por Oscar D'Ambrosio


 

 



H. Hammler

 

O reino da versatilidade

 

A versatilidade é um dos grandes dons de um pintor. Ao transitar por diversos estilos e tendências, ele consegue depurar e apurar o estilo rumo a um aprimoramento técnico que costuma resultar num repertório de telas de elevada qualidade. Esse o caso da pintura de H. Hammler, que enfoca, em boa parte de sua produção, a simplicidade do cotidiano e a diversidade da cultura brasileira.

Nascido em Limoeiro, PE, em 9 de outubro de 1955, Heinrich Hammler Allan de Souza, oriundo de uma família com nove irmãos, começou a desenhar aos sete anos, tentando reproduzir fielmente as fotos de família. Aos 20 anos, com a ajuda do amigo e artista plástico João Neto, pintou uma paisagem que seria seu primeiro quadro a óleo. Após estudar desenho arquitetônico, industrial, mecânico e artístico no Liceu de Artes de Recife, PE, em 1977, ele iniciou seus trabalhos em óleo sobre tela, sendo que, nos quatro anos seguintes, realizou pesquisas com cerâmica na cidade de Tracunhaém, PE.

Iniciou-se assim uma trajetória que, no conjunto, revela uma predominância figurativa e de nítido conteúdo social. Isso não significa uma pintura panfletária, mas sim a consciência artística de mostrar o estado de carência existencial em que vive boa parte da população do País.

A série Flagelados da Paixão, por exemplo, revela fortes influências do ambiente nordestino, como o contato com pessoas castigadas pela seca e pela miséria gerada e muitas vezes alimentada pelo coronelismo. Paralelamente, esses cidadãos são fiéis devotos de figuras quase míticas, como o padre Cícero e o Frei Damião.

Essas questões de cunho social vêm à tona a partir de imagens com rostos contorcidos e sofridos, próximas ao expressionismo. As imagens de mulheres religiosas comovem e apontam para a necessidade de vínculos entre os homens e Deus. Os rostos delineados com poucos traços e a posição de contrição apontam justamente para um fato já conhecido da sociologia: as pessoas com menos posses são geralmente as que têm mais fé.

O expressionismo alemão, com suas cores mais escuras, surge como referência inevitável na série Bares da Cidade. Desempregados, prostitutas e alcoólatras são os introspectivos protagonistas de retratos que mostram pessoas solitárias. Elas lêem jornais ou fumam e quando um homem se aproxima de uma mulher da noite parece ser ignorado pelo simples fato de não poder pagar a noite de prazer.

O sentimento de depressão em relação ao mundo predomina. O crítico Paulo Chaves comparou as telas dessa fase com o trabalho de Edward Hopper, mas, enquanto o pintor norte-americano enfatizava os ambientes, em detrimento das pessoas, Hammler prefere compor as feições humanas com poucos traços, acentuando um ar de tristeza e melancolia perante a existência.

Residente no Bairro Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo, SP, desde 1979, Hammler também pintou a série Greves em homenagem a Salvador Arena, dono da metalúrgica “Termomecânica”, que, para evitar conflitos, dispensava seus funcionários – que ganhavam salários acima do mercado – quando eram decretadas greves gerais da categoria.

Mas não apenas de questões sociais específicas vive a pintura de Hammler. A série Brincadeiras de Infância resgata atividades lúdicas abandonadas pela televisão e pelo vídeo game, como cabo de guerra, bolinha de gude, empinar papagaio, jogar futebol, comer pipoca ou andar de skate. Essas cenas estão repletas de lirismo e o pincel flui pela tela, numa técnica que evoca o impressionismo, embora apresente uma presença marcante das cores vermelha e laranja, muito utilizadas pelo expressionismo.

A série Primitivos é outro exemplo de como Hammler pode se transformar em muitos pintores. É um artista de cores vivas e alegres que surge ao pintar pessoas brancas, morenas e negras, mostradas junto a mulheres que utilizam vestidos de diversas cores, em composições de grande liberdade cromática.

A perspectiva desaparece e há até momentos metalingüísticos. Num deles, uma pintora é mostrada sentada pintando uma cena em que vê um acordeonista em meio a um fundo amarelo com casinhas coloridas ao fundo. A mesma cena é reproduzida no interior do quadro, num interessante jogo semiótico.

Cenas de bumba-meu-boi e grupos de música popular, também integram esse universo realizado com grande liberdade de criação e dentro dos parâmetros da escola conhecida como primitivista ou naïf. Manifestações culturais brejeiras e singelas são tratadas com cores claras, quentes e vibrantes. É ainda nesse estilo primitivista, com tela repleta de frases escritas, que Hammler realizou um painel alusivo aos 500 anos de Brasil.

O pintor também mergulha no universo da arte abstrata. E obtém um excelente resultado, utilizando cores mais escuras e composições inspiradas no cubismo, mas que o ultrapassa no sentido em que Hammler prefere trabalhar com a justaposição de imagens, não com a sua deformação.

Nesse processo, os referentes concretos vão se diluindo até chegar ao ponto em que a composição vale mais pelo prazer estético da combinação de formas do que pelas imagens propriamente ditas. Certos quadros evocam as cores e recursos utilizados por Matisse, principalmente no que diz respeito ao uso de vermelhos e amarelos.

Há ainda certas composições que evocam o desenho infantil e dialogam, por exemplo, com a obra do catalão Miró. Isso se acentua com a série de quadros que evoca as pinturas dos homens nas cavernas. Assim, no começo da humanidade (a arte primitiva) e da vida (a arte infantil), surge a reposta para as ansiedades humanas.

O universo do pintor comporta ainda paisagens e naturezas-mortas que misturam frutas com carrinhos de brinquedo. Pilhas de vasilhas de diferentes formas e tamanhos também são pretexto para jogos pictóricos em que a cor marrom é muitas vezes vitoriosa. Algo semelhante ocorre quando Hammler se debruça sobre as frutas. Ao levar às telas cajus e maçãs, ele brinca principalmente com a intensidade do vermelho.

Além de realizar uma obra de intensa pesquisa estética, Hammler busca constantemente despertar a consciência dos moradores de seu bairro para a cidadania, como a participação constante na Organização Não-Governamental Grupo de Apoio por um Rudge Ramos Melhor. Destacam-se os projetos Pintando na calçada, a reinaguração do Teatro Lauro Gomes e a recuperação do colégio estadual Otílio de Oliveira.

As múltiplas fases de Hammler comprovam sua versatilidade artística. Não tem medo de correr riscos e de enfrentar novas temáticas e técnicas. Comprova assim que não há limites para o artista digno desse nome, ou seja, aquele que, como ele, não se esquiva de um desafio, mas o enfrenta e sai vitorioso, com uma obra mais versátil, sólida e multifacetada.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

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"Pipoqueiro"

 
óleo sobre tela 100x120 cm - 1998

H. Hammler  

 

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