por Oscar D'Ambrosio


 

 


Hudinilson Jr.: a arte de xerocar o corpo

 

Desde a primeira pintura rupestre até as chamadas obrasvirtuaisou “interativas”, em que o objeto estético e a poética do artista se realiza com a presença do público, há infinitas possibilidades de uso da tecnológica, principalmente nas fronteiras entre a informática e a eletrônica. Como afirma Lira (2003), “a arte gerada tecnologicamente teria problemas conceituais por propor que situações calculadas sejam apresentadas como estéticas”.

Talvez a raiz desse problema esteja no fato de se associar geralmente a arte clássica ou moderna necessariamente com uma ação contemplativa e passiva do fruidor, enquanto a chamada arte pós-moderna costuma ser qualificada como interativa, numa proposta permanente de interação entre o artista e o público.

Hudinilson Jr. trabalha com a xerografia de maneira extremamente criativa. Xeroca o próprio corpo, inclusive as partes mais íntimas, como o pênis, de modo a explorar as potencialidades da máquina e também a própria criatividade. Como artista que é, a máquina não lhe serve apenas para aquilo que foi criada, mas sim como ponto de partida para experimentações.

Nesse sentido, fascina mais pelo procedimento estético do que pelas imagens produzidas. Sua arte pode ser vista como o uso da tecnologia em busca do inusitado, num processo investigativo que, na procura de romper barreiras, derruba o limite do utilitário. A originalidade consiste na busca de novos limites e fronteiras.

Para mergulhar na arte de Hudinilson Jr., é necessário compreender um pouco o que  vem a ser a xerografia. O físico americano Chester Carlson patenteou  a invenção, destinada a reproduzir documentos, em 1938, No entanto, a primeira fotocopiadora, produzida pela Xerox, apareceu oito anos depois.

A palavra xerografia deriva do grego e significa “escrita a seco”. O documento a ser copiado é colocado sobre uma placa de vidro. A imagem é focada sobre uma chapa carregada de eletricidade e as zonas claras de papel destroem a carga positiva, deixando-a apenas nas zonas escritas. A chapa é revestida de um com carga negativa que adere à carga positiva e é depois transferido para uma folha de papel em branco na qual é fixado por meio de calor.

No Brasil, a xerografia começou a ser utilizada pelos artistas para contestar o sistema das galerias de arte. Ela abriu a possibilidade de reproduzir, como alerta Milliet (2003), “imagens a um custo muito baixo, tornando-as acessíveis a um público maior”. No entanto, enquanto o sistema era inicialmente utilizado entre os artistas para trocar obras ou realizar doações, Hudinilson transgrediu o objetivo da máquina, deixando de reproduzir documentos e passando a fotocopiar o próprio corpo.

Esse exercício criativo incluiu as partes mais íntimas, como o pênis, numa autêntica busca desenfreada – e talvez desesperada – de ultrapassar os próprios limites e também os da própria máquina. Numa ginástica física e mental, o artista procurou novos ângulos e posições numa relação quase sensual e sexual com a máquina.

O trabalho de Hudinilson transita entre diversas experimentações. Morais (1991) lembra que a body-art, ao contrário do que muitos pensam, não se limita à teatralidade de performances, mas “alcança o público pelos meios de reprodução e comunicação”. Isso inclui atos de esforço físico sobre  o corpo, como tatuagens, e com ele, como ocorre nas imagens criadas em autênticos exercícios de contorsionismo sobre uma máquina de xerox.

Nascido em 17 de outubro de 1957 em São Paulo, Hudinilson Jr., cursou gravura com Maria Irene Ribeiro, em São Bernardo do Campo, SP, e a Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), entre 1975 e 1977. Artista multimídia e professor, participa de exposições coletivas, desde 1979, e realizou a primeira individual, em 1981. 

Amarante (1987) aponta, com grande pertinência, quecomo uma criança que descobre o prazer de brincar com o espelho que lhe devolve a própria imagem, Hudinilson Jr. joga com as imagens tendo Narciso como pulsação central”. No entanto, mais do que mera vaidade, como sugere o mito grego, o artista brasileiro está realizando uma lúdica atividade de experimentação  contínua.

Santaella (2003: p. 70) verifica que as relações da arte com o corpo sofreram profundas transformações nos últimos 20 anos. Constata que “ a fascinação com o corpo está ligada ao advento de novas tecnologias e formas de conhecimento técnico, inclusive novos modos de rapidamente reproduzir e distribuir imagens fotográficas, além das descobertas da genética e medicina que parecem oferecer a possibilidade de transformar radicalmente o corpo.”

Embora Santaella não cite o trabalho de Hudinilson, boa parte das obras do artista brasileiro se encaixa naquilo que ela chama de “corpo esquadrinhado”, ou seja, o fato de ter o corpo perscrutado por máquinas de diagnóstico médico. No caso de Hudinilson, há um registro detalhado de imagens do corpo do artista, que as remonta da maneira que julga mais apropriado.

Se ele coloca, por exemplo, o seu próprio pênis xerocopiado num outdoor, essa atitude não é mero exibicionismo narcisista, mas uma discussão do próprio conceito do que significa a arte e do fato de ela ser produzida para ficar geralmente em galerias ou espaços públicos. Esse tipo de investigação supera o exibicionismo e aponta para a necessidade de repensar o próprio significado da arte e do que significa ser artista no mundo de hoje, onde diversas tecnologias convivem e podem ser utilizadas de diferentes formas.

O fato de Hudinilson levantar esse tipo de questão demanda uma leitura atenta do seu trabalho. Não ele potencializa o uso da máquina de xerox como motiva a entender melhor como a arte pode se relacionar de variadas maneiras com a sociedade, sempre se colocando na vanguarda do pensamento intelectual.

A partir da proposta estética de Hudinilson Jr., é possível chegar a algumas conclusões sobre as chamadas novas mídias. Sua arte está marcada pelo signo da experimentação. Nesse aspecto, ela se caracteriza pelo uso pouco convencional da tecnologia, que utiliza a repetitiva –  no aspecto de ser tradicionalmente empregada apenas para imitar e reproduzir o que existe – máquina de tirar fotocópias para imortalizar o próprio corpo.

Pronto para ousar, ele mostra que a arte reside, acima de tudo, na capacidade de cada criador desconhecer limites, apropriando-se de novas técnicas e, a partir delas, caminhar para rumos surpreendentes e inusitados. O desafio do fruidor está em refletir sobre esse processo criativo. Afinal, ele subverte o meio do qual se apropria para conquistar o resultado estético que almeja.

 

BIBLIOGRAFIA

 

AMARANTE, L. “Hudimilson Jr: banquete do eu”. O Estado de São Paulo, 15 de

abril de 1987.

 

LIRA, H. F. “A arte e a comunicação sob a influência das novas tecnologias”.

http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/imago/site/virtualidade/ensaios/hiran.htm.

Acessado em 2/11/2003.

 

MILLIET, M. A. A subversão dos meios. Catálogo da exposição A subversão dos

meios. São Paulo. Itaú Cultural: 2003.

 

MORAIS. F. Panorama das artes plásticas: séculos XIX e XX. Apresentação Ernest

Mange. 2 ed. ver. São Paulo: Itaú Cultural, 1991.

 

SANTAELLA, L. “As artes do corpo cibernético”. In DOMINGUES, D.

(organizadora). Arte e vida no século XXI: tecnologia, ciência e criatividade.

São Paulo: Editora UNESP, 2003.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 



 

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