por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Ícones bizantinos

 

            O universo dos ícones bizantinos entre os séculos XIV e XIX é repleto de histórias e significados. Para conhecer um pouco desse universo, pode-se recorrer, no mínimo a duas importantes publicações recentes: O ícone: uma escola do olhar, de Jean-Yves Leloup (Editora UNESP, 2006) e Ícones: a alma da Rússia, catálogo de exposição de arte russa dos séculos XVI a XIX realizada em Moscou, Paris e São Paulo, em 1999. Ali estão os princípios para entender melhor esse rico universo, em suas várias manifestações:

 

            Achéiropoietes (“não feito pela mão do homem”, em grego)

            Em uma de suas versões, a lenda conta que o rei Abgar V Uchama, de Edessa, leproso, pediu a Cristo que o curasse. O arquivista Ananias foi buscá-lo. Decidiu fazer o seu retrato, mas não conseguia. Jesus decidiu então colocar um pano sobre o próprio semblante e imprimir nele os seus traços.

            O rei, olhando a imagem, se curou. O neto dele, porém, retornou ao paganismo. A cidade foi tomada pelos persas em 544, mas Edessa foi poupada graças às preces à “Sagrada Face”. Esta foi comprada pelos imperadores de Bizâncio Constantino Porfirogeneta e Romano I, em 944, por 200 prisioneiros árabes e 12 mil denários de prata. Em 1204, quando os cruzados saquearam Constantinopla, a imagem desapareceu.

            Começa então a ser difundido o mito de Verônica (“verdadeiro ícone”), que teria conservado num pano o rosto de Cristo ao enxugar a face dele quando estava a caminho do Gólgota. Ele surge flutuando no tecido, sem pescoço ou ombros.

 

            Pantocrator (“criador de tudo”)

            Cristo aparece com corpo, com a mão que abençoa e o livro aberto. Abençoa com dois dedos esticados (duas naturezas de Cristo: humana e divina) e três unidos (a Santíssima Trindade).

           

            Déisis (“intercessão”)

            Busto do Pantocrator sobre um trono ou cercado por anjos e santos, como Maria e João Batista.

 

            Natividade de Maria

            Detalhes da vida cotidiana, valorização do pai Joaquim e da mãe Ana. É o fim de uma esterilidade sofrida.

 

            Apresentação de Maria no Templo

            Ocorre aos três anos. Simboliza a entrada na vida espiritual: purificação, iluminação e união. Ela veste o maphórion (manto).

 

            Anunciação

            Maria estava lendo o livro de Isaías quando o Anjo Gabriel, às vezes em forma de pomba ou de raios de luz, a surpreendeu com a notícia de que fora possuída pelo Espírito Santo.

 

            Natividade

            A estrela de Belém, Maria e José costumam rodear Jesus, no centro.A manjedoura costuma ser associada a um altar ou túmulo, anunciando a morte e a ressurreição. Há ainda os três reis magos (um jovem, um de média idade e outro mais velho),os pastores (humildade), um asno e um boi.

 

            Apresentação de Jesus no Templo

            A circuncisão ocorre oito dias após o nascimento. O sábio Simeão o recebe. Aos 12 anos, dialoga de igual para igual com os sábios do Templo. É então um adolescente entre doutores.

 

            Batismo de Cristo

            O Dia do Batismo é chamado de Teofania ou Epifania, ou seja, “a manifestação de Deus”. Do céu, surge uma pomba ou uma luz, que indica a presença do Espírito Santo na cena. Assim, como Simeão, João Batista reconhece naquele jovem o esperado Messias.

 

            Metamórphosis  (Transfiguração)

            É o momento em que os discípulos vêem seu mestre (rabi) sob uma forma inabitual. Não só a cabeça, mas todo o copo são aureolados ou resplandescentes. Os discípulos que costumam aparecer são: Tiago (capacidade de produzir obras justas), Pedro (fé e afetividade) e João (contemplação e inteligência).

