A arte de
expressar
O pintor
Braque (1882-1963) dizia que “em arte, só uma coisa
conta: o que não pode ser explicado”. Esse pensamento,
embora, sob certos aspectos, simplificador, indica um
caminho para a leitura da poética dos quadros do artista
plástico Helmut C. Schippers, que apresenta uma estética
marcada pelo expressionismo e com um tratamento da tinta a
óleo que muitas vezes se assemelha à liberdade e ao
risco propiciados pela técnica da aquarela.
Nascido
em Rheydt, Alemanha, 1941, Schippers, cujas primeiras
pinturas ocorreram quando ele tinha 17 anos, formou-se em
Engenharia Nuclear na Universidade de Essen, em 1967.
Paralelamente, foi aluno do pintor Mario Barone e cursou
pintura artística, desenvolvendo um estilo marcado pelo
uso das cores na constituição de uma linguagem muito própria,
principalmente pelo vigor das pinceladas, pelo dinamismo e
pela construção de imagens inebriantes, que convidam a
mergulhar em suas cores.
Schippers,
que chegou ao Brasil em 1979 e, entre 1980 e 1990,
trabalhou em duas grandes empresas alemãs, nunca
abandonou a paixão pela pintura. Conta hoje com dois
ateliês, um em São Paulo e outro em Paraty, RJ, nos
quais cria paisagens que brotam de sua rica imaginação,
sempre com a proposta de trabalhar com massas de cores
como ponto de partida para atingir efeitos que mobilizam
internamente o espectador.
A
grande influência expressionista, oriunda da origem alemã,
não se torna um empecilho ou um limitador do talento de
Schippers. Em suas mãos, as referências a outros
pintores do estilo ganham novas dimensões. Foi o que
ocorreu na exposição, “Quadros não pintados –
pintados”, realizada em São Paulo, em 2004, para
homenagear o mestre Emil Nolde, que, com a ascensão do
nazismo, teve boa parte de seu talento reprimido e,
perante a impossibilidade de pintar trabalhos de grandes
dimensões, realizou esboços e aquarelas semelhantes a
cartões postais.
A
partir deles, Schippers criou as suas imagens. Muitas
delas retornam na exposição no Hilton Morumbi, também
de 2004. Paisagens em vermelho, azul e amarelo são
universos de infinita capacidade de criação de
atmosferas. As colorações são postas a serviço do
talento dos artistas de extrair delas as mais variadas
expressões da alma.
As
imagens de céus coloridos, com mares em tons de azul e
verde, conformam conjuntos de elevado impacto, em que a
arte não se explica, mas oferece indagações. Como
apontava o escritor francês Jules Renard (1864-1910), a
arte está em “nunca estar satisfeito”. Essa mobilização
surge nas telas de Helmut C. Schippers e nos cativa e
motiva a ver em suas obras a manifestação de uma poética
densa, que estabelece com o mundo não uma relação de cópia,
mas de recriação expressiva de um universo interior que
encontra, nas tintas, a sua linguagem mais autêntica.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto
de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de
Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando
a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis
de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo).