Heleninha
Botelho
Os seres de pedra
O simbolismo da pedra está
geralmente ligado à solidez e à construção de obras que
resistem ao tempo. Imagine, porém, telas com seres
aparentemente de pedra que começam a definhar, fundindo-se com
o meio ambiente. Esse é o resultado a que chega o trabalho pictórico
de Heleninha Botelho.
Nascida
em Várzea Grande, MT, em 1º de outubro de 1948, a artista teve
como mestres Geracy Biachini, Suzana Vilella e Camol d’Évora.
Surgiu daí uma obra que, após diversos anos vinculada ao
impressionismo, apresenta hoje a sua vertente mais interessante,
na forma como dá vida aos mencionados seres de pedra.
O
que há de mais fascinante nesses seres é a forma como são
construídos. Muito mais do que técnica apurada, há nessas
imagens uma intensa sensibilidade. Elementos românticos e
expressionistas se mesclam num resultado que não perde
referenciais concretos de paisagem, mas que de forma alguma se
limita a copiar a realidade.
Enquanto
o impressionismo pode ser vislumbrado no tratamento dos fundos e
na leveza que impregna as telas, o expressionismo se faz
presente no vigor das pinceladas e no trabalho com massas de
cor, capaz de gerar diversas combinações, mas sempre
estabelecendo no observador uma interrogação: como esses
seres, embora compactos, parecem se desmanchar?
Seja
em casais apaixonados trocando um beijo ou
em seres solitários com os braços estendidos
horizontalmente, as telas de Heleninha Botelho mantêm a
capacidade de estabelecer universos mágicos. Essa dimensão se
torna ainda mais aguda quando a artista mostra uma série desses
seres colocados lado a lado. Trata-se de uma espécie de exército
de Brancaleone. Não se sabe o ponto de partida nem de chegada,
mas fica evidente o movimento presente na obra.
A
poética de Heleninha Botelho está na capacidade de dar alma
aos seus seres de pedra. Eles conseguem transmitir humanidade em
sua rigidez e, embora sendo aparentemente líricos pelas situações
em que aparecem, há neles uma certa violência em potencial que
os torna ainda mais ricos em conotações que desafiam e
encantam, maravilham e nos lembram da fugacidade humana,
metaforizada na pedra que se desmancha pelo próprio lirismo de
existir.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional
de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando
a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).