por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Gustavo Rosa

 

            A misteriosa simplicidade

 

            Considerado por muitos um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira, Gustavo Rosa desafia os críticos de artes pela aparente simplicidade de seu trabalho. De onde surge o sucesso de público e de parte da crítica que o acompanha? Atribuir o fato apenas à empatia que suas figuras gordinhas sem pescoço geram seria simplificar a questão.

            Autodidata, nascido em são Paulo, em 20 de dezembro de 1946, Rosa tem destaque no cenário nacional e no exterior em boa parte por apresentar um trabalho limpo, contido, bem definido e com um estilo inconfundível. Não há dúvidas da intensa comunicabilidade de sua obra que agrada a observadores de todas as idades.

            O grande segredo, parece, está em trabalhar a realidade sempre de maneira lúdica. As figuras parecem se comportar com ironia nas mais variadas situações, embora não esbocem sequer um sorriso. As formas e as cores se encarregam de compor imagens em que o cotidiano ganha um viés humorístico.

            Acima de tudo, Rosa tem a liberdade de criar como princípio norteador de seu trabalho. O fato de utiliza o mínimo de textura possível, com fundos muitas vezes monocromáticos e com destaque para a figura humana ressalta o estilo bem definido e a variação de situações.

            Seja uma banhista ou um malabarista, as pessoas que surgem nas telas de Rosa tem a simplicidade daquele que faz com habilidade e apresenta um resultado que parece que não deu trabalho algum. Isso se torna evidente nas mulheres. Seus rostos e corpos arredondados que, à primeira vista, poderiam ser grotescos, esbanjam uma misteriosa sensualidade.

            A forma como trabalha os olhos também é uma marca registrada do artista paulistano. Ele os constrói de maneira que sempre nos encaram, seja quando se trata de homens, mulheres ou mesmo cavalos ou gatos. O importante é que eles interagem com quem está de frente para as telas.

            Há em Rosa a capacidade de flagrar momentos e congelá-los. Figuras deitadas, vestidas ou nuas, também integram um universo em que o único pecado parece ser a perda da capacidade de criar. Por isso, o pintor não se filia a estilo, movimentos ou grupos de vanguarda.

            O seu maior compromisso é com a capacidade de fazer parecer simples o seu saber adquirido, uma poética da limpeza em que a escolha de cores é primordial. Elas são um ponto essencial para que o lirismo proposto funcione. Surgem assim com naturalidade bocas pintadas de verde, olhos vermelhos ou pessoas com um olho de cada cor.

            O compromisso de Gustavo Rosa não é com nenhuma espécie de realismo. Sua premissa básica é a manutenção do dever de criar sempre. Assim, homens e mulheres nas mais diversas posições surgem com espontaneidade, numa mescla única de lirismo e humor. Para o artista, a realidade torna-se a matéria-prima de um trabalho sólido e consagrado, mas que desafia pela sua aparente simplicidade misteriosa.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 
 

 

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 Série Caras 
óleo sobre tela 30 x 25 cm 2005

Gustavo Rosa

 

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