por Oscar D'Ambrosio


 

 



Henry Vitor

        A escrita de imagens

        O escritor mineiro Guimarães Rosa apresenta a rara qualidade de ser universal a partir de uma matriz aparentemente apenas regional. Ao tematizar o sertão mineiro, atinge questões que abarcam todo ser humano. O trecho "A vida também é para ser lida. Não literalmente, mas em seu supra-senso", de Tutaméia, é um exemplo disso.

Situação análoga ocorre nas pinturas a óleo do artista mineiro Henry Vitor. Suas paisagens, ingênuas à primeira vista, são o resultado de um gradual processo de amadurecimento artístico guiado pelo desejo de busca da liberdade criativa e do aprimoramento técnico.

Por isso, as imagens repletas de flores delicadas e passagens que evocam o interior de Minas Gerais não podem ser vistas como meras recordações de infância. Se há nelas uma volta ao passado, também existe um cuidadoso trabalho de compilar essas memórias, realizando poemas visuais.

Foi em Guaxupé, MG, onde nasceu em 2 de abril de 1939, que Henry teve, graças ao seu avô, um mescla de engenheiro e arquiteto, seu primeiro contato com as tintas. Ao ver potes imensos de pigmentos, sentiu a vontade de mergulhar neles, anunciando uma vocação que desenvolveria posteriormente.

Quando criança, Henry fez um pouco de tudo, desde vender queijos e doces, ainda em Minas, a velas na porta de cemitério, já em São Paulo, para onde veio com a família. Mais tarde, fez curso de joalheria e realizou três cursos universitários, em jornalismo, publicidade e relações públicas.

O futuro artista dos pincéis passou a obter seu sustento de trabalhos com texto, como criador e redator publicitário. Pouco a pouco, porém, as palavras foram ganhando as telas, em uma breve jornada pela pintura acadêmica, com vasos de flores e naturezas-mortas, seguida de quadros em que pintava composições que articulavam cabeças e números, além de outras telas vinculadas à arte conceitual.

A necessidade e o hábito de trabalhar muito prosseguem, pois Henry, hoje com um estilo e técnica bem mais aperfeiçoado, pinta diariamente, muitas vezes em mais de uma tela, iniciando um novo trabalho enquanto parte de outro seca. Em todos, demonstra a mesma preocupação e consciência: compor poemas visuais repletos de encantamento. Tal pintura, já chamada de selênica, por transportar o observador às alturas lunares, apresenta imagens singelas e ingênuas, mas permeadas de um quê de hiper-realismo e de sonho surrealista.

Após uma intensa fase de experimentos iniciada no final dos anos 1960, Henry obteve seu primeiro prêmio no Salão de Artes Plásticas do Embu, SP, em 1971, e a primeira individual no ano seguinte, dando os primeiros passos para uma carreira de sucesso no Brasil e com obras já exibidas na Itália, França, Dinamarca, EUA, Suíça, Canadá e França, entre outros países.

Nessas telas espalhadas pelo mundo, costumam aparecer balões ou castelos sobre uma nuvem, índices do alimento da pintura poética de Henry Vitor: o objetivo de ver mais além das fronteiras de nossos olhos cansados de realidade. O balão que se eleva ou o castelo que paira sobre uma nuvem são uma trincheira artística contra qualquer concepção de mundo fechado e acabado.

Viver, para Henry, é construir sonhos, tarefa que realiza com seus pincéis. O artista constrói, portanto, narrativas visuais com formas e cores. Para isso, pesquisa. Em 2001, por exemplo, na exposição "Curitiba por Henry Vitor", suas telas sobre a cidade são todas fruto de investigação bibliográfica e visitas in loco, acompanhadas de pequenos textos de sua autoria que dialogam com o resultado visual.

Em telas como Ainda amanhã, é possível visualizar a vegetação local, como os característicos pinheiros; os tropeiros, o pastor, a mulher que porta uma lata d´água na cabeça, as residências típicas, as águas cristalinas e o céu da cidade. Tudo isso aparece com pinceladas finas e delicadas, com detalhamento de flores e folhas, num exercício de paciência e de contenção imagética e discursiva, próximo ao do haicai, poema japonês constituído de apenas três versos, que expressa, sinteticamente e com profundidade, uma impressão, um conceito ou um drama existencial.

Casas, parques, cachoeiras, imagens religiosas, beija-flores e pessoas que realmente conheceu se mesclam com edifícios de Curitiba, tanto os da memória coletiva como os de recordação individual. Tudo isso surge nas telas do artista, capaz de retratar, por exemplo, na tela Barigui, um velhinho com o qual tentou inutilmente conversar.

No alto do quadro, um relógio antigo de bolso, mostrado sem ponteiros, ilustra a cena, que se dá fora do tempo neurótico das cidades contemporâneas. As pombas sobre a cabeça do ancião indicam exatamente que ele vive no mundo do sonho e da imaginação. Alheias ao senhor, as pessoas caminham, correm, andam de bicicleta e levam o cão para passear pelo parque. De fato, para quem tem a noção do passar dos segundos, a ausência de tempo representada pelo velhinho simplesmente inexiste.

        Os balões, castelos, pipas e anjos são às vezes dispostos com o recurso de diversas molduras coloridas internas. Uma dentro da outra, criam ricos e oníricos campos de ação cromática, geralmente em azul, verde e amarelo. Cada novo trabalho é assim um fascinante processo de aprendizagem conceitual e técnica, em que, às vezes, Henry Vitor expressa suas idéias em imagens que coloca no interior de pequenas nuvens que saem da mente de auto-retratos estilizados.

O artista desenvolve ainda um acurado trabalho narrativo de mescla de memória com realidade. Isso pode ser encontrado em painéis, como os que realizou para as agências Voluntários da Pátria, em 1985, e Pamplona, em 1986, do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), ou nas telas de dimensões menores em que coloca, numa árvore simbólica repleta de detalhes, imagens codificadas vinculadas a fatos, desejos e ambições da biografia de quem lhe solicita esse tipo de trabalho.

        Outra faceta de Henry Vitor é a sua persistente busca de informações quando deseja pintar um determinado assunto. Dessa pesquisa, resultam trabalhos plenos de elementos criativos e detalhes inesperados. Embora o artista não realize esboços, nada em suas telas é arbitrário ou deixado ao acaso. Cada imagem é colocada por critérios interiores que mesclam o bom gosto estético e a construção de uma narrativa pessoal e fantasiosa a partir do que se costuma chamar de História e realidade.

Com um mote nas mãos, muitas idéias na cabeça e inegáveis recursos técnicos, como a pincelada exata e a magistral combinação de cores, Henry Vitor realiza cada tela com perseverança e extremo apuro. Instaura assim universos utópicos, que levam a mente do observador a voar rumo a um possível castelo encantado.

Henry alimenta, portanto, nosso imaginário pela encantadora demonstração pictórica da capacidade de criar. Cada quadro é justamente um balão a vagar pelo espaço infinito. Seu ponto de chegada, assim como ocorre na literatura de Guimarães Rosa, é desconhecido, mas a partida está em imagens pictóricas que, como o doce, ágil e preciso movimento de um colibri picando uma flor, evocam a máxima do escritor Mário da Silva Brito: "Sonho, logo existo".

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

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"Ainda Amanhã"

O.S.T - 90X90 - 2001

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