por Oscar D'Ambrosio


 

 
 
Herbert Orowan

 

            A arte e o tempo

 

            A arte e o tempo têm uma relação misteriosa, difícil de definir, mas que traz muitas surpresas e desdobramentos.Um desses encontros propiciados pelo ato de criar e pela inevitabilidade do envelhecer ocorreu, em 2000, entre a aquarelista Rosália Lerner e Herbert Orowan, que então morava há seis meses no Lar Golda Meir, atualmente chamado Residencial Albert Einstein, para idosos, em São Paulo, SP.

            Ela foi levar a sua arte para um pequeno grupo de interessados e conheceu esse senhor austríaco, nascido em 1910. Ele teve uma vida dura e repleta de episódios dignos de um filme. Trabalhava na loja de móveis do pai, em Graz, quando, em 1937, foi levado, pelos nazistas, na chamada “Noite dos Cristais”, para o campo de concentração de Dachau.

            Ao contrário de outros integrantes da família, como a irmã, conseguiu, provavelmente graças a uma carta emocionada da mãe a um dirigente alemão, ser liberto, escapando para a Suíça e a França, de onde foi para Cochabamba, Bolívia, onde abriu, junto a um amigo, com sucesso, uma indústria de móveis.

            O êxito os animou a mudar-se para São Paulo. A concorrência e a crise do petróleo, porém, os levou a ter que fechar o negócio. Orowan conseguiu emprego como desenhista e decorador da Interdomus Lafer, onde trabalhou por duas décadas. Viúvo, sem filhos, mas com uma enteada, internou-se no Lar Golda Meir, onde passou, de 2000 a 2006, enquanto a saúde permitiu, boa parte de seu tempo pintando.

            O contato com Rosalia foi um novo alento. Além das cópias que fazia de pintores como Monet, Cézanne, Vlaming e Munch, entre muitos outros, fez alguns desenhos da própria imaginação. Nesses trabalhos, mostra grande domínio técnico, fato que o levou, inclusive, a já realizar uma exposição no Centro Cultural São Paulo.

            Seja em paisagens, naturezas mortas ou flagrantes urbanos, Orowan apresenta um conjunto que merece ser melhor conhecido. Suas cópias têm traços próprios e sua capacidade de produção foi muito elevada, somente prejudicada pela decadência da saúde nos últimos anos.

            Além de trabalhos em tela e aquarela, Orowan tem algumas obras esculpidas em madeira e objetos pessoais de interesse plástico, como uma bela caixinha da irmã, provavelmente falecida num campo nazista, e que guardava com carinho, entregando-a como prova de afeto a Rosalia Lerner.

            O conjunto das obras da artista sobre Orowan, junto com os trabalhos dele, e seus objetos pessoais constituem um conjunto sólido e lírico, um ato de poesia que vence o tempo, mostrando como a arte pode consolidar relações e criar elos, mantendo as pessoas unidas por ideais comuns, como o de pintar sempre, até o último momento.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

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Apto. 756 de Herbert
aquarela 2002  
Herbert Orowan

 

 

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