por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Hermes Ursini

 

            Compartimentos

 

            A imagem do ser humano caminhando sozinho em meio a uma multidão talvez seja uma das mais desgastadas na literatura e no cinema. No entanto, ela sempre permite outros olhares. Não é necessário ver esse homem só uma massa sem rostos, num caminhar do nada para coisa nenhuma.

            Há sempre renovadas possibilidades – e a poética do artista plástico Hermes Ursini é uma delas. Apaixonado por desenho, coloca em diversas técnicas, do carvão à tinta a óleo, passando pelo nanquim e diversas manifestações em papel, numerosas imagens em que o assunto solidão ganha diferenciadas formas de expressão.

            Não se trata de reinventar o tema, mas de colocá-lo sob uma nova perspectiva, ou seja, ocorre a criação de um espaço visual original que permite o casamento entre a construção anatômica acurada e o tratamento pictórico bem acabado. Surgem assim infinitas variações sobre aquilo que o artista se propõe a mostrar.

            O grande vazio do ser humano contemporâneo se faz presente de modo a obrigar um questionamento da própria existência, muitas vezes perdida num erotismo em busca de um vazio prazer ou de uma falsa intelectualidade meramente masturbatória e pouco produtiva.

            Os homens e mulheres de Hermes aparecem, principalmente, em duas situações essenciais. Na primeira, isolados entre biombos, emparedados. Esfregam os corpos e o sexo contra as paredes e, levemente inclinados para a frente, numa tensão constante, parecem esperar um amanhã melhor.

            Ainda dentro desse assunto, esses personagens espiam uns aos outros por meio de aberturas nos biombos. Os olhares, no entanto, não se encontram. O mistério se instaura pelo desejo de ver e de ser visto e de buscar o outro sem abrir mão da própria individualidade, num jogo em que só há perdedores, compenetrados numa ressonância oca do conhecimento buscado por meio do outro, quando a chave está no mergulho corajoso em si mesmo.

            Uma segunda vertente reside em figuras isoladas que portam com uma das mãos sobre o rosto uma espécie de cubo em que se visualiza uma máscara. A persona esconde a própria imagem no espelho e estabelece um universo de falsas relações. O medo de se revelar impede a veracidade do ser.

            Os compartimentos criados pelos biombos e as personagens com máscaras de si mesmas integram um universo imagético em que há outras variantes, como auto-retratos sucessivos, casais olhando para locais diferentes e personagens sozinhas perante um mundo que não compreendem.

            A busca constante pela solução técnica mais adequada, porém, associada a uma indagação existencial densa, que leva à produção abundante, torna a poética de Ursini um retrato pungente da sociedade em que vivemos, de pessoas solitárias, de silêncios mascarados entre risadas e de conversas paralelas entre biombos quase intransponíveis.

Hermes Ursini não oferece respostas – e nem poderia. Como faz boa parte da arte significativa já produzida, ele é sensível a uma problemática latente na sociedade, e a transforma em um resultado imagético bem realizado e consistente, que dilacera os que já se sensibilizaram com a sua temática e serve de alerta aos que ingenuamente julgam que a felicidade é possível num mundo em que o silêncio, o egoísmo, a falsidade e a vacuidade perfumada das relações humanas predominam.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 

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Mecanismos
óleo sobre tela
100 x 80 cm 2000

Hermes Ursini

 

 

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