 

            Entrada em Jerusalém

            Ela ocorre sobre o burrinho. Para alguns, é o povo pagão finalmente domado. Para outros, trata-se da presença de um animal sagrado, capaz de ouvir, graças às suas longas orelhas, os sons divinos da palavra de Jesus. Também há as palmeiras, semelhantes a “jatos de água”, na divulgação da Palavra e da Fé.

 

            Crucificação

            A cruz simboliza a união da imanência (horizontal: amar ao próximo) com a transcendência (vertical: amar a Deus). João surge tentando entender o Mistério de “aceitar o inaceitável”. O centurião Longino acerta Jesus com a lança. Maria, mãe de Jesus, se alimenta e uma caveira alude ao nome Gólgota (“Lugar da caveira”) e a Adão (o velho homem) perante Jesus (o novo Adão). Os olhos surgem fechados, sem sofrimento.

           

            Exaltação da Cruz

            Surge com a  descoberta pela imperatriz Helena, mãe de Constantino, no século IV, da “verdadeira cruz”. Foi reconhecida porque um defunto se reanimou perto Dela. Representa os quatro pontos cardeais. É a Árvore da Vida (axus mundi). O travessão inferior, sob os pés de Cristo, indica os destinos dos ladrões crucificados ao lado Dele: um de pé, outro de cabeça para baixo. Há o bom (o que acredita) e o mau (que não acredita) ladrão. É uma balança da justiça: ninguém é obrigado a crer. Pode-se optar.

 

            Descida aos Infernos e Anastásis (“Ressurreição”)

            Divide-se na Descida aos Infernos, simbolizada pelo episódio em que um monstro marinho engole Jonas. As mirróforas (três mulheres presentes à crucificação e que levam mirra, um perfume, ao túmulo de Cristo) são mostradas, assim como o bom ladrão, com uma cruz na mão direita. No Inferno, invisível aos olhos dos homens, Jesus liberta Adão e Eva do seu sofrimento, assim como Abel, o primeiro morto.

As mirróforas encontram o túmulo vazio e o Santo Sudário. Morte é um novo nascimento. Surge um corpo espiritual, visível apenas para aqueles que acreditam. Miriam de Magdala acredita que aquele ser é um jardineiro. Ela o chama de “Meu mestre bem-amado” e ele responde “Não me toques”, Não me retenhas”. Do físico, passa-se ao espiritual. Há ainda Tomé, que precisa tocar no que vê para acreditar. A dúvida se mantém importante até a Revelação pessoal.

 

Ascensão

Após descer aos Infernos, Cristo leva a Humanidade aos Céus na Ascensão, grande momento do cristianismo. É valorizada a possibilidade de qualquer homem estar no seio de Deus, à direita do Pai.

 

Dormição

Os Evangelhos não falam da morte de Maria. Os apócrifos situam seu falecimento em Jerusalém e sepultamento em Getsêmani, tradição seguida pelos cristãos ortodoxos. Maria surge na posição horizontal (morte), e Cristo, na vertical (transcendência). Ele carrega a alma Dela, sinalizando um novo nascimento. É invertido o ícone em o menino surge com a Mãe. Pedro e Paulo acompanham a cena. Pio XII, em 1950, estabeleceu a Assunção de Maria, ou seja, a sua Ressurreição, ícone não contemplado pelos ortodoxos.

 

Theotokos (“Mãe de Deus”)

Há milhares de representações de Maria com o filho. A mais carinhosa é a Virgem da Ternura (Eleóusa), em que os rostos de Mãe e Filho estão colados, mostrando ternura, misericórdia e compaixão, qualidades essenciais pelas quais Deus vêm ao mundo. As mãos Dela estão abertas: oferecem e dão. Erguidas, intercedem a Deus. Também podem segurar o rolo com o pergaminho da Palavra ou proteger maternalmente o Filho. 

