Henri Rousseau
O pai da arte naïf
Preferido de dez entre dez pintores
naïfs, o francês Henri Rousseau goza desses prestígio não
apenas por ser autodidata, não seguir as normas acadêmicas de
perspectiva e por se utilizar da desproporção e de cores vivas,
muitas vezes irreais; mas também pela forma ingênua de encarar a
própria vida.
Embora pintasse densas florestas com
árvores gigantescas, o primeiro e mais famoso dos naïfs
trabalhou quase a vida inteira como funcionário da alfândega de
Paris. Baixo, cabelos castanhos, era uma pessoa absolutamente
comum na aparência e começou a pintar aos domingos, nas horas
livres, só podendo se dedicar totalmente à arte quando se
aposentou.
Com uma impressionante confiança no
próprio talento, Rousseau não temia pedir opiniões. Ao
enfrentar o desprezo do público, que considerava sua arte
"muito tosca", argumentava que queria pintar "ao
gosto do povo". Sua obra, no entanto, só foi valorizada ao
final de sua vida pelas vanguardas de Paris, principalmente por
Paul Gauguin e Pablo Picasso.
Curiosamente, Henri Julien Félix
Rousseau nasceu numa torre medieval, chamada Portal Beucheresse,
que pertencia as muralhas da cidade provinciana de Laval, no
noroeste da França, em 21 de maio de 1844. No térreo desse lar,
próprio para estimular contos de fadas, o pai tinha uma casa de
ferragens, que faliu. O pai perdeu as terras que possuía, mas
Henri permaneceu na cidade até terminar os estudos. As
dificuldades financeiras, porém, impediram que os pais, que não
tinham, ao que se sabe, nenhum interesse por artes plásticas,
pagassem ao menino algum tipo de educação nessa área, embora
ele houvesse demonstrado interesse.
Na escola, Rousseau não foi um bom
aluno. Era comumente reprovado nos exames, mas mostrava gostar de
música, poesia e desenho. O desfecho foi o esperado. Aos 19 anos,
desistiu da escola e conseguiu uma vaga para o humilde cargo de
escriturário de um advogado da cidade.
Mas o futuro artista durou pouco no
emprego. Foi preso, acusado pelo patrão de ter roubado selos, no
valor de 25 francos. Julgado, foi condenado a um mês de prisão.
Após cumprir a pena, para tentar reconquistar a estima da
família, alistou-se no 51º Batalhão de Infantaria.
Ao retornar, em 1868, após a morte do
pai, provavelmente em busca de um maior reconhecimento da mãe,
agora viúva e dos conhecidos, simplesmente inventou que fora ao
México, como clarinetista, durante a campanha de Napoleão III,
em apoio ao Imperador Maximiliano, que acabou fuzilado, pelas
forças republicanas locais, em 1867, em cena imortalizada pelo
pintor Manet, um ano após o fato histórico.
Essas narrativas heróicas eram logo
desmascaradas por todos após algumas perguntas mais aprofundadas
sobre essa viagem. Posteriormente,ao ser perguntado sobre a fonte
de inspiração de suas numerosas pinturas sobre selvas, Rousseau
insistia no argumento de que ela vinha das selvas americanas,
quando, de fato, o máximo de vegetação exótica que conhecia ao
vivo retirava das visitas freqüentes aos jardim botânico e
zoológico de Paris, para onde se mudou ainda em 1868.
Na capital francesa, logo se apaixonou
pela costureira Clémence Boitard, filha de sua senhoria. Casou-se
no ano seguinte, vivendo quase 20 anos de intensa felicidade,
maculada apenas pela morte de cinco de seus sete filhos,
vitimados, ainda crianças, de tuberculose.
A imagem de Clémence está
provavelmente imortalizada no quadro Retrato de uma mulher. Merece
destaque, no canto inferior direito da tela, um pequeno gatinho
brincando com um novelo de lá, uma imagem desproporcional em
relação à dama de negro que preenche o quadro. No fundo da
tela, há uma selva , provavelmente inspirada nos lugares que o
casal freqüentava aos domingos: o Bois de Boulogne, bosques nos
arredores de Paris, corridas de Longchamps e o mencionado Jardim
Botânico.
