Henry Vitor
A escrita de imagens
O escritor mineiro
Guimarães Rosa apresenta a rara qualidade de ser universal a
partir de uma matriz aparentemente apenas regional. Ao tematizar o
sertão mineiro, atinge questões que abarcam todo ser humano. O
trecho "A vida também é para ser lida. Não literalmente,
mas em seu supra-senso", de Tutaméia, é um exemplo
disso.
Situação análoga ocorre nas
pinturas a óleo do artista mineiro Henry Vitor. Suas paisagens,
ingênuas à primeira vista, são o resultado de um gradual
processo de amadurecimento artístico guiado pelo desejo de busca
da liberdade criativa e do aprimoramento técnico.
Por isso, as imagens repletas de
flores delicadas e passagens que evocam o interior de Minas Gerais
não podem ser vistas como meras recordações de infância. Se há
nelas uma volta ao passado, também existe um cuidadoso trabalho
de compilar essas memórias, realizando poemas visuais.
Foi em Guaxupé, MG, onde nasceu em 2
de abril de 1939, que Henry teve, graças ao seu avô, um mescla
de engenheiro e arquiteto, seu primeiro contato com as tintas. Ao
ver potes imensos de pigmentos, sentiu a vontade de mergulhar
neles, anunciando uma vocação que desenvolveria posteriormente.
Quando criança, Henry fez um pouco de
tudo, desde vender queijos e doces, ainda em Minas, a velas na
porta de cemitério, já em São Paulo, para onde veio com a família.
Mais tarde, fez curso de joalheria e realizou três cursos
universitários, em jornalismo, publicidade e relações públicas.
O futuro artista dos pincéis passou a
obter seu sustento de trabalhos com texto, como criador e redator
publicitário. Pouco a pouco, porém, as palavras foram ganhando
as telas, em uma breve jornada pela pintura acadêmica, com vasos
de flores e naturezas-mortas, seguida de quadros em que pintava
composições que articulavam cabeças e números, além de outras
telas vinculadas à arte conceitual.
A necessidade e o hábito de trabalhar
muito prosseguem, pois Henry, hoje com um estilo e técnica bem
mais aperfeiçoado, pinta diariamente, muitas vezes em mais de uma
tela, iniciando um novo trabalho enquanto parte de outro seca. Em
todos, demonstra a mesma preocupação e consciência: compor
poemas visuais repletos de encantamento. Tal pintura, já chamada
de selênica, por transportar o observador às alturas lunares,
apresenta imagens singelas e ingênuas, mas permeadas de um quê
de hiper-realismo e de sonho surrealista.
Após uma intensa fase de experimentos
iniciada no final dos anos 1960, Henry obteve seu primeiro prêmio
no Salão de Artes Plásticas do Embu, SP, em 1971, e a primeira
individual no ano seguinte, dando os primeiros passos para uma
carreira de sucesso no Brasil e com obras já exibidas na Itália,
França, Dinamarca, EUA, Suíça, Canadá e França, entre outros
países.
Nessas telas espalhadas pelo mundo,
costumam aparecer balões ou castelos sobre uma nuvem, índices do
alimento da pintura poética de Henry Vitor: o objetivo de ver
mais além das fronteiras de nossos olhos cansados de realidade. O
balão que se eleva ou o castelo que paira sobre uma nuvem são
uma trincheira artística contra qualquer concepção de mundo
fechado e acabado.
Viver, para Henry, é construir
sonhos, tarefa que realiza com seus pincéis. O artista constrói,
portanto, narrativas visuais com formas e cores. Para isso,
pesquisa. Em 2001, por exemplo, na exposição "Curitiba por
Henry Vitor", suas telas sobre a cidade são todas fruto de
investigação bibliográfica e visitas in loco,
acompanhadas de pequenos textos de sua autoria que dialogam com o
resultado visual.
Em telas como Ainda amanhã, é
possível visualizar a vegetação local, como os característicos
pinheiros; os tropeiros, o pastor, a mulher que porta uma lata d´água
na cabeça, as residências típicas, as águas cristalinas e o céu
da cidade. Tudo isso aparece com pinceladas finas e delicadas, com
detalhamento de flores e folhas, num exercício de paciência e de
contenção imagética e discursiva, próximo ao do haicai, poema
japonês constituído de apenas três versos, que expressa,
sinteticamente e com profundidade, uma impressão, um conceito ou
um drama existencial.
Casas, parques, cachoeiras, imagens
religiosas, beija-flores e pessoas que realmente conheceu se
mesclam com edifícios de Curitiba, tanto os da memória coletiva
como os de recordação individual. Tudo isso surge nas telas do
artista, capaz de retratar, por exemplo, na tela Barigui,
um velhinho com o qual tentou inutilmente conversar.
No alto do quadro, um relógio antigo
de bolso, mostrado sem ponteiros, ilustra a cena, que se dá fora
do tempo neurótico das cidades contemporâneas. As pombas sobre a
cabeça do ancião indicam exatamente que ele vive no mundo do
sonho e da imaginação. Alheias ao senhor, as pessoas caminham,
correm, andam de bicicleta e levam o cão para passear pelo
parque. De fato, para quem tem a noção do passar dos segundos, a
ausência de tempo representada pelo velhinho simplesmente
inexiste.
Os balões, castelos,
pipas e anjos são às vezes dispostos com o recurso de diversas
molduras coloridas internas. Uma dentro da outra, criam ricos e oníricos
campos de ação cromática, geralmente em azul, verde e amarelo.
Cada novo trabalho é assim um fascinante processo de aprendizagem
conceitual e técnica, em que, às vezes, Henry Vitor expressa
suas idéias em imagens que coloca no interior de pequenas nuvens
que saem da mente de auto-retratos estilizados.
O artista desenvolve ainda um acurado
trabalho narrativo de mescla de memória com realidade. Isso pode
ser encontrado em painéis, como os que realizou para as agências
Voluntários da Pátria, em 1985, e Pamplona, em 1986, do Banco do
Estado de São Paulo (Banespa), ou nas telas de dimensões menores
em que coloca, numa árvore simbólica repleta de detalhes,
imagens codificadas vinculadas a fatos, desejos e ambições da
biografia de quem lhe solicita esse tipo de trabalho.
Outra faceta de Henry
Vitor é a sua persistente busca de informações quando deseja
pintar um determinado assunto. Dessa pesquisa, resultam trabalhos
plenos de elementos criativos e detalhes inesperados. Embora o
artista não realize esboços, nada em suas telas é arbitrário
ou deixado ao acaso. Cada imagem é colocada por critérios
interiores que mesclam o bom gosto estético e a construção de
uma narrativa pessoal e fantasiosa a partir do que se costuma
chamar de História e realidade.
Com um mote nas mãos, muitas idéias
na cabeça e inegáveis recursos técnicos, como a pincelada exata
e a magistral combinação de cores, Henry Vitor realiza cada tela
com perseverança e extremo apuro. Instaura assim universos utópicos,
que levam a mente do observador a voar rumo a um possível castelo
encantado.
Henry alimenta, portanto, nosso imaginário
pela encantadora demonstração pictórica da capacidade de criar.
Cada quadro é justamente um balão a vagar pelo espaço infinito.
Seu ponto de chegada, assim como ocorre na literatura de Guimarães
Rosa, é desconhecido, mas a partida está em imagens pictóricas
que, como o doce, ágil e preciso movimento de um colibri picando
uma flor, evocam a máxima do escritor Mário da Silva Brito:
"Sonho, logo existo".
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).