas foi incluída no catálogo do Mapa Cultural Paulista (2003/04). O que chama  atenção é a complexa composição, com diversas ações simultâneas ocorrendo como casais dançando, pessoas bebendo e sutis cenas de sedução, como a escada que leva para os quartos ou mulheres em roupas sensuais se exibindo num pequeno palco.

            Essa multiplicidade de cenas também ocorre em telas que mostram casamentos ou parques. Nos primeiros, os noivos e seus parentes posam para as tradicionais fotografias, mas a imagem inclui ainda a mesa de iguarias, um garçom e trabalhadores envolvidos nos preparativos. Como pano de fundo, o cotidiano da aldeia, com numerosas pequenas casas e pessoas indo de um lado para outro.

            Quando se trata de mostrar um parque, o carrossel ganha destaque, mas os detalhes se espalham por toda a tela, com tobogãs, cadeiras de balanço, roda gigante, com fila de espera e tudo!, trenzinho, vendedor de balões e crianças brincando e casais namorando, numa atmosfera em que a igreja se faz presente no centro superior do quadro. 

Seja em casamentos, parques ou outras visões coletivas, o que caracteriza o talento de Ilma é a forma como trabalha com conjuntos de pessoas. Suas telas praticamente correspondem a uma grande cena cinematográfica, com ações que se desenrolam isoladamente por todo o quadro, mas que se unificam no traço da artista e na forma como se vale de numerosos flagrantes do cotidiano para compor uma visão pessoal de um acontecimento, onde realidade e ficção se misturam com delicadeza e muito encantamento, como costuma ocorrer nos melhores exemplos da arte naïf que se debruça espontaneamente sobre festas e manifestações populares.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

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 O bordel

óleo sobre tela50 x 70 cm - 2002

Ilma Deolindo Nunes

 

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