As luzes que brilham
Para Albert Einstein (1879-1955), “tudo
deveria ser tornado tão simples quanto possível, mas não mais
simples do que isso”. A pintura de Helena Pedra é uma
demonstração disso. Seus quadros apresentam imagens próprias
dos pintores autodidatas, como evocações da infância e do
interior, mas isso não as torna simplistas ou infantis. Há nelas
o que caracteriza a produção artística de qualidade: a
composição bem estruturada e o senso de equilíbrio formal.
Nascida em Mirabela, no município de
Montes Claros, em Minas Gerais, em 23 de junho de 1964, Helena
Pedra começou a desenhar em 1986 e se iniciou na pintura cinco
anos depois, com temas folclóricos e populares, que logo
conquistaram espaço pela delicadeza no tratamento das cores.
Casada com o pintor Lindorico Pedra,
ao lado de quem expõe na Feira de Arte e Artesanato em Belo
Horizonte, MG, Helena já vendeu quadros para colecionadores do
Brasil, Holanda, México e França, a artista retrata festas, como
casamentos na roça, imagens de praias à distância e cenas
típicas do interior mineiro.
A alegria de uma festa junina é
tratada com todos seus elementos típicos, com destaque para as
bandeirinhas coloridas, que se encontram na base da cruz da
igreja, com paredes brancas e janelas azuis, que se destaca no
arraial. As pessoas, com roupas coloridas e vestidos listrados na
horizontal, participam de animada quadrilha, numa contagiante
mescla de cores.
A impressão do espectador é que a
artista subiu numa das muitas colinas mineiras para realizar o
trabalho. Ao fundo, uma lua cheia bem branca surge entre outros
morros, integrando-se à paisagem e ampliando a atmosfera de
encantamento propiciada pelo quadro. Devido à intensa variação
cromática, que inclui tons de vermelho, amarelo, azul e verde,
há um dinamismo interno que transmite a alegria de uma festa
junina do interior do Brasil.
Quando a temática se volta para a
praia, mantém-se a imagem distanciada. As figuras humanas mal
são vistas sobre uma pequena região com areia, colocada junto a
uma área com vegetação natural. Ao lado esquerdo, pequenas
casas indiciam a existência de um vilarejo. Esses universos da
terra, da água e do céu azul bem claro se conjugam com lirismo,
num Éden habitado por seres comuns num simples momento de lazer.
De fato, no universo pictórico de
Helena Pedra, o cotidiano pode ser mágico e universal. É o que
comprova sua tela Final de missa, no qual pessoas são flagradas
na saída de seu encontro com Deus.Com roupas coloridas e rostos
às vezes verdes, deixam a casa divina para, ao descer uma escada
feita sem perspectiva, bem ao estilo primitivista, integrar-se ao
mundo profano, conversando, provavelmente sobre assuntos de toda
ordem e indo tomar sorvete num carrinho junto à praça com muitas
flores, de proporções também exageradas em relação às
pessoas.
Em Romeu e Julieta, Shakepeare colocou
na boca do protagonista palavras que ilustram bem o fascínio e a
simplicidade da autêntica beleza, seja de uma pessoa ou de uma
obra de arte: “Ela ensina as luzes a brilhar”. Os quadros de
Helena Pedra têm esse estranho poder, pois sua luminosidade
peculiar transmite uma intensa alegria de viver, enquanto as cores
transportam para uma sociedade ideal em que o sofrimento
simplesmente parece não existir.
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).