por Oscar D'Ambrosio


 

 



Helena Coelho

A Pintura como Instinto Primordial

Para alguns artistas, o ato de pintar é uma necessidade vital. Helena Coelho insere-se nesse seleto grupo. Talvez isso ocorre, porque, para ela, a pintura veio tarde. Somente aos 40 anos, quando sentiu o impulso irrefreável de expressar seu rico mundo interior por meio de cores e pincéis, é que ela passou a alimentar o sonho de ser artista.

O desejo se tornou realidade após muito trabalho. Suas telas enfocam os mais variados temas. Há aquelas que se inspiram no cotidiano, que deram origem a quadros, como O quintal da minha infância ou Contadora de Histórias, imagens que evocam as lembranças da artista.

Mas suas cores vivas não se limitam à busca de um passado perdido. Incluem a crítica social. Nessa vertente, destacam-se imagens de crianças ralando farinha de mandioca; de políticos promovendo refeições para adular os pobres e angariar votos; e ainda de bailarinos negros se apresentando no Teatro Municipal do Rio de Janeiro para uma platéia também repleta de espectadores de cor.

Lendas populares, como a cobra grande, também merecem telas de Helena. Ela não só reproduz as histórias já existentes, passando-as da cultura oral para a imagem, mas também cria lendas e, se confessa que não as escreve, para se concentrar apenas na atividade pictórica, dá-lhes vida em imagens coloridas, dinâmicas e poéticas.

Outra imagem de Helena Coelho que estimula a imaginação é Luta de Box. O ringue é pintado cercado de cabeças e corpos interessados no combate, sendo até possível visualizar uma câmara de televisão em meio às roupas e rostos coloridos. Dentro do ringue, há uma imagem inusitada: cascas de banana jogadas pelo público. Detalhes como o balde de água, os banquinhos para os pugilistas e as toalhas também são lembrados numa cena pujante, plena de movimento.

A produção de Helena, emocionalmente intensa, talvez se justifique pelo seu despertar tardio para arte. Antes disso, mal teve tempo para viver, no sentido pleno da palavra, quanto mais para pintar. Nascida em 1949, Helena, de origem humilde, perdeu o pai aos sete anos de idade, sendo criada por uma tia-avô, costureira. Seu primeiro emprego, cinco anos depois, foi justamente como ajudante de costura num ateliê. Aos 15 anos, era vendedora numa loja de móveis. Fixou-se depois na função de secretária, que exerceu em diversas empresas, tendo se aposentado na Nuclebrás – Empresas Nucleares Brasileiras S. A., hoje INB – Indústrias Nucleares do Brasil S. A., ligada à Comissão Nacional de Energia Nuclear, onde trabalhou por 22 anos.

Agora Helena tem tempo integral para se dedicar à pintura. Na verdade, Helena começou sua aventura artística bem mais cedo, pois, ainda criança, costumava escrever e encenar peças de teatro com fantoches de papier maché que ela mesma produzia. Cobrava ingressos para esses espetáculos improvisados e passou a admirar esse tipo de representação popular, como o teatro de mamelungo, presente em algumas de sus telas. Para ganhar a vida, revendeu jornais, revistas e livros usados, além de engraxar os sapatos da vizinhança.

Quando surgiu seu amor pela pintura, Helena Coelho buscou ajuda. Freqüentou um curso livre de pintura, mas foi largada entre potes de guache e cartolina sem nenhum tipo de orientação. Não desistiu. Continuou sua busca e foi aconselhada a estudar na Escola de Belas Artes. Mas o caminho era longo. Seriam cinco anos de desenho acadêmico antes de lidar com aquilo que Helena tinha uma paixão à primeira vista: tinta a óleo.

Para piorar, um professor chegou a dizer a Helena que a arte que realizava espontaneamente sem conhecer ainda qualquer tipo de técnica "não tinha valor artístico". Com esse desespero em mente, ela foi aconselhada a buscar Lucien Finkelstein, presidente-fundador do Museu Internacional de Arte Naïf (Mian), no Rio de Janeiro.

Finkelstein notou nas primeiras telas de Helena a presença de um talento inato, natural, espontâneo, que começava a ficar prejudicado pelos "ensinamentos" acadêmicos que Helena buscava introduzir em sua pintura. Estimulou-a a esquecer os cursos e a buscar em si mesma a solução para os problemas técnicos que se lhe apresentavam.

E Helena perseverou. Trabalhava à noite, após o expediente como secretária, com muita força de vontade e extrema dedicação. Passava as madrugavas pintando. E o resultado veio, motivando a realizar, em 1998, uma exposição de três meses dentro do Projeto Futuros Grandes da Arte Naïf. O sucesso estimulou Helena a continuar suas telas repletas de detalhes, que podem levar cerca de 20 dias para ficarem prontas, sempre com um trabalho minucioso e intenso.

Quem a vê hoje não diz que um dia chegou a passar fome e a buscar alimento em latas de lixo. Helena Coelho é uma artista consciente do papel da arte em seu equilíbrio mental e em sua relação com a sociedade. Com imagens plenas de detalhes, "digna dos iluministas da Idade Média", segundo Finkelstein, a pintora traz sua alegria de viver e seu entusiasmo à toda prova, a telas plenas de densidade psicológica e vitalidade.


Oscar D'Ambrosio

 

 

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O Quintal da Minha Infância
O.S.T - 19X27 - 1997
Helena Coelho

 

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