por Oscar D'Ambrosio


 

 


Hugo Perucci

 

Sombras reflexas

 

            Um dos maiores dilemas da arte contemporânea, entendendo esta como a que é produzida em nossa época, é o excesso de conceito e a falta de um resultado plástico significativo, seja na capacidade de criar um evento, uma imagem um algum tipo de sentimento.

            O jovem artista plástico paulistano Hugo Perucci consegue fugir a essa armadilha, desenvolvendo uma pesquisa visual que se articula, no mínimo, em três vertentes. Embora distintas em vários aspectos, têm em comum a mesma preocupação de gerar uma reflexão poética no observador.

            A primeira vertente, que pode ser chamada de “Sombras reflexas”, surge a partir de uma proposta de interação com o público e da concretização de uma ação pictórica com os mais diversos resultados, todos, de alguma forma, originários da prática de uma ação que envolve a pesquisa de campo e um respeito pela pintura figurativa no sentido de uma expressão que toma como referente uma pessoa concreta.

            Perucci sai à rua com uma lona ou outro tipo de suporte e convence transeuntes a permitirem que tenham a sua sombra delineada. A ação desperta curiosidade e chama a atenção. Acima de tudo, propicia uma interação entre o artista e o retratado, entre o criador e a criatura, pois existe um diálogo entre aquele que “empresta” a sombra e quem dela se “utiliza” para concretizar a sua arte.

O artista parte da sombra, ou seja, do reverso da imagem que o sol ilumina, para estabelecer a sua visão do indivíduo. Com óleo, tinta acrílica e diversos pigmentos, Perucci gera suas formas e texturas no sentido de captar, a partir da sombra, uma quintessência, no sentido de uma força onipresente, mas nem sempre visível.

Uma segunda faceta é a que trabalha com os cobertores baratos, facilmente encontrados em lojas do Centro Velho de São Paulo, geralmente utilizados por mendigos para se proteger do frio à noite. A partir deles, surgem construções visuais que se assemelham a casulos ou mesmo a múmias. Elas tanto podem ocupar espaços públicos, amarradas em postes, como uma galeria.

A questão central que elas discutem é o entorpecimento da vida perante a morte e do cidadão, estático, perante uma existência que, muitas vezes, paulatinamente, vai imobilizando os indivíduos. Muito mais do que tratar do nascer ou morrer,  o trabalho enfoca o paradoxo de estar vivo e se sentir paralisado ou ainda da presença de uma vida latente mesmo no casulo que parece estático.

Dentro dele, porém, há uma vida em processo, em expansão, digna de ser esperada como um potencial desconhecido. Analogamente, cada casulo de Perucci traz consigo o alerta de que a falta de movimento pode não significar inação, mas, em diversas situações, gestação de uma idéia, possibilidade ou mesmo uma vida.

A terceira vertente consiste na prática de performances. Uma delas ocorreu em 2006 na conclusão de sua vivência no Atelier Amarelo, projeto que reuniu 12 artistas plásticos residentes, selecionados pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo,  por concurso, para desenvolverem nove projetos relativos ao centro da cidade de São Paulo.

O projeto, com curadoria de Maria Bonomi, com a assistência de Leila Gouvea, João Spinelli, Cildo de Oliveira e Paulo Von Poser, despertou em Perucci o desejo de realizar uma ação pública, na região da Estação da Luz. Ele mesmo atuou entrando e saindo de uma espécie de casulo, transformando, nessa ação, a cor das vestimentas de sua roupa.

Mais significativo e menos espetacular foi a iniciativa de tirar uma série de fotos, em seqüência, de sua mãe sendo progressivamente enfaixada, dos pés a cabeça, em pé, como se fosse uma múmia. A expressividade do olhar, principalmente em algumas fotos, e a documentação do processo em si mesmo trazem uma série de implicações no que diz respeito ao fato de a mãe ser envolvida pelo filho, que pratica a ação e ainda a fotografa, como se, assim, simultaneamente, lhe tirasse a vida e, ao mesmo tempo, registrasse o que ocorre, garantindo-lhe a eternidade.

As pinturas a partir de sombras que desnudam almas e os casulos que vestem pensamentos são as expressões de Hugo Perucci perante um mundo em que a inteligência se torna cada vez mais necessária como forma de manifestar um existir em que o bem pensar se junte com o bom fazer em nome de uma excelente idéia, desde que apresentada com coerência e talento.

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

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Casulo
instalação com escultura em arame e tecido
dimensões variáveis: aproximadamente 2,5 m - 2006

Hugo Perucci

 

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