Em 1871, Rousseau consegue emprego no
Departamento de Alfândega de Paris. Ele devia permanecer nos
portões de pedágio da cidade e fiscalizar a entrada e a saída
de produtos como sal, vinho, leite e cereais, evitando o
contrabando. O trabalho era simples e sobrava tempo para
contemplar os belos bosques do subúrbio onde trabalhava.
Foi nesse ano que Rousseau começou a
desenhar e a pintar nas horas de folga. Sabe-se que os superiores
lhe davam tarefas fáceis, mas há ainda incerteza se isso se deve
ao respeito pelo seu talento de artista amador ou à
incompetência dele para realizar trabalhos mais complicados. O
que as biografias do pintor francês registram é que ele nunca
foi promovido a Douanier, ou seja, a chefe de alfândega, embora
tenha passado à posteridade exatamente como Douanier Rousseau,
como era conhecido entre os vanguardistas parisienses.
Logo que começou a pintar, Rousseau
pediu conselhos ao seu vizinho e amigo, o pintor Clément, que,
além de orienta-lo, o ajudou a ter uma autorização de copista,
que lhe permitia livre acesso ao Louvre e a outras galerias. Seu
maior ídolo, no entanto, era Gerôme, que o aconselhou a observar
a natureza, mas sem perder o próprio estilo. Os dois amigos
observaram que Rousseau, embora se esforçasse, não conseguia
copiar os acadêmicos e atribuíam isso ao fato do Douanier ter a
singularidade de estilo própria dos autodidatas.
A estréia artística ocorreu em 1885.
Rousseau enviou dois quadros ao Salão dos Artistas Independentes,
sociedade organizada por pintores de vanguarda que haviam tido
seus trabalhos recusados pelo Salão dos Artistas Franceses. Eles
foram recebidos com ironia: "Seus quadros lembram as
garatujas que nos encantavam quando éramos crianças. Passei mais
de uma hora diante dessas ‘obras-primas’, analisando as
expressões das pessoas que as olhavam. Todas riram até as
lágrimas. Feliz Rousseau", disse, com sarcasmo, um crítico
da época.
Os primeiros trabalhos de Rousseau
eram realizados somente aos domingos, em seus momentos de folga.
As telas denunciavam a ausência de treinamento acadêmico,
principalmente pelo imperfeito uso da técnica da perspectiva.
Outra dificuldade técnica do artista era pintar pés, o que exige
grande conhecimento das dimensões de espaço. Por isso,
geralmente suas figuras humanas aparecem com os pés afundados na
grama até os tornozelos.
Retratar feições humanas era mais um
desafio. Pode-se observar isso pela espessura das feições nas
telas , que indicia constantes revisões. Buscou solucionar esse
problema com uma técnica particular. Media olhos, narizes e bocas
de seus modelos com o cabo do pincel e transferia as medidas para
as telas. Para chegar ao tom de pele desejado, colocava o tubo a
ser usado ou o pincel cheio de tinta ao lado do rosto do modelo.
Essa busca exagerada do realismo gerou, como resultado, telas de
uma irrealidade fascinante.
Quanto aos animais, admirava aqueles
pintados por Delacroix e Gerôme. Inspirava-se, porém, no livro
Animais selvagens, publicado pelas galerias Lafayette, com 200
fotos tiradas no Jardim Zoológico de Paris. Essas imagens o
transportavam a selvas fictícias, repletas de macacos e leões.
Algumas vezes, Rousseau usava o
pantógrafo, um ampliador mecânico, para traçar o contorno do
animal sobre a tela. Depois, o preenchia de tinta e se orgulhava
das cores que obtinha. Como confirma o depoimento de um visitante
de seu ateliê, que ouviu o artista exclamar, satisfeito, que
havia atingido sua 22ª tonalidade de verde.
Rousseau não se abalou por não
consegui expor no Salão dos Artistas Oficiais. Continuou
mostrando seus trabalhos no Salão dos Independentes, ao lado de
Georges Seurat, Odilon Redon e Paul Signac, artistas já com certa
fama. A ironia da crítica e do público, porém prosseguia e
alguns independentes chegaram mesmo a pensar em excluir Rousseau
das exposições. Isso apenas não aconteceu devido à defesa de
Tolouse-Lautrec.
Em 1888, com a morte da esposa,
Rousseau se viu sozinho com duas crianças para criar. Seu
potencial criativo foi salvo no ano seguinte, com a Feira Mundial,
em Paris. Teve então a oportunidade de ver, de uma só vez, a
reconstrução de um palácio asteca e de aldeias asiáticas e
africanas, alimentando-se com numerosas imagens de culturas
exóticas.
Toda essa informação não só foi
passada para suas telas, como também resultou numa comédia de
três atos: Visita à Exposição de 1889, em que deixa claro a
forte impressão que o evento lhe causou. O texto, recusado pela
Comédie Française, "devido ao alto custo envolvido na
produção da peça", só foi encenado em 1969.
Por volta de 1890, o artista francês
começou a pintar quadros com pequenas flores, destacando as cores
e a individualidade de cada uma delas em composições arrojadas
para os padrões da época. Provavelmente, esse foi um ótimo
exercício para que melhorasse suas paisagens de selvas, nas quais
costumava ampliar as plantas que conhecia tão bem nas mencionadas
visitas ao Jardim Botânico.
Quando Rousseau se aposentou, em 1893,
passou a dedicar todo o tempo à carreira artística. Como ganhava
pouco, completava seu sustento tocando violino nas ruas. Suas
crianças, perante a vida irregular do pai, foram enviadas para a
casa de parentes em Angers.
No final do século XIX, alguns
quadros de Rousseau começaram a chamar a atenção. Isso se deve,
principalmente aos esforços do escritor Alfred Jarry (1873 –
1907). Também nascido em Laval, mas 30 anos mais jovem que o
artista plástico, ele apresentou Rousseau às vanguardas
francesas e o contratou para ilustrar a revista que dirigia, L’Imagier.
Foi ainda Jarry, que conheceu Rousseau
com cerca de 20 anos, que passou a chamá-lo de Douanier e o fez
conhecer pessoalmente artistas plásticos como Gauguin e o
escritor Mallarmé. O autor de Ubu Rei logo se impressionou com a
originalidade do trabalho do conterrâneo e teve seu esforço de
promoção recompensado, pois, ao ser expulso, em 1897, da pensão
em que morava, em Paris, Rousseau o abrigou em sua própria casa.
Jarry pode ainda ser considerado o
responsável indireto pelo único comentário crítico favorável
que Rousseau recebeu em vida. Ele encomendou ao pintor uma
litografia para L’Imagier. A partir daí, Rousseau fez um quadro
chamado A guerra (1894), em que uma menina vestida de branco e um
enorme cavalo negro surgem saltando sobre corpos mutilados, numa
imagem que evoca o célebre quadro Liberdade guiando o povo, de
Delacroix. O poder da imagem levou o jornal Mercure de France a
publicar um artigo elogiando-a.
Em 1898, Rousseau pintou uma de suas
mais importantes obras-primas, A cigana adormecida. O pintor
tentou vender a tela ao prefeito de Laval e, em uma carta datada
de 10 de julho, comenta o próprio quadro: "Uma caminhante
negra, tocadora de bandolim, com uma ânfora ao lado (contendo
água de beber), exausta da caminhada, dorme profundamente. Um
leão aparece, aproxima-se e a cheira, mas não a devora. O luar
é muito poético. A cena acontece em pleno deserto. A cigana usa
roupas orientais".
O prefeito não demonstrou interesse e
a tela permaneceu esquecida por muito tempo, sendo apenas
reencontrada, em 1923, na oficina de um encanador de Paris.
Curiosamente, o poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) comprou uma
reprodução num sebo francês e o guardou em sua casa de
Valparaíso, no Chile, hoje aberto à exposição pública.
Não foi, porém, Neruda, o único a
valorizar o quadro, cujo original se encontra no Museu de Arte
Moderna de Nova York, sendo considerado, pela crítica
especializada, devido a sua atmosfera onírica, uma tela
precursora do surrealismo. Para o poeta francês Jean Cocteau, por
exemplo, trata-se de "poesia pintada".
Rousseau pode ser considerado naïf,
ou seja, ingênuo não só em seu estilo, mas também pelas suas
declarações. Na mais célebre, afirmou: "Nada consegue me
fazer mais feliz do que contemplar a natureza e pintá-la.
Acredite, quando vejo o sol e todo aquele verde e todas aquelas
flores, por vezes digo a mim mesmo: ‘Tudo isso me pertence. Tudo
isso é meu".
A afirmação, ao que parece, pode ser
considerada literalmente. Rousseau acreditava que, de certo modo,
tinha certo domínio sobre a natureza. Embora quase todos seus
esboços tenham sido destruídos pela família, após a morte do
artista, já que ela não lhes dava valor, o que restou revela a
grande dedicação do pintor no ato de delinear árvores,
principalmente as de troncos compridos, folhas tremulando ao sabor
do vento e folhinhas de grama espalhadas pelo chão.
Aposentado e em busca de
reconhecimento, Rousseau passou a promover as próprias reuniões
literárias, elaborando convites ilustrados com cores vibrantes em
que descrevia as atividades a serem realizadas. Entre elas,
invariavelmente, incluía a valsa Clémence, de sua autoria, que
tocava, ao violino, diante do retrato da falecida esposa.
Como se pode imaginar, em sua
simplicidade, Rousseau era vítima de numerosas brincadeiras dos
vanguardistas que moravam em Paris. Gauguin, certa vez, por
exemplo, lhe disse que o presidente francês estava encantado com
o seu trabalho e que o aguardava para uma recepção no palácio
dos Campos Elíseos. Crédulo, Rousseau foi, sendo barrado na
entrada por falta de convite.
Em 1899, o pintor reconstrói
brevemente sua vida afetiva, casando-se com Joséphine Noury, que
falece quatro anos depois. Nesse período, ganhava dinheiro com
encomendas de retratos de vizinhos e dava aulas particulares. Mas
as dificuldades financeiras aumentavam.
Oito anos depois, Rousseau pintou um
de seus quadros mais conhecidos, Eu mesmo: retrato-paisagem. Nele,
aparece com o uniforme que utilizava no trabalho, com uma boina
estilo Rembrandt, em frente ao posto de pedágio do rio Sena, onde
há um navio, e paleta na mão, onde estão gravados os nomes de
suas duas esposas, Clémence e Joséphine. Ao fundo, a Torre
Eiffel, retratada, ao que se sabe, pela primeira vez num quadro e,
à esquerda, alguns edifícios típicos da capital francesa. No
céu, um balão, uma das invenções que mais maravilhavam o
período.
A repercussão do quadro foi péssima.
"O retrato-paisagem é a sua própria invenção, e eu o
aconselho a registrar a patente, pois pessoas inescrupulosas
poderão fazer uso dela", escreveu um crítico. Rousseau, no
entanto, não percebeu a ironia e guardou a crítica,
considerando-a um elogio, em seu álbum de recortes, passando a se
auto-denominar, até o fim da vida, "o inventor do
retrato-paisagem".
O tempo lhe deu razão. A tela ficou
tão célebre, que foi escolhida pela direção da Galeria
Nacional de Praga para ser a imagem da capa do catálogo especial
da instituição, quando esta completou 200 anos, em 1996,
deixando para as páginas internas obras de Dürer, Frans Hals,
Picasso e Miró.
Um episódio mal explicado também
ocorreu em 1907. Rousseau foi preso por fraude e desfalque,
embora, ao que tudo indica, ele tenha sido sim vítima da própria
ingenuidade, sem ter qualquer intenção criminosa. Tudo começou
quando um conhecido lhe pediu para abrir uma conta com nome falso
e ele, que confiava em todo mundo, obedeceu sem questionar.
Dinheiro foi então desviado para essa
conta. Descoberto o crime, houve um julgamento, em que quadros de
Rousseau foram mostrados como provas de sua mentalidade
"ingênua" e raciocínio infantil. Após a fala de seu
advogado de defesa, o artista exclamou, em voz alta, "Bem,
já que você terminou, agora podemos ir?". A cena comoveu a
todos e o julgamento foi simplesmente suspenso.
Um ano antes desse fato, o poeta
Guillaume Apollinaire, provavelmente por intermédio de Jarry,
conheceu Rousseau e assumiu o papel de principal divulgador do
artista, quando o criador de Ubu Rei morreu. Rousseau valorizava
tanto essa amizade que registrava todos os encontros com ele num
caderno e pintou Apollinaire com sua companheira, a artista Marie
Laurecin, com trajes de musa grega.
Até o fim da vida, Rousseau pagou
muitas contas com quadros. Um exemplo é a tela A carroça de pai
Juniet (1908), que mostra o verdureiro, credor do artista, com a
família, o cavalo malhado do qual se orgulhava e o cachorro. A
desproporção dos animais chama a atenção, principalmente de um
pintado no canto inferior direito. O mesmo ocorre com os rostos
imperfeitos, que incluem um possível auto-retrato de Rousseau
sobre a carroça, com chapéu.
A modernidade, pouco a pouco, também
invade seus quadros. Há o balão, mencionado no célebre
auto-retrato e telas como Os jogadores de futebol (1908), que
trata o tema de maneira pouco convencional, pois os atletas ficam
praticamente em segundo plano perante a natureza exuberante que os
cerca. Esse quadro, aliás, denuncia uma técnica que o pintor
apreciava: a de realizar esboços ao ar livre e recria-los em
estúdio.
Esses esboços eram muitas vezes
feitos em visitas ao Jardim Botânico. "Sempre que entro nas
estufas e vejo essas estranhas plantas de outras terras, sinto que
estou vivendo um sonho", declarou. Nessa vitória constante
da imaginação sobre a razão, detalhes de plantas que conhecia
muito bem eram aumentadas para criar suas fantásticas florestas,
que ele ingenuamente dizia virem do "México de sua
juventude", enquanto, como sabemos, brotavam sim de sua
fértil imaginação.
Rousseau também disse que seu único
mestre era a natureza e se auto-denominava um pintor realista,
embora pintasse, como vimos, um mundo repleto de fantasias, em que
parodiava, sem desejar, as convenções acadêmicas. Para chegar a
esse resultado, valia-se do pantógrafo, no caso dos animais, e da
observação acurada dos bosques parisienses. Essa mistura
levava-o a um resultado único na História da Arte.
Apollinaire conta que Rousseau
"costumava perambular por Paris recolhendo folhas para
copiá-las", apresentou o artista aos pintores Pablo Picasso
e a Robert Delaunay; e escreveu diversos poemas, a maioria
irônicos, ao "maior artista criador de imagens". Certa
vez, bêbado, recitou os seguintes versos sobre as fictícias
viagens de Rousseau ao México: "Você se lembra, Rousseau,
da paisagem asteca, das mangueiras e dos pés de abacaxi, dos
macacos entornando o suco de melancia e do imperador loiro que foi
liquidado ali? As pinturas que você fez, você as viu no México,
onde o sol vermelho adornava as bananeiras."
O fato é que Rousseau gostava de se
ver rodeado por esses artistas mais jovens e cheios de idéias
que, embora gozadores, viam sua obra como uma fonte de ruptura com
as tradições acadêmicas da arte francesa. Além disso, esses
encontros eram fonte de renda para o artista.
A mãe de Delaunay, por exemplo,
encomendou um quadro, levando Rousseau a pintar A encantadora de
serpentes (1907), em que se destaca um flautista e a lua. A
senhora, que estivera na Índia, apreciou o exotismo da obra,
estimulando o artista a prosseguir com suas florestas
maravilhosamente irreais.
Em 1908, Picasso organizou uma
célebre festa, em seus estúdio em Montmartre, para Rousseau, com
inúmeras gozações e brincadeiras. Tudo começou com a compra
que ele fez de Retrato de uma mulher, pintado em 1895, numa loja
parisiense de quinquilharias. A imagem, que talvez fosse a de
Joséphine, a segunda esposa de Rousseau, foi adquirida por
míseros 5 francos e o proprietário pensou que o artista espanhol
apenas o tinha feito para reaproveitar a tela.
Nessa celebração, Picasso pendurou o
quadro na parede de seu estúdio e convidou a vanguarda artística
do início do século que se reuniu, sob lanternas chinesas,
bandeirolas, guirlandas e faixas em que proclamava a fama de
Rousseau. A gozação prosseguiu durante toda a noite, regada por
mais de 50 garrafas de vinho, brincadeiras e canções.
Apollinaire recitou um poema em que
exaltava o "glorioso pintor de nossa querida
República", enquanto Rousseau, acreditando que seu momento
na História da Arte havia chegado, permanecia sentado em um trono
improvisado de caixas empilhadas, enquanto uma lanterna pingava
cera derretida em sua cabeça.
Quase ao final do encontro, Rousseau
se aproximou do artista espanhol e disse, emocionado: "Meu
querido Picasso, somos os dois grande pintores de nosso tempo.
Você, no estilo egípcio, e eu, no estilo moderno". Talvez
inspirado nessa cena, Picasso tenha dito: "Há uma força
gigante escondida em sua simplicidade".
Outra prova de grandeza de caráter e
espírito naïf foi dada por Rousseau ao fim da vida. O pouco
dinheiro que conseguiu economizar durante os últimos anos foi
gasto em doações a pobres e presentes ao seu último amor
Léonie, uma viúva de 57 anos por quem se apaixonara. Os amigos
até mandaram cartas à senhora, falando das qualidades do artista
como amigo e do seu talento artístico, mas ela, mesmo nomeada
herdeira universal por Rousseau, não cedeu.
A última tela de Rousseau foi um
painel de 2,03 m x 3 m intitulado O sonho, de 1910. Mostra uma
mulher despida num sofá, em meio a uma selva, cercada por
animais. Criticado pelo falta de realismo, o artista respondeu:
"A mulher adormecida no sofá está sonhando que foi
transportada para a floresta e que consegue ouvir a música do
encantador. É assim que explico a composição".
Ao expor o quadro, acrescentou:
"Yadwigha, adormecida e serena, sonha um sonho tão lindo;
ouve um encantador de serpentes tocar a sua flauta. No brilho das
águas e das plantas brilha a luz prateada do luar e as selvagens
serpentes ouvem a graciosa e fascinante melodia". Conta-se
que essa Yadwigha seria uma polonesa pela qual Rousseau teria se
apaixonado pouco antes de morrer.
Frustrado com a falta de
reconhecimento de seu trabalho pelos acadêmicos e sofrendo com
uma ferida na perna que gangrenou por falta de tratamento,
Rousseau morre em 2 de setembro de 1910, sendo enterrado numa vala
comum do cemitério de Bagneaux, em Paris. Somente um mês depois,
os obituários dos jornais noticiaram a morte, realizando
comparações de sua obra com a de Uccello, um dos mestres da
Renascença.
Em 1947, os restos mortais foram
removidos para Laval, onde foi colocada uma lápide com um poema
de Apollinaire dedicado a Rousseau: "Nós te saudamos/ Gentil
Rousseau, que podes nos ouvir/ Delaunay e esposa, Monseiur Queval
e eu./ Libera nossa bagagem através dos portões do paraíso, /
Pois te trazemos pincéis, tintas e telas/ Para que possas
desfrutar de tuas horas sagradas/ Pintando sob a luz da verdade
eterna,/ Tal como pintaste o meu retrato/ Contemplando as
estrelas."
Chegavam assim ao fim as aventuras do
corpo de Henri Rousseau. Sua arte, porém, continuou a incomodar
muita gente. Foi admirada, pela liberdade nas proporções e pela
ruptura com as tradições, por Jarry, que a chamou de naïf, e
pelos contemporâneos Apollinaire e Picasso; e, ganhou,
posteriormente, críticos como Anatole Jacovsky e Oto
Bihalji-Merin, entre outros.
O essencial é que, por ser autodidata
em sua expressão artística e ingênuo em sua forma de enfrentar
o mundo, Henri Rousseau é um marco no mundo naïf, sendo
referencia obrigatória e ponto de partida para todos, artistas,
estudiosos ou críticos que se aventuram na área. Nada mau para
um simples fiscal de alfândega que pintava nos finais de semana.