por Oscar D'Ambrosio


 

 


Homenagem a Octávio Araújo

 

Com sabedoria, tranqüilidade e grande senso de observação, Octávio Araújo soube transformar seu amplo conhecimento de história da arte em obras marcantes, gerando quadros que atingem o coração do espectador pela riqueza e perfeição, assim como pelas numerosas alusões à mitologia grega, entre outras culturas.

Um passeio pelas obras de Octávio é um convite a vários universos. Salta aos olhos a influência da escultura grega, mas ela não surge numa transposição do volume para o plano. Ergue-se na tela graças ao diálogo com os mestres do Renascimento italiano, do alemão, da pintura flamenga e de outras culturas da Europa, da África e da Ásia.

Nascido em 22 de março de 1926, em Terra Roxa, SP, para onde a sua família, originária da Bahia migrara, ele fez seus primeiros desenhos nas paredes da casa, como é comum com as crianças do interior, e depois ganhou de um primo uma pequena caixa de giz de cor.

Em São Paulo, estudou pintura com mestres como o italiano José Barchitta, que o introduziu na cópia de pintores pré-rafaelistas. Aos 20 anos, ao lado de artistas como Marcelo Grassman e Luís Sacilotto, realizou a primeira exposição de desenhos no Instituto dos Arquitetos do Rio de Janeiro. Em 1947, tomou parte, com artistas como Aldemir Martins e Maria Leonita, da célebre mostra “19 pintores”, em São Paulo.

Entre 1952 e 1957, Araújo conseguiu emprego como auxiliar de Portinari no Rio de Janeiro. A participação, ainda em 1957, do Salão para Todos, naquela cidade, foi uma guinada em sua vida pessoal e em sua carreira. Ao ganhar o primeiro prêmio de gravura, teve a chance de ir com a exposição para a China.

A mostra gerou a oportunidade de levar os quadros para Moscou, na então URSS, onde a recepção foi feita pela intérprete de russo para o espanhol Klara Gourianova. A paixão entre a letrada russa e o pintor brasileiro foi à primeira vista. No início de 1961, ele mudou-se para Moscou, onde se casou com Klara. Ali tiveram dois filhos, mudando-se para São Paulo, em 1968.

A produção artística de Octávio é tão fascinante quanto a sua vida quase novelesca. O seu trabalho pictórico está repleto de sinceridade, sendo vital enquanto expressão de uma alma que instaura a sua poética em diversas técnicas: desenho a lápis de grafite, litografia, gravura, ou óleo sobre tela.

O mergulho na arte de Araújo vai além da identificação de gamas de cor ou texturas. Instaura-se uma atmosfera sobrenatural. O que vemos é irreal, mas perfeitamente possível dentro da habilidade com que foi construído. O artista nos propõe então o seu próprio mundo, harmonioso e possuidor de relações lógicas internas.

Octávio Araújo, com sua fala agradável e sorriso aberto, precisa ser recuperado pela crítica de arte e ter seu lugar garantido na pintura nacional como aquele que se apropriou da técnica pictórica, colocou-a a seu serviço e, mesclando capacidade com sensibilidade, produziu telas inesquecíveis, carnavais imagéticos de um homem que não só é pintor, mas que vive sua existência como obra de arte.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio