Hudinilson Jr.: a arte
de
xerocar o
corpo
Desde a
primeira
pintura
rupestre
até as
chamadas
obras “virtuais”
ou “interativas”,
em
que o
objeto
estético e a
poética do
artista
só se realiza
com a
presença do
público, há infinitas possibilidades de
uso da
tecnológica,
principalmente nas
fronteiras
entre a
informática e a
eletrônica.
Como afirma
Lira (2003), “a
arte gerada tecnologicamente teria
problemas conceituais
por
propor
que
situações calculadas sejam apresentadas
como
estéticas”.
Talvez a
raiz desse
problema esteja no
fato de se
associar
geralmente a
arte
clássica
ou
moderna necessariamente
com uma
ação contemplativa e
passiva do fruidor,
enquanto a
chamada
arte pós-moderna costuma
ser qualificada
como
interativa, numa
proposta
permanente de
interação
entre o
artista e o
público.
Hudinilson Jr.
trabalha
com a
xerografia de
maneira
extremamente
criativa. Xeroca o
próprio
corpo,
inclusive as
partes
mais íntimas,
como o
pênis, de
modo a
explorar as potencialidades da
máquina e
também a
própria
criatividade.
Como
artista
que é, a
máquina
não
lhe serve
apenas
para
aquilo
que foi
criada,
mas
sim
como
ponto de
partida
para experimentações.
Nesse
sentido, fascina
mais
pelo procedimento
estético do
que pelas
imagens produzidas.
Sua
arte pode
ser
vista
como o
uso da
tecnologia
em
busca do
inusitado, num
processo investigativo
que, na
procura de
romper
barreiras, derruba o
limite do
utilitário. A
originalidade consiste na
busca de
novos
limites e
fronteiras.
Para
mergulhar na
arte de Hudinilson Jr., é
necessário
compreender
um
pouco o
que vem a
ser a
xerografia. O
físico
americano Chester Carlson patenteou a
invenção, destinada a
reproduzir
documentos,
em 1938, No
entanto, a
primeira fotocopiadora, produzida
pela
Xerox,
só apareceu
oito
anos
depois.
A
palavra
xerografia
deriva do
grego e significa “escrita
a
seco”. O
documento a
ser copiado é colocado
sobre uma
placa de
vidro. A
imagem é focada
sobre uma
chapa carregada de
eletricidade e as
zonas
claras de
papel destroem a
carga
positiva, deixando-a
apenas nas
zonas
escritas. A
chapa é revestida de
um
pó
com
carga
negativa
que adere à
carga
positiva e é
depois transferido
para uma
folha de
papel
em
branco na
qual é fixado
por
meio de
calor.
No Brasil, a
xerografia começou a
ser utilizada
pelos
artistas
para
contestar o
sistema das
galerias de
arte.
Ela abriu a possibilidade de
reproduzir,
como
alerta Milliet (2003), “imagens
a
um
custo
muito
baixo, tornando-as
acessíveis a
um
público
maior”. No
entanto,
enquanto o
sistema
era
inicialmente utilizado
entre os
artistas
para
trocar
obras
ou
realizar
doações, Hudinilson transgrediu o
objetivo da
máquina, deixando de
reproduzir
documentos e passando a
fotocopiar o
próprio
corpo.
Esse
exercício
criativo incluiu as
partes
mais íntimas,
como o
pênis, numa
autêntica
busca desenfreada – e
talvez desesperada – de
ultrapassar os
próprios
limites e
também os da
própria
máquina. Numa
ginástica
física e
mental, o
artista procurou
novos
ângulos e
posições numa
relação
quase
sensual e
sexual
com a
máquina.
O
trabalho de Hudinilson transita
entre diversas experimentações.
Morais (1991) lembra
que a body-art, ao
contrário do
que
muitos pensam,
não se limita à
teatralidade de
performances,
mas “alcança o
público
pelos
meios de
reprodução e
comunicação”.
Isso inclui
atos de
esforço
físico
sobre o
corpo,
como
tatuagens, e
com
ele,
como ocorre nas
imagens criadas
em
autênticos
exercícios de contorsionismo
sobre uma
máquina de
xerox.
Nascido
em 17 de
outubro de 1957
em
São Paulo, Hudinilson Jr., cursou
gravura
com Maria Irene
Ribeiro,
em
São Bernardo do
Campo, SP, e a
Faculdade de
Artes
Plásticas da
Fundação Armando Álvares
Penteado (Faap),
entre 1975 e 1977.
Artista
multimídia e
professor, participa de
exposições coletivas,
desde 1979, e realizou a
primeira
individual,
em 1981.
Amarante (1987) aponta,
com
grande
pertinência,
que “como uma
criança
que descobre o
prazer de
brincar
com o
espelho
que
lhe devolve a
própria
imagem, Hudinilson Jr.
joga
com as
imagens tendo
Narciso
como pulsação
central”. No
entanto,
mais do
que
mera
vaidade,
como sugere o
mito
grego, o
artista
brasileiro está realizando uma
lúdica
atividade de experimentação
contínua.
Santaella (2003: p. 70)
verifica
que as
relações da
arte
com o
corpo sofreram profundas transformações
nos
últimos 20
anos. Constata
que “ a
fascinação
com o
corpo está
ligada ao
advento de
novas
tecnologias e
formas de
conhecimento
técnico,
inclusive
novos
modos de rapidamente
reproduzir e
distribuir
imagens fotográficas,
além das
descobertas da
genética e
medicina
que parecem
oferecer a possibilidade de
transformar
radicalmente o
corpo.”
Embora Santaella
não cite o
trabalho de Hudinilson, boa
parte das
obras do
artista
brasileiro se encaixa naquilo
que
ela
chama de “corpo
esquadrinhado”,
ou seja, o
fato de
ter o
corpo perscrutado
por
máquinas de
diagnóstico
médico. No
caso de Hudinilson, há
um
registro detalhado de
imagens do
corpo do
artista,
que as
remonta da
maneira
que julga
mais
apropriado.
Se
ele coloca,
por
exemplo, o
seu
próprio
pênis xerocopiado num
outdoor, essa
atitude
não é
mero
exibicionismo narcisista,
mas uma
discussão do
próprio
conceito do
que significa a
arte e do
fato de
ela
ser produzida
para
ficar
geralmente
em
galerias
ou
espaços
públicos.
Esse
tipo de
investigação supera o
exibicionismo e aponta
para a
necessidade de
repensar o
próprio
significado da
arte e do
que significa
ser
artista no
mundo de
hoje,
onde diversas
tecnologias convivem e podem
ser utilizadas de
diferentes
formas.
O
fato de Hudinilson
levantar
esse
tipo de
questão
demanda uma
leitura
atenta do
seu
trabalho.
Não
só
ele potencializa o
uso da
máquina de
xerox
como
motiva a
entender
melhor
como a
arte pode se
relacionar de variadas
maneiras
com a
sociedade,
sempre se colocando na
vanguarda do
pensamento
intelectual.
A
partir da
proposta
estética de Hudinilson Jr., é
possível
chegar a algumas
conclusões
sobre as
chamadas
novas
mídias.
Sua
arte está marcada
pelo
signo da experimentação. Nesse
aspecto,
ela se caracteriza
pelo
uso
pouco
convencional da
tecnologia,
já
que utiliza a
repetitiva – no
aspecto de
ser tradicionalmente
empregada
apenas
para
imitar e
reproduzir o
que
já existe –
máquina de
tirar
fotocópias
para
imortalizar o
próprio
corpo.
Pronto
para
ousar,
ele
mostra
que a
arte reside,
acima de
tudo, na
capacidade de
cada
criador
desconhecer
limites, apropriando-se de
novas
técnicas e, a
partir delas,
caminhar
para
rumos
surpreendentes e
inusitados. O
desafio do fruidor está
em
refletir
sobre
esse
processo
criativo.
Afinal,
ele subverte o
meio do
qual se apropria
para
conquistar o
resultado
estético
que almeja.
BIBLIOGRAFIA
Oscar
D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da UNESP, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).