A mais comum é a Hodiguitria (“aquela que mostra o caminho”). São chamados miraculosos os ícones que atenderam a preces. Maria aparece de pé e forma um berço em torno a Cristo com as mãos. Ela o mostra e o sustenta. Cristo não tem semblante de criança, já que é o portador da Palavra. Na sua mão esquerda, as Escrituras; com a direita, abençoa.

Os olhos nos observam. Seu semblante é sereno e os deus cabelos, ao contrário do que ocorre com Miriam de Magdala, estão sempre presos e escondidos pelo maphórion.  Três estrelas indicam a Trindade e que Maria foi virgem antes, durante e após o parto, no sentido psicológico e espiritual. Os pés de Cristo estão um em direção ao interior; e outro, rumo ao exterior. Um é vertical; outro, horizontal.

 

Platytera (“Virgem do Sinal”)

Virgem com os braços e mãos abertas tem Cristo criança, com feições de adulto, portando o rolo da Palavra na mão esquerda e abençoando com a mão direita.

 

Virgem na Sarça

Virgem surge numa flor feita de anjos, com oito galhos, alusão aos sete dias da criação e ao oitavo, o da Ressurreição. Maria é a porta pela qual Cristo passa.

 

Agion estin (“Ele é verdadeiramente digno”)

Magnífica, por meio de cores, formas e símbolos Maria, como aquela que traz em seu seio Cristo.

 

Santos

Serenos, sua força vêm da fé, simbolizada, às vezes por uma lança, representação vertical da força divina, como em São Jorge. Assim, é vencido o monstro das trevas da ignorância. Seguram uma cruz, como o bom ladrão e se apresentam belos e calmos. Indicam a possibilidade de vencer o mal e a infelicidade.

 

Pentecostes

Reunião dos doze apóstolos, geralmente segurando rolos ou livros, indicando a presença da Palavra. Descida do Espírito Santo é alegorizada com pomba ou raios

 

Trindade e Árvore da Vida

Deus não é representável. É a essência do ícone. Ele apenas sugere algo maior do que Ele. Cristo surge em forma humana e o Espírito Santo como pomba ou luz. A árvore contém as raízes plantadas na terra e os galhos dirigidos ao céu. Como Jesus, une o mundo do alto com o de baixo; a matéria com a luz.

 

Em síntese, a bibliografia da área aponta que, proveniente do grego antigo Eikhon,  que quer dizer “imagem”, o ícone designa, geralmente, uma imagem simbólica da dimensão do sagrado. O termo tomou maior importância na religião cristã, em particular da região da Europa oriental e, mais especificamente, do império Bizantino (a partir do século III) e da igreja ortodoxa ali surgida, ganhou grande destaque cultural Rússia.

O mais interessante é   que os ícones bizantinos são inspirados em representações de aspectos funerários das tradições grega e romana, que, por sua vez, apresentam influência no Egito e da idéia de que o símbolo é uma expressão da realidade espiritual e possui uma função didática.

 

BIBLIOGRAFIA


Christos - Enciclopédia do Cristianismo, Verbo Editora, Lisboa, 2004

COMTE, Fernand. Dictionnaire de la civilization Chrétienne. Larousse – Bordas, 1999

EVDOKIMOV, P. L’art de l’icône, Théologie de la beauté. Ed. Desclée de brouwer, 1970

DURAND, Gilbert. L’imagination symbolique – A imaginação simbólica. Trad. Carlos Aboim de Brito, edições 70, Lisboa, 1995

MITCHEL, W.J.T. Iconology- Image, Text, Ideology. The University of Chicago Press, Chicago, 1986

ELIADE, Mircea. The Encyclopedia of Religion. Volume 7, Macmillan Publishing Company, New York , 1987

SOURIAN, Etienne. Vocabulaire d’esthétique. Etien, Presses Universitaires de France, Paris, 1990

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

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