por Oscar D'Ambrosio


 

 


Helga Miethke

 

            Uma viagem pela terra

 

            Dante Alighieri, em sua obra-prima, na parte dedicada ao Paraíso, ao se referir à Terra, escreveu que era o “canteiro que nos torna tão ferozes”. A artista plástica alemã   Helga Miethke, radicada no Brasil desde os anos 1960, mostra como a frase do célebre poeta italiano faz sentido.

            Na exposição Geo + Grafias, na Mônica Filgueiras Galeria de Arte, em São Paulo, SP, de 24 de novembro de 2005 a 10 de janeiro de 2006, ela mostra um trabalho consistente em que se utiliza de terra, mica, tinta acrílica, areia preta e conchas fragmentadas.

            O resultado é a construção de uma escrita da terra, alusão clara do nome de sua mostra. No entanto, as imagens criadas pela artista evocam outras possibilidades. Existe uma plural construção de território a serem desvendados pelo olhar de cada um. Áreas em preto, ocre ou vermelho apontam não só para mapas aéreos, mas, acima de tudo, para visões da interioridade de cada observador.

            Explico melhor. Perante os trabalhos de 1 m x 1,40 ou de 30 cm x 30 cm, cada pessoa que visita a galeria fará a sua escolha individual, principalmente pelos sentimentos na concepção das cores e das formas geradas pela artista. Isso significa eleger entre as Geo + Grafias mais claras ou mais escuras ou entre as criações que aludem a territórios onde é possível visualizar certos contornos que evocam imagens reconhecíveis.

            O trabalho de Helga com os pigmentos, portanto, é uma viagem pelas possibilidades da própria arte de falar de si mesma. A artista realiza as mais diversas jornadas visuais na composição de climas emocionais e atmosferas. Se há imagens que evocam a Pré-História ou desenhos em solo mexicano, isso é o menos importante.

            O diálogo da artista é com a matéria – e isso se evidencia em trabalhos como Geo Grafia 4, em que existe o forte compromisso em criar um mundo próprio com os elementos  que a terra oferece. A ilimitada potencialidade de criar é desafiada pelas texturas e cores do material escolhido para que Helga exercite seu potencial demiúrgico.

            Se lembramos que, em diversos mitos e religiões, o homem está ligado à terra torna-se evidente que as obras de Helga falam do ser humano a todo instante. Ele não está ali de maneira figurativa, óbvia, mas sim sabiamente sugerida e escondida em cada composição perpetrada pela artista.

            Vistas de longe, as imagens podem parecer mapas vistos de satélites, mas as suas texturas, quando próximas, apontam para uma humanidade pungente, até neurológica, com dezenas de elos entre cores e materiais em nome de um compromisso estético e experimental.

            Embora sem seres humanos presentes, a estética de Helga traz uma humanidade pungente, acentuada inclusive nas obras menores, em que as possibilidades dos materiais são aproveitadas de numerosas maneiras, numa espécie de caleidoscópio terroso, que confirma a máxima de Dante sobre o potencial de ferocidade da terra.

            Helga Miethke, sob a aparente tranqüilidade e serenidade de suas escritas da terra, apresenta um trabalho pronto a gritar a qualquer momento. Há em cada imagem uma espécie de grafia de desespero dos materiais, maltratados pelo homem. Assim como os vulcões da natureza podem entrar em erupção sem aviso prévio, os instigantes trabalhos da artista parecem nos alertar que, em cada grão de terra, há um gigante adormecido preparado para explodir.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 
 

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   geo grafia 8 
terra, tinta e base acrílicas 1m x 1,40 m 2003

Helga Miethke

 

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