por Oscar D'Ambrosio


 

 


Hélio Bartsch

 

            As janelas conquistadas

 

            Machado de Assis, no capítulo LI de seu imortal Memórias póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881, apontava que o protagonista havia descoberto uma “lei sublime”, a da equivalência das janelas: “(...) estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência”.

            As janelas e as grandes inteiras ou destruídas pintadas pelo artista plástico Hélio Bartsch caminham nessa mesma direção. Elas constituem autênticos gritos solitários de uma arte que deseja dialogar com o público, no sentido de transmitir algum tipo de mensagem. Não se trata de arte discursiva, mas de construções visuais em busca de um interlocutor.

            Nascido em São Paulo , em 1º de outubro de 1972, o caminho do aprendizado de Bartsch incluiu atuar  como assistente de pintura do Frei Pedro, artista franciscano, participação no Encontro Latino-Americano de Artistas Gráficos, na Argentina, e formação em Artes Plásticas na Faculdade Santa Marcelina.

            Trabalho em feiras, bienais e galerias, como assistente, na Casa Triângulo e na Galeria Thomas Cohn, vão construindo um repertório visual próprio, que inclui levar para a pintura imagens de ovos, bexigas e, mais recentemente, telas de plasma. De todos esses trabalhos, aqueles erguidos plasticamente com imagens de janelas e grades apresentam um pensamento mais elaborado.

            Como aponta Machado, existe ali um exercício artístico de abrir e fechar possibilidades de reflexão sobre o mundo. Em Manhã, por exemplo, a luz vem de fora, na forma de um amarelo que cativa, como a esperança de um novo dia, de atingir possibilidades anteriormente negadas.

            Refluxo, Face opcional, Rompendo o lacre e Cesto, assim como Reforçado, prosseguem nessa linha de raciocínio. Oferecem ao observador a poética do aprisionado, daquele que deseja escapara de alguma maneira e, por isso, as bexigas tornam-se a força compensadora que possibilita libertar-se das rígidas grades que cerceiam a caminhada.

            Nesse sentido, talvez uma das obras melhor realizadas pelo artista seja Nossa Senhora, de 2004. Temos nessa pintura, em acrílica sobre tela, a força que destrói as mencionadas grades e prisões. Ocorre aqui o principal mote da arte de Bartsch, ou seja, as grades fecham espaços e, com a retirada das barras, surgem janelas abertas.

            Os pedaços de grades que permanecem nas telas indicam justamente o esforço de todo ser humano de romper dificuldades. Isso pode ocorrer, mas as cicatrizes ficam. A metáfora das grades retorcidas em meio às janelas recém-abertas pode ser o ponto de união de um conjunto de trabalhos a dialogar abertamente com o público.

            Seja por meio de uma janela existente ou de uma conquistada, a arte de Hélio Bartsch nos brinda a rica possibilidade de simbolizar uma das principais dificuldades da arte contemporânea: a dos jovens artistas encontrarem espaço.  Para ser vitorioso, ele necessita, como apontava Machado de Assis, aprofundar-se na prática do domínio da arte de abrir e fechar janelas, construindo uma lírica visual com o equilíbrio e a homogeneidade que lhe permita conquistar visibilidade. 

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 
 

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Nossa Senhora
acrílica sobre tela 225 x 175 cm 2004
Coleção Guillermo Federico Gutierrez Arranz

Hélio Bartsch

 

 

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