Homenagem
ao impressor Roberto Grassmann
A gravura em metal é um
mundo à parte. Plena de sutilezas, exige grande domínio do cobre, liga
de metal rica em nuances. A impressão de gravuras a partir de placas de
cobre representa um desafio constante, com resultados cada vez mais
satisfatórios a partir do diálogo entre o gravador e o impressor.
Nesse sentido, as conversas entre Roberto Grassmann e alguns
artistas geraram trabalhos da maior importância na gravura brasileira.
Esses criadores se reúnem, de 18 de maio a 18 de junho, em São Paulo,
SP, na Casa da Bóia, que completa 108 anos em 2006, para homenagear
esse impressor que fez do seu ofício um ato de fundamental relevância
estética.
Os artistas
Feres Khoury, Francisca do Val, Marcelo Grassmann, irmão de Roberto,
Maurício Parra, Rubens Matuck, Sérgio Fingermann e Zizi Baptista
mostram trabalhos que se complementam, em sua diversidade e riqueza de
maneiras de lidar com a gravura. A exposição traz ainda ferramentas
utilizadas na criação das placas e preparo para a impressão.
Feres Khoury
apresenta trabalhos em ponta seca, brunidor e raspador que explora as
possibilidades das linhas e do branco e preto em seus contrastes e
riquezas de ocupação do espaço. No trabalho mais instigante, ao lado
de um quadrado negro, aparece uma taça, vislumbrada
em meio a um sugerido quadriculado.
Francisca do
Val, por seu turno, estabelece outro diálogo. Suas águas tintas
aquareladas apontam para um sutil contato entre o mundo urbano, como a
sede do Banespa, o Mercado Municipal, o bairro da Saúde e uma vista do
Edifício Itália, e o da natureza, na forma, respectivamente, de uma
chuva de ouro, uma paineira branca, um maracujá e uma árvore entre um
mar de prédios.
Marcelo
Grassmann, em água forte, água tinta e com buril, conduz o observador
para o seu habitual mundo medieval. Cavaleiros e donzelas nos
transportam para um universo de lutas e conquistas, vitórias e
derrotas, alegorias do próprio desejo humano de vencer os próprios
medos para seguir adiante, como um cavaleiro mantém a sua lança sempre
pronta a enfrentar o inimigo e conquistar a donzela presa na torre.
O trabalho
pleno de detalhes de Marcelo num mundo onírico encontra um interessante
contraponto nas gravuras de guarda-chuvas e cadeiras, em ponta seca, de
Mauricio Parra. O universo de seu ateliê ganha uma dimensão igualmente
épica, em que a lança cede lugar ao guarda-chuva no domínio técnico
dos detalhes e desafio de impressão de cada estado da gravura.
Rubens
Matuck comparece com diferentes estados de uma gravura à maneira negra
em três cores em que um olho “que tudo vê” e uma árvore criam um
universo paralelo, em que a paisagem se faz presente. As raízes, o
movimento da água e o céu se fundem sob o olho do conhecimento e da
experimentação de cada estado da gravura.
Sergio
Fingermann traz, em água forte e água tinta,
a discussão de duas imagens que se relacionam. Um peixe e uma
fachada arquitetônica são mostrados inicialmente isolados para, num
terceiro trabalho, se fundirem com um equilíbrio assombroso,
estabelecendo uma união em que a única grande e visceral lógica é a
interna criada pelo artista.
Zizi
Baptista oferece varias possibilidades de trabalho com gravura. Sua
detalhada aranha é feita com ponta seca, broca elétrica e buril. Suas
sobras, em ponta seca, trazem múltiplos
insetos que evocam, inclusive, as imagens pré-históricas nas cavernas.
Porém, é nas imagens do Pará, em água forte, água tinta, com buril
e lift ground, que a artista estabelece, com rara felicidade,
elos entre a natureza e torres de energia elétrica. É quase um exercício
de surrealismo de um Brasil que poucos conhecem.
O conjunto de artistas
atinge seu objetivo de mostrar como a excelente impressão de uma
gravura exige extremo cuidado e competência. Assim, a homenagem a
Roberto Grassmann, sobre quem foi lançado também, na exposição, um
DVD, intitulado Impressões – a arte comentada de Roberto Grassmann,
completa-se pelo elevado nível e diversidade dos
trabalhos apresentados, todos eles esmeradamente criados,
impressos e vindos à luz.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).