por Oscar D'Ambrosio


 

 


Hoffmann

 

            O construtor de casas

 

            Desenhar casas pode ser uma tarefa banal ou ganhar uma dimensão artística insuspeitada. O trabalho do artista plástico Hoffmann se insere na segunda possibilidade. Sua obra, repleta de pequenas casas, colocadas simetricamente lado a lado, evoca um rico universo visual presente tanto nas pequenas como nas grandes cidades.

            As casas de Hoffmann são encantadoras massas de cor dispostas de diversas maneiras. Compõem conjuntos arquitetônicos aparentemente simples, mas realizados sempre com a certeza de que a arte não está naquilo que se mostra em si mesma, mas na forma de apresentar o trabalho, ou seja, na seleção de cores e na escolha das formas mais adequadas para gerar impacto no observador.

            Nascido em Assis, em 27 de janeiro de 1964, Alexander Hoffmann tem muita história para contar. Perdeu o pai aos cinco meses de idade e foi criado pela mãe, costureira. Na escola, tirava ótimas notas, mas era conhecido, pelo mau comportamento, como “terrível” e “indomável”.

Hofmann encontrou apoio na sua vizinha, Maria Cândida Godoy Kabori, então secretária de cultura de Assis. Ele ajudou a datilografar o primeiro cadastro de artesãos e artistas do município e – ainda assinando os quadros como Hoff – participou de sua primeira exposição numa feira de artesanato local, com seis trabalhos de guache sobre papel, logo vendidos.

            Em 1976, após uma exposição do artista plástico Ranchinho, Hoffmann descobriu que já conhecia o pintor, que freqüentava as matinês de domingo dos três cinemas da cidade, copiando os cartazes das atrações da semana. Esse foi o impulso que ele precisava, pois voltou para casa e começou a pintar, seja copiando ou criando imagens.

            Entre 1980 e 1986, porém, o artista parou de mexer com as tintas. Para ajudar a família, trabalhou como servente de pedreiro e, a partir de 1984, na polícia. Dois anos depois, retomou a atividade artística, mas ainda esporadicamente. Foi ao voltar de uma viagem do sul da Bahia, em 1989, que Hoffmann despertou definitivamente para a arte.

            As casas da Bahia, grudadas umas nas outras, intensamente coloridas e diferentes entre si foram a inspiração para os conjuntos de residências que caracterizam a obra de Hoffmann. Significativamente, ele, que trabalha como bombeiro em Paraguaçu Paulista, SP, tem como segunda atividade a construção de casas, que vende depois de prontas.

            Autodidata, o artista encontra as mais variadas soluções para compor as suas telas de casas. Às vezes, elas são desenhadas de um mesmo tom quente (laranja ou vermelho, por exemplo) e algumas residências surgem em destaque em amarelo e preto, enriquecendo a tela.  

As paredes brancas, amarelas e vermelhas misturadas, por exemplo, numa mesma tela, dão um efeito de elevado impacto visual, assim como as imagens em que dezenas de casas são colocadas lado a lado, todas diferentes entre si, numa riqueza de estilos arquitetônicos, resolvida por Hoffman em traços singelos, retos e precisos.

Embora também pinte planetas e balões, é nas casas que o artista de Assis encontra a melhor expressão de seu talento. Talvez por trabalhar na construção delas e por combater incêndios, domina o tema em variados tipos de articulação visual, principalmente quando gruda dezenas delas uma ao lado da outra, no que parece um infinito universo de residências, símbolo dos aglomerados urbanos contemporâneos.

 Casas grandes e pequenas de cores geralmente quentes são o diferencial do trabalho de Hoffmann. Sua grande arte está na capacidade de recriar aparentemente infinitamente sobre essa temática. Quanto mais definidas e coloridas as imagens do artista, maior é o seu poder de síntese, quase minimalista, tornando as imagens de simples residências uma metáfora  da situação do povo brasileiro, muitas vezes despossuído do básico direito de ter uma casa simples e decente para habitar.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp)


  

 

 

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