Hélio
Melo
A
poética do seringal
“A
simplicidade é o último grau de sofisticação”, dizia Leonardo
da Vinci. Esse pensamento do inventor, arquiteto e artista plástico
italiano se aplica muito bem à vida e à obra do pintor acreano Hélio
Holanda Melo, que assina seus quadros como Hélio Melo. Em sua
jornada, caracterizada pelo uso de tinta de extrato de folhas sobre
papel cartão ou em tela, retratou, de maneira diferenciada, o
universo da extração da borracha.
Sua obra
teve um significativo aumento de visibilidade em 2006 no momento em
que ele ganhou, na 27ª Bienal Internacional de São Paulo, a exibição
de parte significativa de seu trabalho. O evento, realizado de 07 de
outubro a 17 de dezembro, com o tema "Como Viver Junto",
contou com um módulo dedicado ao Acre que, além de Melo, reuniu
fotos de Claudia Andujar e pesquisas visuais de três artistas
estrangeiros: Alberto Baraya (Colômbia), Marjetica Potrc (Eslovênia)
e Susan Turcot (Canadá), que passaram por um período de residência
de um a três meses naquele Estado.
A
poética de Hélio Melo apresenta um ato de narrar constante sobre o
que significa ser amazônico e como esse mundo pode atingir um
resultado pictórico altamente significativo não só em termos das
imagens propriamente ditas, mas também por aquilo que evocam.
Em
linhas gerais, as pinturas mostram seres humanos de diminutas proporções
perante um ambiente em que a floresta surge como grande personagem.
Dentro dela, homem, animais e árvores ganham características zoomórficas.
Estas últimas na forma de vacas, que adquirem uma dimensão
sagrada.
Para se ter uma visão
mais ampla da importância da presença da vaca no contexto da criação
visual de Melo, convém lembrar que a seringueira, ao ter seu caule
ferido, libera uma secreção
esbranquiçada. Ela tem a função, uma vez consolidada com a oxidação,
de provocar a cicatrização do tecido lesado por onde fluiu esse líquido.
Largamente
utilizado pela indústria
para confecção de luvas e drenos cirúrgicos de borracha, esse látex
é um material que inclusive pode causar processos alérgicos,
como dermatite
de contato, de intensidade variável e integra o cotidiano dos
seringueiros, sendo às vezes chamado de “leite de árvore”. Daí,
a analogia realizada com a vaca, ou seja, aquela que fornece um
elemento vital para a vida.
Um
seringueiro sem árvores é como um produtor rural sem vacas. Nessa
condição, ambos só têm o caminho da miséria e realizarão o
mesmo percurso: a ida para as principais cidades da região, onde
atuarão, infelizmente, como mão-de-obra pouco qualificada, caindo,
com as exceções de praxe, no subemprego ou na marginalidade.
As
paisagens amazônicas de Melo mostram o homem em meio à floresta.
Trata-se, geralmente, de um seringueiro que, além de seus
instrumentos de ofício para extrair o látex, porta, quase que
invariavelmente um rifle ou facão. Leva, portanto, a proteção
contra um dos maiores inimigos do trabalhador na selva: a onça.
Uma tríade
bem presente nas pinturas do artista é justamente a do seringueiro
armado próximo da árvore e ameaçado pela onça, felino à espera
do descuido. Mas os adversários a serem temidos também são de
outras naturezas. O maior deles certamente é o homem, visualizado
nas motosserras que surgem em algumas telas do artista.
As cenas
de barracões abandonados talvez sejam as mais significativas em
termos da progressiva expulsão que os seringueiros foram sofrendo.
Com a decadência da produção de borracha a partir do látex e a
crescente valorização da madeira, o corte das árvores deixou
milhares de pessoas sem trabalho.
Em seu
processo de migração para as cidades, deixaram casas vazias.
Estas, pelos poucos recursos, já apontavam para uma miséria
social, que apenas se agravou no universo urbano. A mencionada solidão
do seringueiro ganha uma dimensão social preocupante, caracterizada
inclusive pelo início do desaparecimento de diversas atividades próprias
daqueles que trabalham na floresta.
Imagens
de beiras de igarapés, de casas de seringueiro com o homem deixando
a moradia para o trabalho entre as árvores enquanto a mulher fica
presa aos afazeres domésticos e as crianças brincam em meio à
terra são comuns. Imagens de pesca de peixes da região amazônica,
de engenhos de moer farinha, além de instrumentos do trabalho próprios
de quem está em contato direto com a realidade dos seringais.
Esse
trabalho documental, no entanto, embora de inegável importância,
fica até em segundo plano perante o universo visual que Hélio Melo
foi paulatinamente construindo. Se suas imagens da mata,
principalmente, já chamavam a atenção pelo uso de uma espécie de
sffumato, recurso que dá
às suas florestas uma marca registrada que se caracteriza pelo tom
relativamente escuro e pela presença de uma multidão de pontos a
construir aquilo que o espectador enxerga como folhagens, as cenas
de teor menos naturalista ganham valor pela sensação de inusitado
que geram.
Caçadores
de tartarugas empoleirados em árvores, homens com cabeça de
jumento, jumentos sobre árvores, caminhando sobre troncos e árvores
com cabeça de vaca, com o tronco funcionando como corpo, constituem
um mundo à parte. Há ali a criação de uma lógica própria, algo
próximo não só do citado surrealismo, mas também do realismo
fantástico, dentro do princípio que este último cria uma
atmosfera em que imagens que poderiam parecer absurdas ou ilógicas
passam a ser vistas como absolutamente naturais e cotidianas.
A
combinação árvore, homem, jumento e vaca possibilita as mais
variadas alternativas – e Hélio Melo se vale delas com muita
habilidade. Ora a árvore é o local onde o jumento se localiza, ora
integra o corpo da vaca, ora surge como parte de uma santa, ora é a
fonte de trabalho e, portanto, de sustento econômico e familiar do
homem (seringueiro).
Essas
imagens ganham as telas marcadas pela desproporção, notória nas
relações entre as pessoas e os animais ou entre estes e as árvores.
Tal marca, embora gere proximidade com o chamado estilo naïf, está
profundamente relacionada, a nosso ver, a uma das características
mais importantes do artista acreano: a de ver a natureza como a
grande personagem do seu trabalho.
É ela
que domina os olhos de qualquer um na primeira vista que se dá às
obras do criador amazônico. Talvez por isso um certo vazio se faça
presente nas imagens que mostram a floresta destruída. O
desmatamento que ele causa com sua motosserra é visível na presença
de menos elementos nos quadros, com o surgimento de tocos de árvores
no lugar da floresta fechada feita geralmente com o processo de
apertar o pincel sobre a tela para deixar que a tinta salpique de
maneira controlada nas áreas que se deseja pintar.
Mas se a
crítica social, apontada, como se mostrou na introdução deste
trabalho, pela curadora da 27ª Bienal de São Paulo, Lisette
Lagnado, como uma das principais características de Melo, seja na
concepção de imagens de abandono de casas ou da ação de
serradores, o artista permite outras leituras, como a que se faz
possível a partir do quadro de uma imagem de uma Nossa Senhora dos
Seringueiros em que ela se funde com a própria árvore, sendo seu
corpo o tronco do vegetal, observando com atenção um trabalhador
do seringal que corre o risco de ser presa de uma onça próxima
dele.
A
imagem, de um certo teor religioso e – por que não? – místico,
encontra um paralelo, em termos de atmosfera e clima da composição,
na tela que mostra o choro das árvores. Nesse momento, o fantástico,
o político e o espírito de denúncia se mesclam com uma
propriedade pouco presente na mais recente edição da Bienal e na
arte brasileira de modo geral, onde o risco do panfletário costuma
ser um fator que empobrece diversos trabalhos plásticos.
Figuras
caindo de um avião, árvores com tronco curvo que funcionam como
alegorias do trabalho do seringueiro e dos caminhos que faz em cada
tronco de árvore e dentro dos seringais, numa escala,
respectivamente, micro e macrocósmica, constituem uma síntese da
trajetória existencial de um artista que deu asas à imaginação
sem perder o vínculo com a sua terra natal.
Tanto
na imagem do seringueiro colhendo o “leite” da árvore com uma
onça prestes a atacar, como nas das vacas metamorfoseadas em
troncos, Melo cria um universo fantástico em que o látex se torna
leite e onde a riqueza de seu imaginário vem à tona em imagens de
grande intensidade.
Seus
homens de pés descalços, geralmente analfabetos e com pouquíssimas
chances de ascensão social, embora honestos e de boa índole,
contrastam com pessoas, do sexo masculino e feminino, retratadas em
roupas que denunciam certo poder social, só que com rosto de
jumento ou vaca.
A
vaca, que na dimensão do seringal, tinha um caráter sagrado; no
universo urbano, passa a ser vista com uma dimensão conotativa
negativa. São os poderosos, que calçam sapatos e se vestem bem,
aqueles que deveriam liderar os outros e não o fazem, reproduzindo
o modelo que derrubou seringais, desempregou trabalhadores e
marginalizou famílias.
Essa
mensagem de Hélio Melo permanece atual. A comparação de deputados
como cachorros ou a crítica ao Mobral como um movimento de
alfabetização muito mais preocupado em ensinar as pessoas a
assinar o nome para votar do que em formar de fato pessoas críticas
e, muito menos, cidadãos dispostos a lutar pelos seus direitos.
Hélio
Melo com seus jumentos sobre árvores, santas e vacas fundidas a
troncos e imagens do cotidiano da floresta amazônica é um nome a
ser revisitado, merecendo um resgate maior da crítica de arte
nacional. Se, para muitos, a Bienal de 2006 decepcionou pela
qualidade dos trabalhos apresentados, pelo menos teve o mérito de
colocar de volta ao circuito nacional um pintor universal,
brasileiro, acreano e, acima de tudo, representante da floresta amazônica
naquilo que ela tem de pior, a destruição a que é submetida, e de
melhor, sua magia e grandiosidade ímpar. Tudo isso com a
simplicidade plástica plena de sofisticação anunciada por
Leonardo.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP,
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil).