Harabara
O poder
do detalhe
Uma das
maiores fascinações da arte dos pintores autodidatas está na forma
como encontram o seu caminho. Mais cedo ou mais tarde, cada um
consegue definir a sua expressão de mundo, estabelecendo uma
linguagem poética própria. No caso de Harabara, a palavra mágica é
o amor ao detalhe e a busca inquieta pela produção cada vez mais
aperfeiçoada em termos técnicos.
Nascida
em 7 de agosto de 1960, em São Paulo, SP, Sueli Harabara, que
assina os quadros com o sobrenome, passou a infância e a
adolescência numa chácara em contato direto com a natureza. Lembra
até hoje dos dias prazerosos em cima das árvores, com um gato no
colo e papel e lápis sempre na mão.
O pai,
filho de russos, desenhava e pintava com grande senso de detalhe.
Significativamente, tanto o pai como a filha nunca fizeram curso
de pintura. Em 1982, mudou com a família para Cuiabá, MT, onde
morou por 15 anos e fez o curso de Economia.
Posteriormente, mudou para Fortaleza, CE, Campo Grande, MS e
Maringá, PR, voltando, depois, para Cuiabá, MT. Em 1997, retornou
para o Estado de São Paulo, para a cidade de Morungaba, terra onde
nasceu a sua mãe, filha de imigrantes italianos. Ali, além de
pintar dirige o Grupo Morunga de Arte Teatral.
Harabara
começou a desenhar com dois anos de idade. Logo se destacou,
ganhando prêmios em diversos concursos de desenho e sendo
requisitada pelos professores para ilustrar as aulas na lousa e
por colegas para criar imagens para os trabalhos escolares. Em
Cuiabá, realizou numerosos desenhos em papel canson sobre a
Chapada dos Guimarães que eram vendidos para os turistas,
principalmente os estrangeiros.
Como faz
retratos em grafite desde os 14 anos, o amor ao detalhe parece
estar inserido em todo o seu trabalho. Suas casas bem pequenas e
arabescos de refinada feitura logo chamam a atenção do observador
e revelam uma artista que busca a perfeição em cada gesto
realizado sobre a tela.
Em sua
temática, há lembranças de infância, imagens da natureza e,
principalmente, a figura feminina. Mas esses aspectos têm em comum
a forma de pintar caracterizada pelo detalhismo e pela combinação
cromática esmerada. Nas imagens religiosas, as figuras dos santos
são colocadas no centro da tela e, ao redor, existe um trabalho de
grande paciência, no qual são estabelecidas diversas molduras
decorativas.
Quando
cria anjos isolados, Harabara mostra maior liberdade de criação.
Eles surgem cantando e os detalhes das asas e do fundo tornam
estas telas bastante expressivas e com maior grau de
originalidade, já que as figuras divinas ganham uma humanidade
contagiante.
Essa
proximidade das imagens ao mundo do observador é ainda mais forte
nas cenas rurais. As pinceladas curtas são evidentes nos contornos
das árvores ou nas próprias plantações, criadas de maneira
regular, harmônica e equilibrada. As figuras humanas dão vida à
composição, estabelecendo uma atmosfera quase idealizada, em que o
duro trabalho no campo é suavizado pelas cores alegres e o ludismo
da repetição de elementos.
Harabara
também se mostra uma retratista sensível. Suas mulheres adultas ou
crianças impressionam pelas expressões geralmente tristes. O
ambiente é tratado com menor riqueza de detalhes, de modo que a
figura humana ganhe mais destaque. São imagens de pessoas
pensativas, imersas em si mesmas, sentadas ou debruçadas em
janelas.
Um
alerta para a artista é o risco que pode vir do uso exagerado de
arabescos. Eles podem tornar as composições excessivamente pesadas
e com uma simetria prestes a cansar o olhar. Não importa o tema
que adote, Harabara tem o conhecimento técnico que lhe permite
ousar mais na liberdade de criação.
As cenas da zona
rural são exemplares. Ao deixar fluir o pincel, consegue
resultados significativos. Seu amor ao detalhe pode produzir
efeitos de grande impacto visual, principalmente quando o traço
delicado, seja uma flor ou um objeto decorativo, preenche a tela
com rigor e segurança.
A simetria alcançada
nas composições das figuras religiosas pode ser levada para o
mundo rural. A combinação entre a espiritualidade e o detalhamento
é um paradigma a ser seguido. Uma imagem de colheita com esmerado
acabamento certamente é um universo no qual a artista paulista
pode expressar toda a sua poética, menos preocupada com o rigor da
repetição de um traço ou gesto – e mais disposta a dar asas a sua
habilidade com o desenho e a sua criatividade em termos de
criação.
Entre
suas referências, destaca Leonardo da Vinci, Van Gogh e o
primitivista Chico da Silva, mundos distintos que podem lhe servir
de inspiração. Do mestre italiano, Harabara tem a habilidade do
desenho; do holandês, a facilidade de lidar com as cores; e, no
artista brasileiro, pode encontrar uma referência em termos de
busca constante de soluções criativas, nunca se acomodando num
modelo que deu certo.
Harabara
tem um grande potencial como desenhista e colorista. Necessita
explorar ao máximo esses aspectos, utilizando a sua habilidade com
o detalhe para atingir resultados cada vez mais expressivos e
criativos, desenvolvendo uma linguagem própria, que comece a lhe
assegurar um espaço no mercado. Talento e determinação não lhe
faltam. Essas características, somadas à busca do aprimoramento em
cada trabalho, são o caminho seguro para que a sua obra ultrapasse
as fronteiras de Morungaba e ganhe novos horizontes.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de
Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a
arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).