Helena Coelho
A Pintura como Instinto
Primordial
Para alguns artistas, o ato de pintar
é uma necessidade vital. Helena Coelho insere-se nesse seleto grupo.
Talvez isso ocorre, porque, para ela, a pintura veio tarde. Somente aos
40 anos, quando sentiu o impulso irrefreável de expressar seu rico
mundo interior por meio de cores e pincéis, é que ela passou a
alimentar o sonho de ser artista.
O desejo se tornou realidade após
muito trabalho. Suas telas enfocam os mais variados temas. Há aquelas
que se inspiram no cotidiano, que deram origem a quadros, como O
quintal da minha infância ou Contadora de Histórias,
imagens que evocam as lembranças da artista.
Mas suas cores vivas não se limitam à
busca de um passado perdido. Incluem a crítica social. Nessa vertente,
destacam-se imagens de crianças ralando farinha de mandioca; de políticos
promovendo refeições para adular os pobres e angariar votos; e ainda
de bailarinos negros se apresentando no Teatro Municipal do Rio de
Janeiro para uma platéia também repleta de espectadores de cor.
Lendas populares, como a cobra grande,
também merecem telas de Helena. Ela não só reproduz as histórias já
existentes, passando-as da cultura oral para a imagem, mas também cria
lendas e, se confessa que não as escreve, para se concentrar apenas na
atividade pictórica, dá-lhes vida em imagens coloridas, dinâmicas e
poéticas.
Outra imagem de Helena Coelho que
estimula a imaginação é Luta de Box. O ringue é pintado
cercado de cabeças e corpos interessados no combate, sendo até possível
visualizar uma câmara de televisão em meio às roupas e rostos
coloridos. Dentro do ringue, há uma imagem inusitada: cascas de banana
jogadas pelo público. Detalhes como o balde de água, os banquinhos
para os pugilistas e as toalhas também são lembrados numa cena
pujante, plena de movimento.
A produção de Helena, emocionalmente
intensa, talvez se justifique pelo seu despertar tardio para arte. Antes
disso, mal teve tempo para viver, no sentido pleno da palavra, quanto
mais para pintar. Nascida em 1949, Helena, de origem humilde, perdeu o
pai aos sete anos de idade, sendo criada por uma tia-avô, costureira.
Seu primeiro emprego, cinco anos depois, foi justamente como ajudante de
costura num ateliê. Aos 15 anos, era vendedora numa loja de móveis.
Fixou-se depois na função de secretária, que exerceu em diversas
empresas, tendo se aposentado na Nuclebrás – Empresas Nucleares
Brasileiras S. A., hoje INB – Indústrias Nucleares do Brasil S. A.,
ligada à Comissão Nacional de Energia Nuclear, onde trabalhou por 22
anos.
Agora Helena tem tempo integral para se
dedicar à pintura. Na verdade, Helena começou sua aventura artística
bem mais cedo, pois, ainda criança, costumava escrever e encenar peças
de teatro com fantoches de papier maché que ela mesma produzia.
Cobrava ingressos para esses espetáculos improvisados e passou a
admirar esse tipo de representação popular, como o teatro de
mamelungo, presente em algumas de sus telas. Para ganhar a vida,
revendeu jornais, revistas e livros usados, além de engraxar os sapatos
da vizinhança.
Quando surgiu seu amor pela pintura,
Helena Coelho buscou ajuda. Freqüentou um curso livre de pintura, mas
foi largada entre potes de guache e cartolina sem nenhum tipo de orientação.
Não desistiu. Continuou sua busca e foi aconselhada a estudar na Escola
de Belas Artes. Mas o caminho era longo. Seriam cinco anos de desenho
acadêmico antes de lidar com aquilo que Helena tinha uma paixão à
primeira vista: tinta a óleo.
Para piorar, um professor chegou a
dizer a Helena que a arte que realizava espontaneamente sem conhecer
ainda qualquer tipo de técnica "não tinha valor artístico".
Com esse desespero em mente, ela foi aconselhada a buscar Lucien
Finkelstein, presidente-fundador do Museu Internacional de Arte Naïf
(Mian), no Rio de Janeiro.
Finkelstein notou nas primeiras telas
de Helena a presença de um talento inato, natural, espontâneo, que
começava a ficar prejudicado pelos "ensinamentos" acadêmicos
que Helena buscava introduzir em sua pintura. Estimulou-a a esquecer os
cursos e a buscar em si mesma a solução para os problemas técnicos
que se lhe apresentavam.
E Helena perseverou. Trabalhava à
noite, após o expediente como secretária, com muita força de vontade
e extrema dedicação. Passava as madrugavas pintando. E o resultado
veio, motivando a realizar, em 1998, uma exposição de três meses
dentro do Projeto Futuros Grandes da Arte Naïf. O sucesso estimulou
Helena a continuar suas telas repletas de detalhes, que podem levar
cerca de 20 dias para ficarem prontas, sempre com um trabalho minucioso
e intenso.
Quem a vê hoje não diz que um dia
chegou a passar fome e a buscar alimento em latas de lixo. Helena Coelho
é uma artista consciente do papel da arte em seu equilíbrio mental e
em sua relação com a sociedade. Com imagens plenas de detalhes,
"digna dos iluministas da Idade Média", segundo Finkelstein,
a pintora traz sua alegria de viver e seu entusiasmo à toda prova, a
telas plenas de densidade psicológica e vitalidade.
Oscar D'Ambrosio